Da esquerda à direita, Meryl Streep, Amy Adams e Philip Seymour Hoffman numa das principais cenas de Dúvida (Doubt, 2008)

Mônica, o Desejo e a Dúvida

Uma análise isolada do olhar como combate à cegueira


Lançado em 1953, o clássico Mônica e o Desejo (Sommaren med Monika, de Ingmar Bergman) não teve vida fácil na Europa. Depreciado por críticos de renome como Jacques Doniol-Valcroze, então editor-chefe da Cahiérs du Cinéma, que o definiu como um filme “de calcinha”, a obra de Bergman parecia não condizer com o que era aceito pelos estudiosos franceses, maiores referências cinéfilas da época e principais expoentes de uma intelectualidade cinematográfica ainda em gestação. E isso tudo porque, para eles, Mônica e o Desejo não passava de uma obra “episódica, perversa e voyeur”.

Harriet Andersson como Mônica, em Mônica e o Desejo (Sommaren med Monika, 1953)

Foi então que, em 1957, a Cinemateca Francesa organizou uma revisão do filme ao longo de uma retrospectiva da obra do diretor e, com isso, algo fundamental aconteceu: Jean-Luc Godard (Acossado; Adeus à Linguagem) compareceu à exibição. Ao se deparar com o marcante plano final da obra — no qual a protagonista, Mônica, olha diretamente para o público durante alguns minutos, desafiando-o — , o crítico e cineasta francês indagou-se: “como pudemos ser tão cegos?”

“Temos que ver Mônica e o Desejo nem que seja por esses extraordinários minutos em que Harriet Andersson, antes de voltar para a cama com um sujeito, olha fixamente para a câmera, olhos risonhos embaçados pela angústia, tomando o espectador como testemunha do desprezo que ela sente por si mesma ao preferir o inferno ao céu. É o plano mais triste da história do cinema.” - Jean-Luc Godard

Levando em conta as consequências do fato, é possível dizer que Mônica e o Desejo ressurgiu em meio aos intelectuais europeus justamente por conta do questionamento de Godard. A partir dele, a obra evitou ser esquecida devido a uma superficial incompreensão inicial e ganhou ainda mais força para perdurar no tempo, contribuindo, assim, para que Bergman pudesse ser considerado um dos grandes cineastas da história.

Ao reler sobre o caso, resgatei instantaneamente memórias sobre uma obra que, apesar de recente, me parece um tanto esquecida em rodas cinéfilas e, por isso, sempre surgiu, ao meu ver, como detentora de uma trajetória similar à do clássico bergmaniano. Trata-se de Dúvida (Doubt, 2008), filme dirigido por John Patrick Shanley e que conta com Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Viola Davis e Amy Adams como parte de seu elenco.

Ao dizer isso, não é minha intenção comparar qualidades mantidas entre um projeto e outro. A análise que trago a você, na verdade, tem como objetivo ressaltar a complexa, sutil e poderosa estratégia de Shanley e sua equipe ao conceberem o arco dramático que move o projeto. Mais precisamente, a maneira intensa com que a relação profissional mantida entre o Padre Flynn (Hoffman) e a irmã Aloysius (Streep) é representada pelo filme, tanto sonora quanto visualmente.

O fragmento que trago, inclusive, diz respeito ao específico momento que transforma essa relação numa crescente de acusações, raiva e motivos responsáveis por justificar o título do filme: a cena em que o Padre Flynn é confrontado pela Irmã Aloysius pela primeira vez. E começamos a destrinchar esse fragmento observando a forma através da qual Shanley e Roger Deakins, diretor de fotografia do filme, registram o início da conversa mantida entre os três personagens.

Nos planos acima, o equilíbrio estético como representação psicológica de um instante.

Enquanto a Irmã Aloysius não revela suas motivações com a conversa (que envolvem, sobretudo, graves acusações sexuais contra o Padre Flynn), os enquadramentos administrados pelo filme demonstram a tranquilidade psicológica e o clima de calma propícios ao início da cena. Afinal, nada na conversa parece correr de maneira inesperada, situação perfeitamente traduzida pelo equilíbrio simétrico dos planos.

No entanto, a personagem de Streep não demora muito para fazer a primeira acusação, na qual utiliza o estranho comportamento de um aluno como principal argumento contra Flynn. Nesse instante, Shanley e Deakins criam um quadro que revela com precisão o impacto sentido pelo padre ao ouvir o relato de Aloysius.

Inclinação do quadro revela desequilíbrio psicológico de Flynn e intensifica tensão da cena.

Essa é a força que um detalhe possui ao ser preenchido com linguagem. Ao, literalmente, desequilibrar o enquadramento, Dúvida cria um momento que incomoda o público tanto visual quanto dramaticamente. É justamente ao termos o olhar desajustado que notamos a relevância daquela acusação, sendo disso que se trata o “aprender a ver” tão defendido por Godard, Truffaut e cia. durante a Nouvelle Vague. Além disso, essa imagem pode ser considerada, ainda, uma representação fiel do estado psicológico de Flynn ao ser confrontado pela sua colega.

Como se não bastasse, Shanley se aproveita do clima de apreensão instaurado e, em meio à discussão, adiciona um outro plano que, mesmo rápido, potencializa de maneira absurda o clima de nervosismo que envolve os personagens.

O telefone, também desequilibrado, e seu ruído como potencializador de tensão.

No entanto, não é apenas a imagem acima (também desequilibrada) que justifica a ênfase dada ao telefone, mas o som emitido pelo aparelho. Afinal, há poucas coisas tão incômodas quanto uma ligação que não é atendida. O contexto, nesse sentido, utiliza tal ruído não como uma mera representação de uma chamada recebida, mas como forma de maximizar a tensão da conversa e representar muito bem a possível sensação de Flynn ao encontrar-se naquele lugar, com aquelas pessoas e ouvindo aquelas acusações. É claro, portanto, que ele sente que precisa sair dali.

Flynn prestes à sair da sala, momento no qual o sinal do recreio toca.

E o que já alcançaria uma eficiência hipnotizadora depois do que fora descrito se torna sublime quando Flynn, próximo à porta e prestes a sair da sala de Aloysius, ouve o sinal do recreio enquanto precisa engolir mais alguns julgamentos de sua colega. É como se sua mente, outra vez, ativasse uma espécie de aviso sonoro capaz de representar… o quê? Seu medo por ter sido desmascarado? Sua raiva por saber ser inocente? Tristeza pelo que acontece?

A resposta, claro, é o que filme e público procuram descobrir ao longo da projeção. E dentre todos os outros aspectos fascinantes que o compõem, Dúvida se mostra, assim, como uma obra essencial para quem se diz cinéfilo, bastando apenas um olhar mais interessado para que todas suas nuances sejam descobertas e o filme possa, enfim, seguir o mesmo caminho de Mônica e o Desejo. E confesso torcer demais para que a cegueira não tome conta da obra de Shanley assim como quase fez com aquela maravilha de Ingmar Bergman.

Ou será que precisaremos de mais uma ajuda dos “jovens turcos” em prol da arte?


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