Seis meses

Percebi que faz seis meses, não sei se hoje, amanhã, tá pra fazer seis meses, ou acabou de fazer.

Quanto tudo muda em seis meses, é muito tempo, mas parece que passou tão rápido que nem percebi que uau, já foi meio ano, um semestre, seis meses.

Os últimos seis meses, passei levantando, dando um passo, tropeçando, ralando o cotovelo e fazendo remendo no moletom pra continuar andando. Descobri que não sei remendar roupa muito bem. Descobri várias outras coisas.

Descobri que tenho amigos, aqueles amigos irmãos, que a gente fica meses sem se ver mas eles te mandam mensagem de madrugada pra saber se você tá bem, te oferecem a casa deles até você achar a sua, perguntam do cara que você ficou, confundem os caras que você ficou, dão risada, seguram sua mão quando você tem medo e chora sem saber o que fazer.

Procurei apartamento sozinha, conciliei agenda, enchi o saco, arrumei um cantinho. Tinha que ser meio grande pra acomodar eu e o cachorro. Não podia ser imenso porque não dava pra pagar. Descobri que tudo se ajeita. Descobri que meu pai poderia matar uma pessoa por mim e minha mãe poderia vender os órgãos dessa pessoa por mim. Meus pais agora vêm pra São Paulo e ficam na minha casa. Eu gosto das visitas deles. Me dou bem com o meu pai.

Descobri que consigo cozinhar. Aprendi o ponto da carne, aprendi a fazer arroz e a assar batata. Purê de batata doce é uma delícia. Tudo com batata doce é melhor, por que as pessoas ainda comem batata normal? Yakissoba é bom, mas o shoyu tem que ser light, senão vem com muito sal. Cozinhar pode ser legal, mas é demorado. Descobri que as coisas levam tempo. Colocar o bife no fogo alto pra ficar pronto mais rápido deixa todo esturricado. É melhor baixar o fogo que mais que ele fica macio, mas demora mais.

Descobri que tem que dar o tempo. Se apressar, não fica direito. Tem que deixar o tempo passar. Tem que olhar o tempo passar. Tem que ter paciência.

Descobri que não dá pra viver sem companhia. Minha principal companhia é meu cachorro. Descobri que ele gosta de subir na mesa quando eu não tô em casa, malditinho, enche de pelo a mesa e ela é preta, imagina. Mas ele gosta, então eu deixo, é só passar um pano depois. Descobri que ele come de manhã quando eu como também, então a gente toma café um do lado do outro, ele termina e deita a cabeça no meu colo. Descobri que ele me segurou no colo muitas vezes, quando lambeu minha cara toda porque eu não parava de chorar e quando ignorou meu drama e, é, era só uma manha mesmo.

Escrevi isso uma vez, logo que mudei:

Fui fechar a janela da sala, sempre emperrada, e esqueci um polegar no meio. Toda a força extra ficou presa entre o a pele e a unha, parecia que tinha caído um pedaço, e saí gritando e resmungando e chorando pela casa, sem saber o que fazer, sem saber se apertava, colocava gelo ou se de fato o dedo estava inteiro. Coloquei gelo, doeu mais. Apertei, foi pior. Sentei na cadeira da sala e me rendi ao choro.
Daí eu chorei. Chorei tudo. Parei, respirei, chorei mais.
Chorei pelo fim de um relacionamento longo e de um amor teimoso que ainda não entendeu direito. Chorei pelo fim de um relacionamento que nem existiu e terminou com um double check azul que não teve resposta. Chorei pela frustração de ter que adiar um compromisso inadiável e por não ser eu mesma o compromisso inadiável de outra pessoa. Chorei pelo cheque especial, pela casa vazia, pela mão calejada e dolorida de carregar mudança, pela unha roída que arde só de existir e pelo desespero em comer doce igual uma adolescente bulímica e por pensar que talvez eu devesse mesmo vomitar tudo antes de engordar. Chorei pelos amigos que não tenho, pela vó que morreu, pelo cachorro que não dou atenção o bastante. Chorei por achar que eu iria conseguir, mas é tão difícil, tanto, tanto, eu só queria um abraço, um colo, um “porra, que merda prender a unha na janela, hein?”
O que eu recebi foi o cachorro entediado com o meu drama, me deu uma lambida no pé, “morre que passa”, me deixou chorando sozinha na sala.

Descobri que cachorro é filho, é amigo, é companheiro, é o motivo que eu tenho pra voltar pra casa, muitas vezes.

Descobri que sou desorganizada, não consigo pagar contas em dia, não consigo pagar contas, não consigo manter a casa arrumada, não consigo separar roupas pra lavar, jogo tudo na máquina e seja o que Deus quiser. Descobri que dá pra ter ajuda. Dá pra separar uma grana do salário pra ter dog walker e diarista. Dá pra passear com meu cachorro e arrumar minha casa, também. Mas tem dias que não dá.

Descobri que o Wi-Fi não passa nas paredes grossas, então tem que se virar pra dar certo, fiz uma gambiarra por um tempo e deu, minha casa foi toda construída na gambiarra e agora, seis meses depois, até parece uma casa de verdade. Consigo mudar a música do Chromecast da sala no quarto. Descobri que gosto de Beatles e de ska e descobri uma cantora que chama Fleur East que é muito legal. Descobri que posso ouvir Kid Rock e Só Pra Contrariar muito alto de madrugada porque as paredes são grossas. Ninguém se importa com que música você gosta desde que você não encha o saco de ninguém.

Descobri é possível apreciar o silêncio. Descobri que é possível apreciar o escuro. Descobri que é possível apreciar a solidão. Descobri que é possível desligar o celular e ficar incomunicável no final de semana e às vezes faço isso porque descobri que às vezes é um saco essa coisa vibrando o tempo todo quando eu to vendo Netflix, que droga. Descobri que tem que pagar o Netflix senão não dá pra acessar, ops, esqueci mesmo, de novo, saco (agora tá no cartão de crédito).

Descobri que dá pra acender velas, deitar no chão e respirar fundo até a crise passar. Descobri que dá pra sair correndo até passar a crise. Tem um lugar perto de casa que dá pra correr, a cada dia parece que descubro uma vantagem de morar aqui. Descobri que consigo correr, mas não muito, não gosto. Mas me faz bem. Também me faz bem tomar suco verde, café sem açúcar, farinha integral. Perdi uns quilos, mas já recuperei. Descobri que dá pra perder uns quilos. Descobri que eles são facilmente encontrados.

Descobri que gosto de sair de casa à noite, andar na rua. Me dá um pouco de medo, mas eu levo o cachorro e a gente cuida um do outro. Descobri que adoro ir pra balada, muito jovem né?, adoro sair pra dançar, dançar até as 6 da manhã, descobri que ainda consigo dançar, tenho muita saudade da aula de jazz. Descobri que tô ficando velha pra tomar um porre, não lembro a última vez que tive uma ressaca, tomo umas cervejas e já começo a tomar água, meu corpo não aceita tão bem ficar estufada de tanto beber, obrigada jesus pela graça alcançada, ressaca é a pior coisa, mas ficar mais velha e com o metabolismo lento não é tão legal, vamos ver isso aí.

Descobri que dá pra ficar sozinha. Descobri que não tenho que convencer ninguém a ficar comigo. Descobri que é difícil ficar comigo, eu consigo ser bem chata, talvez seja uma fase porque não lembro de ser chata o tempo todo, mas tem dias que eu fico “meu deus giovana para de ser chata”, imagina quem convive comigo. Descobri que dá pra gostar de mim. Descobri que consigo fazer amigos novos, descobri que não sou uma pessoa tão chata, consigo conversar sobre várias coisas, elas não interessam pra todas as pessoas, mas tem pessoas que consigo passar horas falando, pessoas que acabei de conhecer, pessoas que passam dias seguidos falando comigo. Às vezes a pessoa me acha chata, mas tudo bem, eu não sou legal pra todo mundo, ninguém é.

Descobri que também dá pra eu mesma gostar de mim.

Descobri que gosto de mim.

Descobri que gosto de quem eu me tornei nesses seis meses. Meus amigos gostam mais de mim. Minha família gosta mais de mim. Meu cachorro gosta mais de mim. Eu gosto mais de mim.

Ainda tenho um longo caminho pela frente, não sei se ele tem fim, não sei pra onde ele tem que me levar. Mas foram seis meses na lama, com medo, vulnerável, insegura, e agora parece que entendi.

Seis meses.

Mudei de emprego, pintei o cabelo, as pessoas perguntaram, dois casais de amigos queridos casaram, um monte de desastres aconteceu no mundo, me perguntaram o que houve, colei contact nas paredes, levei um fora, perguntaram o que houve com a gente, levei outro fora, saí pra jantar sozinha, perdi o ônibus, a gente era tão feliz, aprendi o horário do ônibus, acordei mais cedo, era tão feliz que ninguém esperava, comprei livros, li um livro ruim e tive raiva, fiquei mais saudável, ninguém esperava que a gente fosse terminar, me olhei no espelho e me reconheci, eu precisava não ser a qualquer coisa de alguém, e eu não posso mais ser a ex de uma pessoa.

Descobri a poesia de estar sozinha, olhando a chuva pela janela, e se sentir tranquila. Descobri que é melhor mudar. Descobri que é importante ser fiel a quem você é. Descobri que eu, sozinha, me basto, mas também é bom ter companhia, mas é bom dormir sozinha, mas é bom acordar acompanhada, mas é bom fazer compras sozinha, mas é bom comer acompanhada, mas é bom fazer tudo sozinha e fazer tudo acompanhada também é bom, é bom estar aqui, é bom estar neste momento, é muito bom ter coragem e dar o salto, no começo é difícil, é queda livre, é o teto caindo na sua cabeça enquanto você equilibra as louças da família e puxa o cachorro pra longe da janela que não tem tela, mas aos poucos você consegue arrumar tudo, a janela ganha tela e o cachorro pode olhar lá fora, as louças da família continuam intactas esperando a visita da rainha e o teto a gente arruma quando der mas já não chove dentro.

Demorou seis meses, mas descobri.

Parece que tá passando. Parece que tá melhorando. Parece que foi outro dia, mas já faz seis meses, demorou, mas foi tão rápido, acho que porque eu não podia simplesmente ter um meltdown e largar tudo, não com tanta coisa acontecendo. Ainda bem que tinha tanta coisa acontecendo, que conheci tanta gente, que contei tantas histórias e ouvi tantas outras, ainda bem que vivi tanta coisa que as novas memórias já começaram a engessar por cima das outras, das ruins, das que me fizeram tropeçar tantas vezes por quase seis meses. Seis meses depois, tá tudo entrando de volta nos eixos.

Tô bem feliz.