Crônica Secreta

O carro parou, eis que chegamos ao nosso destino inicial. Atrasados, o show havia começado.

Indo em direção ao local marcado para o encontro, entrei no modo observador e achei a pessoa procurada.

Vimos nosso lugar para curtir o show, pena ter fica bem no caminho de passagem das pessoas.

Entorpecido pelas músicas, a única preocupação que tinha era a de que a banda não tivesse tocado meu som predileto. Não havia.

Drones voavam, luzes piscando sem parar, os minutos iam passando. Eu olhava para as pessoas, cada um em seu universo particular. Eu era um mero visitante.

Arriscava algum passo, numa tentativa de me soltar um pouco mais. Travado. O máximo que eu conseguia era fechar os olhos e sentir a música. Confesso que me peguei pensando, numa hora qualquer, sobre como seria se eu fosse um rapaz com vários bons passos de dança. Das vontades reprimidas.

Era uma quinta-feira. Nem todos os dias eu sou noturno. Estava mais esperançoso sobre mim.

Sobre nós.

“Só lembramos do não importante”

Olhei ao redor, todos se beijavam. Esquecemos de nós. Nos produzimos, nos preparamos. Para quê, afinal? O básico não se fez presente. O amor.

E enquanto a música que você insiste – não me pergunte qual – em colocar como uma das nossas trilhas sonoras tocava, eu pude apenas observar a particularidade alheia. Seus beijos apaixonados.

As duas moças paradas em nossa frente, abraçadas, acariciando-se mutuamente, aquilo foi carnal o bastante para fazer minha mente tornar real. Elas curtiam sozinhas, mesmo após a chegada dos amigos. Depois sumiram na multidão, de mãos dadas.

“Vou tomar um doce amor. Por que não vem?”

Começou aquela que concordamos e ser uma de nossas músicas, não só de nós dois, mas de vários nós distribuídos naquela enchente humana. Jogavam seus braços para o alto e cantavam como se fosse o último dia de suas vidas, dançando, vivos na libertação da carne; transcendendo entre a vida e a arte.

Os meus olhos, já não tão brancos, se fechavam. Parecia que a qualquer momento eu entraria no meu estado de transe. Nossa transa.

Confesso que não pude. Estava sóbrio em minhas obrigações.

O show estava prestes a finalizar.

“O que acontecerá depois?”
“Acho que vai ser música eletrônica.”

Atendendo minhas súplicas – irritantes, até –, viemos embora.

Durante nossa breve caminhada, trocamos ideias e avaliações. Eu não esperava mais do show. Esperava mais de nós; dois seres praticamente estáticos, que curtiram duma maneira tão regular que sua viagem passava longe da análise das emissões cintilantes.

No meu último esforço de manter qualquer tipo de contato humano, tive um longo papo com o motorista que nos deixou em casa. Conversamos sobre diversos assuntos, tanto que não lembro de nenhum para lhes contar – pode ser que eu apenas não queira, também.

Minha chegada se aproxima, ele erra a curva.

Não se preocupe amigo, eu mesmo esqueci de ter-lhe avisado. Sempre aviso.”

Finalizamos nosso passeio noturno. Voltamos ao mundinho do ócio destrutivo, onde não me transformo em arte, tampouco me encontro nas luzes. Apenas sou, na ponta do iceberg, mais um da multidão.

“Para mim, você nunca será só mais um.”

Agradecido.

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