O Elogio Como Escape do Ego

Prazer ter você aqui neste texto. Gostaria de ter um elogio para te dar agora, mas não consigo pensar em nada que não soasse um aplauso a mim mesmo. E é bem sobre isso que iremos conversar nesse instante. Não sei se o elogio já faz parte da sua rotina, mas espero que, após essa leitura, você o torne companheiro da lida diária.

Elogio é Bom?

Com um pouco de pesquisa e reflexão, percebe-se facilmente as várias opiniões e perspectivas que se tem desse elemento discursivo. Facilmente se relaciona o elogio à tentativa masculina de seduzir uma mulher, muitas vezes até de maneira desrespeitosa, gerando resultado contrário ao pretendido (sobre isso, você pode ler o texto da Julia Latorre ou a fala da Carolina Gavião, quase como um contraponto). Ainda se liga bastante à ideia de bajulação, geralmente interesseira e falsa. E há ainda quem o condene por entender que ele é uma porta escancarada para vanglória, que será o foco desse texto.

De fato, existe sim certo perigo ao se elogiar alguém. O próprio Santo Agostinho, em um dos seus escritos, chegou a dizer: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.” Para aqueles que desejam manter uma vida modesta, humilde, qualquer chance de receber qualquer tipo de louvor é uma ameaça iminente. Por isso gostaria de propor um excelente remédio aos riscos de um elogio: mais elogio.

Um Santo Remédio

É difícil não concordar com Mark Twain ao dizer que “eu posso viver dois meses com um bom elogio”. Apesar da hipérbole, o elogio realmente nos traz uma sensação boa que não necessariamente tem a ver com um ego inflado (perceba que não falei em receber elogio). Quero listar alguns motivos para buscarmos essa prática, sendo que o último é meu real interesse aqui.

Em primeiro lugar, um elogio honesto pode ser um meio de conhecermos melhor a nós mesmos. Imagine que alguém elogie sua simplicidade. Podemos imaginar que sua reação será a de procurar reconhecer como isso é visível em você. Logo você estará valorizando mais essa qualidade. E, por fim, procurará desenvolver bem essa característica.

Um segundo ponto positivo é que a prática do elogio o fará notar mais as pessoas. Veja bem, não é que você deva se tornar um caçador de qualidades. Mas haverá uma naturalidade em perceber coisas que poderão ser usadas na sua proposta de congratular outra pessoa.

E o último ponto, cerne desse texto, é que o elogio é uma forma de escape do próprio ego. Talvez seja fácil alguém que não tenha nenhum envolvimento com a área da música elogiar a voz de algum cantor. Mas imagine que você esteja nos momentos iniciais de sua banda. E que há outro grupo de músicos próximos a você, cujo cantor tem voz muito boa (melhor que a sua, talvez). Será ainda tão fácil dar um elogio pessoal e honesto a esse “concorrente”?

Um Exercício de Humildade

Esse receio (por assim dizer) torna evidente a sociedade competitiva e antagonista em que nós vivemos, a ponto de um elogio se tornar um sinal de fraqueza. Nós nem mesmo conseguimos admitir que determinada pessoa é melhor que nós em determinado assunto sem antes tecermos várias justificativas, e. g., “ela consegue falar em público melhor que eu, mas é que eu não tive tantas chances de fazer palestras”. Veja, não estou dizendo que devemos esquecer as diversas formas de desigualdade que devem ser reparadas por nós e pelo Estado. Mas não penso que isso justifica uma atitude hostil às pessoas que tiveram determinadas oportunidades (falo mais sobre isso em outro texto).

O fato é que um elogio bem dado pode fazer muita diferença, tanto para quem o faz para quem o recebe. Nas Escrituras, há um bem interessante sobre isso. Em Romanos 12.10 lemos: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.”

Há ainda muitos detalhes que tive de deixar de fora para que o texto não ficasse maior ainda. Contudo, gostaria de convidar à reflexão sobre esse assunto. Se perceber que tenho razão, faça do elogio honesto um instrumento de sobriedade. Como uma amiga disse uma vez, “é tão bonito ver a humildade em uma pessoa”.