Mais uma noite em claro

Theo Mariano
Aug 23, 2017 · 2 min read

Casa vazia, todos saíram. Aqui, apenas eu, o ar que respiro e o uísque. Formamos o trio que garante a minha existência, principalmente em dias frios. Hoje, além dos 9 graus que congelaram meus dedos, algumas desilusões deixaram a tarde mais cinza.

Pensar demais, maior desprazer não há. Buscando estar inconsciente, os goles do velho Johnnie não mais machucam minha garganta. Sequer fazem cócegas nos problemas estomacais. Me sinto renovado, pronto para encarar outra noite em claro. Há dias que não converso com ninguém além de mim. Então, caro leitor, tenha paciência se eu não conseguir tocar o âmago da tua existência.

Vinha gritando por espaço, implorando. Agora, sentado à mesa, somente minha cadeira ocupada, consigo perceber o valor do contato humano. “Hipócrita”, isso é o que deveria estar estampado em minha testa. Não me envergonho, porém.

Eu pedi por tudo o que me aconteceu. Pedi a solidão, pedi a tristeza. Só não era eu ali. Eu gritava, minha alma tentava se livrar. Talvez daí viessem as dores que me dominavam lentamente. Acreditaram demais, foram muito cedo. Sim, eu fui egoísta. Queria escutar da minha importância, sorrir outra vez. A indelicadeza de minha insegurança me incomodava.

Sou fruto de transformações e me viciei tanto que virei o outro. Não apenas me coloquei em seus lugares, tornei-me vocês. Passei a me julgar, me olhar com maus olhos. Mentia para mim, me punha abaixo de tudo. Me amarrei à inércia e dela não consegui sair. Aquela ânsia de viver havia sumido.

Sem embrulhos estomacais por nervosismo, me apeguei à dor. Aquilo era o que mais se parecia com vida. Eu não sei viver. Penso que existir é dor, mas eu penso demais. Nem tudo o que penso é real.

A garrafa de uísque já foi derrubada pelo vento, vazia. Lotado pela bebida, eu folheio as páginas daquele jornal velho. Tento ler, nem isso consigo.

Agora, quente, escuto uma música. A noite cai, a lua e as estrelas se reúnem. Não consigo vê-las, porém. Os prédios me impedem, a tontura também. Talvez eu não aguente outra dose de vida, preciso comprar uma outra garrafa.

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