Quase madrugada

É quase madrugada de um sábado, o que significa que não é realmente madrugada, apesar da hora. Quero dormir logo para fazer coisas amanhã. Quero ir ao cinema amanhã. Eu poderia chamá-lo para ir ao cinema, mas ele nunca aceitaria o convite. Ele talvez nem lesse a mensagem. Ele iria inventar qualquer coisa, um livro para ler, uma ressaca, um aniversário, uma reunião. Ele nunca sairia comigo. Ele nunca seria visto comigo.

Ele já foi visto comigo. Ele me apresentou para alguns amigos, eu nunca lembro deles, só de nome. Ele me deixou sozinha o tempo todo e pareceu chateado quando fui embora. Ele queria que eu dormisse na casa dele. Eu não estava me sentindo bem. Não parecia certo, ou não era o que eu queria.

Ele perguntou de mim no aniversário dele e depois perguntou por que não fui. Falei que estava cansada, mas eu não fui porque não queria estar lá, não queria vê-lo como ele é, não queria comprovar que eu não importo, que sou uma pessoa que ele conhece, que ele conhece tantas outras pessoas. Ele dormiu em casa no outro dia, dormimos abraçados, nos beijamos devagar, tivemos a melhor transa, não nos falamos mais.

Ele falou que estava solteiro há pouco tempo, comentou alguma coisa da ex, falou o nome dela. Grande coisa. Não foi um comentário, foi um aviso: ele está solteiro há pouco tempo, ele nunca vai ser visto com você, você é uma pessoa que ele conhece, vocês nem conversam, vocês nem conversam, vocês nem conversam, vocês só se falam para transar, você vai ficar com ele mais umas duas vezes e ele vai arrumar uma namorada e você vai rodar.

Eu nunca fui assim. Eu sempre fui a pessoa que aposta, pergunta, tenta. Eu sempre fui correspondida até não ser mais. Eu nunca tive medo de não ser correspondida. Eu não sei por que tenho agora, mas é um medo que me paralisa em um lugar que parece não-mandarei-se-ele-não-mandar, mas é não-mandarei-e-nem-pensarei-nisso-porque-ele-com-certeza-não-vai-lembrar-de-mim-exceto-bêbado-numa-madrugada-qualquer. Me faz sentir que não mereço afeto, que preciso memorizar a cena de alguém sorrindo ao me ver, porque não vai acontecer de novo, que não deveria ouvir as histórias das outras pessoas porque não farei parte delas, que ninguém se importa com a minha porque eu não sou importante. Tenho tanto medo de serem indiferente a mim que sou indiferente a todo mundo; tenho tanto medo de ser dispensada que dispenso todo mundo.

Eu nunca fui assim.

Eu sempre soube quando tinha algo ali, desde o primeiro, até o último. Era só dar oi, dizer o nome, eu sabia. Eu ainda sei. Mas é diferente. Antes, quando eu sabia era porque tinha algo ali. Hoje, quando eu sei, não consigo saber o que tem ali. Não consigo desenvolver, perguntar, demonstrar que tem algo. E nada acontece. Se tiver algo ali, é o elefante na sala, mas também é a árvore que cai no deserto. Talvez tenha uma árvore caída no deserto agora, talvez haja um elefante na sala que ninguém quer ver.

É quase madrugada de um sábado, quero ir ao cinema amanhã com um rapaz, quero mais que ir ao cinema com ele, quero vê-lo vendo o mundo, talvez queira andar na Paulista, tomar um café, talvez ir para casa sozinha, conversar na segunda-feira, mandar algum link relacionado a algo que falamos, vamos sair na 4a feira?, quer ir em casa hoje?, qual seu livro preferido?, como você era no colégio?, você sabe cozinhar feijão sem panela de pressão?, eu amo Nova York, você já foi para Nova York?, você iria amar meu cachorro, minha mãe vai te adorar.

Nada disso vai acontecer porque eu não consigo mais ser assim.

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