Sujeito de sorte

“É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

Enquanto me sento para escrever esse texto, Belchior fala essa frase no alto-falante como se dissesse olhando nos meus olhos. De fato, estou, neste momento, amando o passado e não vendo o novo despontando ali na esquina. Estou presa à memória de um sentimento, de coisas que vivi, coisas que esperei viver, coisas que mal lembro e coisas que surgem na minha memória aleatoriamente, às vezes realidade e imaginação se confundindo, porque a versão do filme costuma ser mais interessante de contar.

Agora estou sentada na mesinha da janela, mas estava deitada no chão, no polêmico e apático tapete de vaca. Sim, é uma vaca de verdade; não, eu não comprei; não, eu não sou a favor de usar pele de animais para decorar a casa; sim, a pessoa que me deu comprou isso há mais de 20 anos e já falou diversas vezes que, hoje, não faria isso. O tapete de vaca deixa muita gente desconfortável, mas costumo me deitar nele para pensar na vida ou para alongar a coluna — não consigo começar a pensar em quantas vezes precisei me alongar nele. Sentei no tapete de vaca, com a costa dobrada de tensão, de pensamentos, de “e se”. Respirei fundo e um choro escapou, um choro desesperado, esgoelado, que puxou minha cabeça e meu corpo para baixo e, com os braços estirados, chorei de soluçar enquanto as lágrimas tingidas de rímel caíam, imperceptíveis, no tapete preto.

Vocalizei, chorei alto, falei tudo que estava sentindo gritei para as paredes, ergui os braços, bati as pernas, tremi, arqueei as costas. Deixei o fluxo de pensamento e de sentimento me levar para onde quisesse, e ele me trouxe para esta mesinha da janela, onde estou sentada escrevendo este texto, e onde estive sentada com um dos meus melhores amigos logo que me mudei para cá.

Era dezembro, dia 30. Ele dormiu em casa, não lembro o motivo, mas acordei um pouco antes para buscar na portaria o rack que tinha comprado pela internet. Quando ele acordou, eu já estava sentada no chão com as peças espalhadas, a parafusadeira emprestada por alguém que foi importante nesses dias mas que buscou a ferramenta umas duas semanas depois na portaria, e o manual de ponta-cabeça. Eu adoro montar móveis, e meu amigo se sentou na cadeira no canto da sala para me assistir virando as peças por todos os lados enquanto conversávamos sabe-se lá sobre o quê.

Mas não era essa a memória. A memória é do que veio depois: nos sentamos na mesinha no canto, compramos cerveja e amendoim na padaria da frente e passamos uma tarde ensolarada e preguiçosa de emenda de feriado batendo papo em meio a uma casa que começava a tomar forma. Atrás dele estava uma prateleira com algumas plantas; hoje, há muitas outras, e a prateleira mudou de direção. Atrás de mim, uma samambaia, que agora está pendurada na outra ponta da sala. Tem uma mesinha branca na outra parede, não me lembro de como era a sala antes dela, mas acho que, nesse dia ela ainda não existia. Lembro de sentir frescor; talvez fosse o apartamento recém-pintado, recém-inaugurado; talvez fosse a curiosidade pelo que aconteceria comigo nessa nova casa.

-Você gosta de Belchior? — ele perguntou.
-Nunca ouvi, acho.
-Posso colocar? Tô com vontade de ouvir.
-Pode, mas não tem Wi-Fi. Vai torrar seu 4G — na verdade, minha casa só teve Wi-Fi muitos meses depois, em junho, acho.
-Tudo bem. Acho que você vai curtir.

Ele contou de como o tio tinha lhe dado o vinil de Alucinação e como o álbum era um de seus preferidos, e que o cara com quem ele estava saindo odiava a voz do Belchior. Ele falou sobre como Alucinação foi escrito há tanto tempo, mas parece tão atual, comentou sobre Velha Roupa Colorida e me contou que Como Nossos Pais foi composta pelo Belchior quando perguntei “essa música não é da Elis?” (eu gosto mais da versão dele), além de outras observações sobre “Blackbird, Pássaro Preto”, “nada é divino, nada é maravilhoso” ou “um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. Fizemos silêncio durante Sujeito de Sorte porque acho que a sensação era exatamente essa. No dia seguinte, fiz uma festinha de Reveillon em casa e a primeira música que ouvimos em 2017 foi essa, umas 10 pessoas bêbadas berrando “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Meu amigo não estava nessa festa, mas essa informação não é importante.

Respirei fundo mais uma vez, olhando fixo para o teto, deitada no tapete de vaca, e pensei nesse amigo. Há umas duas semanas, ele mandou uma mensagem avisando que estava indo embora: comprou uma passagem para Pelotas, e depois para o Uruguai, e depois sabe Deus onde. Foi passar uns três meses viajando, pondo a cabeça no lugar, porque este lugar e estas coisas não eram mais o lugar dele. Quase consegui vê-lo na rodoviária, mas o tempo era apertado e nos veremos na volta.

Nossas vidas mudaram tanto nesses dois anos… Amigos casaram, amigos separaram, amigos engravidaram (me dá vontade de chorar de tanto amor, só de pensar nesses crianças), mudamos de emprego, de estilo, de corte de cabelo, de prioridades… Tudo muda em um ano e meio. E, por baixo disso tudo, quanto realmente muda? Ainda somos os mesmos, acho. Sempre somos os mesmos.

Senti saudade da tarde que passamos juntos no finzinho de de 2016 e me perguntei quando, e se, teríamos outra dessas. Não será neste ano, nem neste apartamento, talvez não nesta cidade ou neste país. Mas, assim como ele foi em busca de outra coisa, uma que não encontrou aqui, também está chegando minha hora de ir atrás de algo que me falta.

Como é difícil dar adeus, tchau, ou pelo menos um até logo para a vida que temos! Para o conforto da casa, para tudo o que esperamos que viveríamos aqui. Como é difícil caminhar de olhos vendados, sem saber onde será seu próximo lar, seus próximos amigos, a próxima moeda na sua carteira. Como é difícil, mais uma vez, colocar a casa em caixas… Parece que foi mês passado que eu a tirei de dentro dessas caixas todas!

“Não tome cuidado comigo, que eu não sou perigoso… Viver é que é o grande perigo”, encerra Belchior, me trazendo de volta ao dia 15 de junho de 2018.

Deitada no tapete de vaca, tive uma realização: não é um fim, mas um começo. Achava que era o fim de um ciclo curto, o início de um longo. Tudo pode acontecer em três, seis, doze, dezoito meses. Inclusive, nada.

Se tudo der errado, eu volto. Se tudo der errado, já deu certo.