E Viveram Felizes… Até Metade Do Filme.

Fonte: Hollywod Reporter

Faz um pouco mais de uma semana desde o dia dos namorados, e cada casal (é, não vou falar muito sobre os solteiros aqui) comemorou segundo seu gosto. Sei de amigos que foram curtir um bom forró, outros apostaram num jantar especial e há ainda aqueles que simplesmente não reconhecem importância alguma em comemorar essa data, por qualquer motivo. Mas eu não poderia esquecer daqueles que decidiram apostar em um bom filme romântico para passar essa data (o que para o solteiro é quase um sinônimo de fossa, convenhamos).

A expectativa, claro, é ir atrás daqueles filmes em que “o amor vence”, seja lutando contra uma condição de saúde (Como se fosse a primeira vez), seus próprios conceitos (Quero ficar com Polly) ou mesmo um super vilão (Deadpool?). Eu não tenho intenção alguma de convencê-lo a assistir um filme de herói ou terror. Afinal de contas, é um bom momento para perceber o amor através de uma perspectiva nova de um diretor ou roteirista criativo (ou mesmo ver aquele velho “romance pastel” só para curtir).

Bem, sobre comemorar o dia dos namorados, eu não sou necessariamente do tipo “cineminha” ou “filme no sofá”, nem foi o caso esse ano. Mas para entrar no clima, acabei começando o 12 de Junho assistindo a um filme há muito recomendado por alguns amigos, e ele se encaixava exatamente no que tratarei aqui: filmes em que o casal protagonista não termina o filme juntos. E vou apenas deixar claro que as separações que levaram ao término desses relacionamentos foram “voluntárias”, não decorrente de morte ou qualquer “motivo de força maior”.

Aqui não irei trazer muitos filmes ou mesmo várias indicações. Quero apenas falar de alguns, contando um pouco sobre minha experiência em assisti-los. Particularmente, considero todos dignos de serem vistos, seja por seu olhar interessante sobre o amor ou mesmo pela criatividade na direção. Caso você queira uma lista mais extensa, pode ver esta aqui (acabei também achando esta do IMDb). Nem preciso comentar que ver essa lista resulta automaticamente em alguns spoilers. Mas na minha opinião, você não deveria se importar tanto com isso. Vamos à lista.

“La La Land” (2016)

Fonte: Trailer Addict

Nenhuma surpresa desse filme estar na lista, pois se encaixa muito bem nos seus dois critérios: (1) ser bom e (2) não ter um final feliz. Além disso, por ser recente e ter recebido ótimas avaliações (incluindo as diversas premiações), sua estória e até mesmo seu final se tornaram bastante conhecidos do grande público. O filme inclusive se tornou alvo de memes após o fiasco da entrega do Oscar de Melhor Filme.

“Hey, ‘La La Land’. Lembra quando você nos deu aquele falso final feliz e então jogou fora? É assim que nos sentimos.” Fonte: Indy 100

Deixando de lado sua repercussão, o filme trata dos sonhos de musicais de Sebastian e cinematográficos de Mia. Sem muitas explicações desnecessárias, seu romance cativante e compatível (que se harmoniza muito bem com suas habilidades de dança) deixa de ser uma realidade quando o percebem como um entrave para a concretização dos seus desejos individuais.

O filme se destaca por várias razões. A direção de Damien Chazelle impressiona pela riqueza de detalhe nas cenas de dança (toda a complexa coreografia e os ângulos da câmera estão inseridas em um só take) e na forma fantasiosa de representar os sentimentos do casal (tanto na cena do Planetarium como na final) são ótimas. A atuação de Ryan Gosling e Emma Stone foi bastante convincente. Sem falar na trilha sonora que ainda escuto vez ou outra.

Mas a discussão central do filme, a qual não irei trazer exaustivamente aqui, é o processo de “maturidade” que nós e os protagonistas do filme passamos. Seu romance inicia acompanhado pelo sonho de cada um, pois eles faziam parte da gama de coisas boas que os fizeram se apaixonar. Eles amavam o futuro que cada um imaginava para si. O problema é que, no decorrer do filme, é posto que não será possível alinhar sonhos e sentimentos. Um dos dois terá de ser abandonado. E após um longo período renegando seus sonhos, decidem apostar no futuro em detrimento do seu presente. Esse não é necessariamente o caso de todos os expectadores, mas é confortante perceber o sentimento de nostalgia e realização presente no olhar que se dão na última cena.

“Her” (2013)

Fonte: Pinterest

Eu poderia dizer que esse é o filme mais bonito dessa curta lista. E me refiro especificamente a paleta de cores e cenários propostos pela direção de arte de Austin Gorg (também presente no “La La Land” e outras produções riquíssimas em visual) e o diretor Spike Jonze. A trilha sonora também acrescenta muito ao cenário, trazendo um clima bucólico e morno. Basta ver algumas das cenas acalentadoras da produção.

O roteiro (que ganhou Globo de Ouro e Oscar de Melhor Roteiro Original) conversa muito levemente com a Ficção Científica ao propor um futuro próximo em que o Theodore trabalha produzindo cartões “pessoais” de indivíduos a partir de suas estórias. Esse personagem, cheio de amor para dar e sem ninguém para receber, acaba adquirindo uma inteligência artificial, Samantha, que acaba fazendo papel de assistente digital, companheira/amiga e por fim namorada.

Enquanto acompanhamos o Theodore tentando se relacionar com algumas mulheres (afinal leva tempo até ele considerar um compromisso sério com a inteligência artificial) e vemos o desenvolvimento do seu envolvimento Samanta, notamos sutilmente a evolução dela enquanto entidade digital e o desejo de se tornar um ser superior. No decorrer do filme, esses vetores antagônicos acabam impedindo a continuidade desse relacionamento entre o orgânico e o sintético.

É possível perceber essa obra com um caráter denunciador das modalidades de relacionamento factíveis em algumas décadas, ou mesmo trazendo um olhar diferenciado sobre a solidão e suas implicações. É fácil gostar do amoroso Theodore, como também comprar seu interesse na Samantha (a interpretação da Scarlett Johansson nos convence a isso). Acompanhamos a época feliz do protagonista e ficamos felizes apesar das circunstâncias. Seu rompimento, porém, nos traz uma mistura estranha de aflição e alívio, já que é difícil pensarmos numa real concretização desse amor. A separação é iminente desde seu início, mas não menos triste ao vermos o afetivo protagonista perder sua amada.

“500 Dias Com Ela” (2009)

Fonte: Black Box Blue

Bem, esse foi o filme que assisti na manhã do dia dos namorados. O filme é tido como um dos melhores de 2009, e recebeu nomeações de Melhor Ator e Melhor Filme (Musical ou Comédia). O filme trouxe diversos elementos que se tornaram referência na cultura pop. Um deles é a paisagem da foto que abre esse artigo. Não foram poucas as pessoas que postaram imagens no mesmo local e com a mesma vista. Outra referência é a cena “Expectativa x Realidade”, em que o ator tem suas esperanças de reatar o relacionamento perdidas. Além de ser um cenário bastante familiar a muita gente, é impressionante o equilíbrio que a cena possui ao focar alternadamente em uma cena enquanto suspende ligeiramente a outra.

A estória gira em torno do ultra-romântico-idealizador Tom Hansen, que percebe em uma nova colega de trabalho aquela que seria o amor de sua vida, afinal eles possuem coisas como gostos musicais parecidos e um humor bem similar. A narrativa acaba dando conta de relatar de forma intercalada os períodos de encantamento e desilusão do protagonista.

Não há muitas surpresas em saber que o casal não termina junto. Até o título já traz o número de 500 dias. A ideia do filme é exatamente ressaltar os contrastes de um rapaz que cresceu alimentado pelos ideias de um amor romântico e uma moça que nunca foi de se apegar as coisas. É comum ver análises desse filme estabelecendo que os espectadores costumam (1) se prender ao Tom e dizer que a Summer é uma vadia ou (2) comprar as razões da Summer e achar o Tom ingênuo.

Não quero comprar lados aqui, pois talvez seja o caso de perceber a big picture. Ora, a vida é assim. Pessoas (claramente ou não) incompatíveis passam um tempo juntas curtindo o que possuem de compatibilidade. Nem mesmo a enorme expectativa do Tom ou a total falta dela na Summer os tornaram culpados do rompimento. Foi uma infelicidade, que foi feliz por bastante tempo

Um Pequeno Extra

Fonte: YouTube

Nesse domingo, assisti a um filme com minha namorada, que teoricamente entraria para essa lista. Mark Rufallo e Keira Knightley são os protagonistas de “Mesmo Se Nada Der Certo” (2013), um filme bem interessante (palmas para sua trilha sonora) sobre uma artista abatida por um término recente e um produtor debilitado por seu divórcio e carreira minguante que, juntos, desejam se lançar novamente no mercado fonográfico. Quando comentamos sobre o filme, disse logo que não tava exatamente nesse perfil. Eu iria falar justamente sobre casais que tem um relacionamento durante o filme, mas acabam percebendo que devem se separar. Outra coisa falou mais alto que o amor que possuíam (ou não). No entanto, assim como o amor desses casais, minha opinião também mudou.

Apesar de não ser um romance, o filme fala sobre o amor e a falta dele. Ainda que os casais do filme não estejam em tanta evidência quanto os da lista, acompanhamos as alegrias e tristezas dos protagonistas e seus antigos companheiros. Apesar de não sermos exatamente levados a torcer pela felicidade de um casal, temos um filme inteiro falando sobre as reações e lembranças de um relacionamento outrora feliz, mas que hoje é razão de tristeza. Não foi o amor que “venceu”, mas isso não os tornou perdedores.

Seja dando ao protagonista a chance de viver um novo amor (500 Dias Com Ela) ou mostrando a vida de um artista em ascensão que ainda “curte a fossa” da última relação (Mesmo Se Nada Der Certo), tratar sobre relacionamentos finitos é importante para conhecermos nossa própria natureza. O Homo Amator está sujeito a todas as reviravoltas que esse sentimento lhe proporciona. Não é justo cobrar do amor uma estabilidade que o próprio homem não possui. É preciso deixá-lo respirar um pouco. Perceber que outros elementos do nosso ser merecem sua importância. E claro, o amor sempre estará presente. Basta paciência para saber o melhor lugar onde guardá-lo.