Duas perspectivas sobre a democratização da escrita

“A liberdade de imprensa existia apenas para quem tivesse uma prensa. Agora todos nós temos”, dizia o jornalista A. J. Liebling. Percebendo a mudança do paradigma atual, em que boa parte dos consumidores de conteúdo se tornaram seus produtores (o que na história da web é um dos pontos que marcam a transição da web 1.0 para a web 2.0), lembro instantaneamente dessa citação. E essa realidade não se aplica apenas à veiculação de notícias, considerada a principal função do jornal. Ela faz com que iniciativas independentes (não ligadas a grandes empresas) se equiparem em qualidade e público às produções audiovisuais, divulgação de conhecimento científico, textos de opinião e diversos gêneros textuais até então dominados por grandes instituições.

A quantidade de material publicado é imenso. Estima-se que, a cada minuto, são carregadas 300 horas de vídeo para o YouTube (link em inglês). Mas não quero repetir o que já falei sobre colapso de atenção. Na verdade, há uma grande discussão sobre a validade desse fenômeno informacional. Apesar de dificilmente nós mortais termos alguma chance de influenciar o rumo que as coisas estão tomando, é interessante pensarmos nas implicações dessas configurações, e que escolhas podemos tomar a nível particular.

O Lado Positivo

Fonte: Flickr

Apesar de determinadas pesquisas terem apontado que 70% dos brasileiros não leram sequer um livro em 2014, a população em geral tem tido mais contato com a leitura e escrita, caso consideremos seu uso nas redes sociais. Apesar da gramática imperfeita, e de assuntos não exatamente proveitosos, julgo benéfica essa exposição dos brasileiros a esse meio, ao menos inicialmente. E enquanto a maior parte dos usuários têm se mantido apenas em comentários do Facebook ou legendas para as fotos do Instagram, determinada parcela desses usuários tem se dedicado à real produção conteúdo, desde YouTube até espaços como o próprio Medium. Podemos facilmente encontrar podcasts dedicados à literatura, blogs sobre culinária, canais sobre games, conteúdos criados em várias mídias por pessoas “comuns”.

O primeiro ponto que identifico de cara como positivo é que finalmente o controle do conteúdo saiu da grande mídia e passou às mãos do povo. À semelhança do que é retratado em diversas distopias como “1984" e “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, o controle institucional da informação nunca é totalmente benéfico para nós. Como o mesmo Liebling afirmou, “as pessoas confundem o que leem no jornal com as notícias”. A mudança do domínio sobre o conteúdo se torna bem visível, por exemplo, na literatura, quando a crítica literária que julgava os livros preferidos da população como algo tão irrelevante que a própria crítica se tornou irrelevante para esse população. Os leitores começaram a julgar as obras e fazer seu julgamento ser ouvido, tornando-se produtores de conteúdo.

O segundo grande benefício está no fato das pessoas poderem se expressar à vontade. Não é necessário um grande investimento para que qualquer um tenha a chance de divulgar conteúdo. Eu, por exemplo, precisei apenas de acesso à internet e ideias sobre as quais escrever. Não sou patrocinado, nem sou funcionário de uma grande empresa de mídia. Qualquer um pode começar a divulgar vídeos pelo YouTube ou Instagram, textos por qualquer plataforma de blogging e até publicar livros. Neil Gaiman é um autor de ficção fantástica que estimula bastante seu público à escrita. Dentre suas mais famosas citações estão:

“Escreva. Termine as coisas. Saia para passear. Leia bastante coisas fora de sua zona de conforto. Mantenha o interesse. Devaneie. Escreva.”
“Escreva suas estórias como elas precisam ser escritas. Escreva com honestidade, e conte-as a melhor maneira que puder. Não sei se há outras regras. Digo, outras regras que importam.”
“Às vezes, a melhor maneira de fazer alguma coisa é fazê-la errado e olhar para o que você fez.”

Confesso que compartilho bastante dessa última frase. É importante que as pessoas tenham a prática da escrita. Afinal, para quê tantas horas dedicadas a aulas de redação se não poderei usar para o que gosto? Não importa a idade ou experiência. Todos ainda têm o que aprender, e com a escrita não é diferente. Este, para mim, é um espaço de aprendizado.

Mas há um lado negativo…

Fonte: media.dailydot.com

Difícil haver alguma coisa na vida que não possua seu lado negativo. O mesmo acesso à produção de conteúdo, que acabei de considerar tão benéfica, também é responsável pela qualidade duvidosa de muitos textos, geralmente os mais populares. Entendo que a relevância de um conteúdo perpassa por um critério subjetivo/individual, mas também afirmo que há um critério objetivo para estabelecê-la. Ora, não vamos à Escola para aprender o que queremos. Aprendemos aquilo que um determinado grupo estipulou como conteúdo programático para a educação básica. E ainda que você não concorde com o conteúdo ensinado nas escolas, certamente não afirma que é a criança quem deve decidir o que irá estudar.

O fato é que vários conteúdos bastante divulgados nas mídias sociais não são de boa qualidade. É ruim ver canais e blogs que não são bem escritos, ou que se centram em coisas vazias, ou ainda que compartilham valores fúteis. E não estou aqui falando de temáticas específicas, e sim de profundidade. Certamente há bons textos sobre pescaria, quadrinhos, relacionamentos, literatura, dragões e palito de dente. Mas estes não tem a divulgação devida. Ao invés da escrita ser melhorada (enfatizando que não falo apenas de técnica, mas igualmente de reflexão, veracidade e profundidade), como falei dois parágrafos atrás, seu nível atual acaba se tornando o padrão para o gosto popular e a qualidade da escrita.

Um exemplo da pouca difusão de um conteúdo de qualidade é o Canal Futura, que por seu conteúdo de natureza educativa acaba não recebendo tanto interesse da massa. Livros e revistas de divulgação científica, “clássicos” da literatura, podcasts sobre cinema e outras mídias que teoricamente possuem mais relevância ao conhecimento acabam perdendo espaço para textos efêmeros e de pouco desafio intelectual. Logo, a relevância desses conteúdos mais elaborados acaba diminuindo, e a regra passa a ser textos mais “fracos”.

Tudo isso que tracei até então denuncia uma realidade ou um contexto que vai muito além do domínio da escrita. Trata-se do caminho que o enorme leito do rio da sociedade tem corrido, e parece improvável que um pequeno graveto possa desviar o curso da grande torrente. Mas penso que há algumas escolhas individuais bastante interessantes.

Da leitura à escrita

Você escreve aquilo que lê. Não é possível atingir uma qualidade interessante na escrita sem assimilar conteúdo de bom nível. Esse não é um texto sobre como escrever bem, mas não posso deixar de mencionar esse importante aspecto da produção de conteúdo. No entanto, esse solução não é satisfatória, pois quem produz textos de qualidade “rasa” provavelmente não tem interesse em leituras de boa qualidade. Resta o apelo à consciência do indivíduo. Sua percepção de conteúdo deve abarcar escritores de diversos gêneros literários, jornalistas, bloggers etc, além de ter interesse em diversas temáticas distintas.

Busque sempre melhorar seus textos. A escrita é como um processo de lapidação. Nasce a partir de várias horas de luta com o texto. Mais uma vez, Neil Gaiman expressa isso muito bem ao dizer: “Escrever é um tipo de atividade bastante peculiar. É sempre você contra uma folha branca de papel (ou uma tela branca) e geralmente o pedaço de papel vence”. É necessário escrever para ter mais chance de escrever melhor, sem deixar de não se contentar com o nível atual de aptidão.

Compartilhe bons textos. É importante que bons conteúdos, seja livros, vídeos ou artigos, sejam amplamente compartilhados na rede. Sabemos que é dado mais atenção a um vídeo de alguém caindo ou de pessoas gritando palavrões. Mas sou bastante otimista na possibilidade da grande propagação de textos de boa qualidade gerar uma ambiente de interesse por bons conteúdos. Não sou determinista, mas creio que uma boa atmosfera de conhecimento gera uma grande atração nas pessoas, ao ponto delas não se satisfazerem com seu atual nível de compreensão.

Não posso deixar de agraciar os leitores desse texto com a excelente entrevista do “Bom Doutor”, Isaac Asimov, bioquímico e autor de centenas de livros de ficção científica, que em 1988 concedeu essa entrevista, prevendo a enorme amplitude e benefício proveniente da internet, além de demonstrar um enorme otimismo pela educação e seu papel na humanidade. A idade adulta ainda é uma época de interesse pelo conhecimento e educação. Não falo isso apenas por ser nerd. Creio que deva ser nossa preocupação coletiva.

ps.: Esse texto surgiu a partir da leitura e de um comentário (meu) no excelente texto do Paulo Sales, o qual eu recomendo a leitura. Além disso, você pode ouvir um programa do podcast Linha M entitulado “Avalie o que você consome!”