Dois gatos pingados fora da lei

Por motivo nenhum, falamos do Ed Motta no trabalho e tive um flash da noite que estava com dois amigos no karaokê. Era véspera da minha mudança de cidade e alguns meses antes de eu me mudar de país; de certa forma, era a hora extra do meu último rolê em São Paulo, e um cara do Tinder com quem eu estava falando há uns dias mandou mensagem perguntando onde eu estava. Falei onde era, que estava com esses amigos e que ele poderia colar se quisesse. Uma meia hora depois, ele apareceu lá e eu percebi que tinha trazido um desconhecido para o meu rolê, um cara que podia muito bem ser um cuzão, ser chato, ficar pesando no rolê caso quando a gente fosse cantar.

Mas fiz o que deveria ser feito: “amigos, esse é fulano, fulano — “ fui interrompida por um dos amigos sendo anunciado no karaokê para cantar um sertanejo novo e que só quem ouve sertanejo de verdade — que não era meu caso, nem do outro broder — conhece. Mas o tal cara conhecia, interrompeu as apresentações e foi pro palco com o meu amigo.

Eu e o amigo que ficou nos olhamos e concordamos: “que cara legal!”.

Depois de descer do palco, ele voltou para a nossa mesa e, apesar de ter um copo para ele, não bebeu com a gente porque estava dirigindo. Batemos um papo os quatro e, de fato, ele parecia muito legal. Genuinamente legal, legal de um jeito sincero e simples, não tem nem como elaborar muito; ele era um cara muito legal.

Logo depois, começou no karaokê a música Fora da Lei, do Ed Motta, e ninguém se levantou para cantar — já eram umas quatro da manhã, estava bem vazio, a pessoa que pediu provavelmente foi embora. O cara legal levantou a mão e bradou lá do fundo: “posso ir?” e o cara do karaokê deixou; ele me chamou para ir junto e fui, morrendo de vergonha mas com vontade de aprender a ser tão legal e espontânea quanto ele. E pensando que poderia ser uma oportunidade de mostrar que eu também posso ser muito legal e engraçada fazendo tipo ao cantar Ed Motta, vai saber.

Quando ele subiu no palco, pegou o microfone e começou a cantar, o salão foi invadido por risadas tão altas que eu não tive nem coragem de participar desse momento. Foi uma performance tão maravilhosa, tão comprometida com o entretenimento de todo mundo que até hoje, quando penso em Ed Motta, eu lembro dele cantando “uouunhéééu, dois gatos pingados, fora da lei” imitando a voz do Ed Motta. E isso sempre me faz dar risada em voz alta e contar para quem estiver perto que, uma vez, um cara muito legal com quem eu dei match no Tinder topou encontrar comigo e mais dois amigos no karaokê, cantou essa música de maneira inesquecível, levou a gente para tomar mais uma e comer lanche na Pompeia (longe pra burro da Roosevelt, onde estávamos), deixou todo mundo em casa depois e se despediu de mim falando algo nas linhas de “que pena que você vai se mudar. Acho que a gente iria se dar bem”.

Nos vimos algumas vezes depois disso, mas essa ainda é minha memória preferida desse cara; uma primeira impressão que vale a pena guardar. Às vezes me pergunto como ele se lembra de mim — se lembra — e espero que isso também o faça sorrir.