Benigno

Na semana passada, me convidaram para uma festinha em um super apartamento aqui em São Paulo — era aniversário da Fantine Thó, minha Rouge preferida, e um dos donos da casa me convidou. Assisti, até as três da manhã, uma jam com a Fantine e seus amigos mais próximos. Foi lindo, gente que vive de música. Eu pagaria dinheiro para assistir a isso de novo. Quando eu tinha uns 15 anos e ouvia Rouge, jamais imaginaria que isso poderia acontecer.

No dia seguinte, foi aniversário de uma amiga minha. O marido dela inverteu as velas, de 28 para 82, eu ri e pensei em como seria incrível estar com ela no aniversário de 82 anos e vê-lo fazer o mesmo. Me perguntei por um segundo se ainda seremos amigas; é claro que sim.

Meu aniversário é em algumas semanas, também vou fazer 28 anos, e vou completar essa idade no voo para Nova York. Eu me dei de presente a viagem. Vou passar uma semana lá. Tem dias que eu só levanto da cama porque preciso de dinheiro para pagar essa viagem. Ainda bem que ela existe.

Ontem, decidi, de vez, que em 2018 vou para a Itália reconhecer minha cidadania italiana. Voltei a fazer as aulas online de italiano. Eu aprendo idiomas muito fácil, é um desperdício eu só falar português e inglês. Fiz marmita para o resto da semana e criei alertas de voos. Até decidi uma data. Tem uma letra de uma música italiana que eu gosto muito, que é “la vita è una breve vacanza dall’eternità”, e tento imaginar a foto que vou postar no Instagram em alguns meses com uma paisagem bem italianíssima e essa legenda.

Hoje à noite vou apresentar a leitura do musical que um amigo escreveu. É a primeira vez que faço isso e ontem, no ensaio geral, eu não conseguia parar de rir. Ficou lindo. A história é linda. Fala sobre o tempo e sobre o amor. Uma personagem é jornalista e está indo para Nova York. Eu faço coro, mas, se pudesse escolher uma personagem, escolheria ela.

Hoje cedo recebi o email marketing de uma escola de dança perto de casa que vai começar a oferecer aulas de sapateado neste sábado. Eu vou viajar nesta semana, mas na próxima vou começar a fazer. Faz muito tempo que quero fazer aula de sapateado, acho incrível. Eu não danço bem, mas adoro dançar. Também vou voltar a fazer jazz e dar um jeito nesse alongamento, vou fazer um pernão um dia, de botar a perna na orelha no meio da coreografia.

Ontem fui dormir mentalizando que hoje seria um bom dia. Eu sempre durmo feliz depois de ensaiar e sempre penso isso. Hoje, eu acordaria cedo, buscaria o resultado do meu raio x e mostraria para todo mundo a lasca no meu osso da perna. Virou uma piada recorrente na última semana — esse osso meio quebrado que nunca doeu e eu não faço ideia de como quebrei. Quero emoldurar esse raio-x de tão bizarro que é ter um pedaço do osso pra fora.

“é um tumor”.

Que?

“mas é provável que seja benigno”

Como assim, um tumor?

“muito provavelmente é um tumor. E muito provavelmente benigno”

Mas não era um osso quebrado??

“existe a chance. Mas pela imagem já dá pra ver e parece muito com um tipo específico de tumor que é blablablá”

Como assim?? Por que isso aconteceu? Por que agora? Por que comigo? Dá pra tratar? Tem que operar? Eu vou perder a perna?

“Não precisa se preocupar. Não é câncer. Vamos cuidar disso”