Bom-dia, gaveta. O lugar onde eu moro é repleto de certezas. O cigarro que eu deixei em cima da pilha de livros (a de livros acima de 500 páginas) continua ali, e sabe-se lá há quanto tempo eu parei de fumar. Meus CDS nunca se misturaram com meus vinis. Sei de cabeça onde encontrar todo e qualquer gênero musical. Ainda bem que gosto de fotografia, porque aqui nada se mexe. Falando nisso, deve ser ótimo existir nesse apartemento como uma poeira. Normalmente desprezadas, aqui elas encontram um paraíso arquitetônico. É um povo guerreiro, esse da poeira. Sua vida é baseada em silenciosamente habitar qualquer lugar. Talvez essa abundância de lugares seja o motivo pelo qual as pessoas odeiam tanto o povo da poeira: Elas tem inveja. No meu caso, faço porcamente meu papel de gigante destruidor de cidades. Certos dias, armado com meu espanador e lenços umidecidos, promovo um genocídio. Mas só em certos dias. As poeiras (poeirenses?) devem acordar na maioria das manhãs com a notícia de um já cansado observador: ‘’nada, ainda dormindo, hoje estamos seguros’’. Nem elas me respeitam.

É hora de levantar. Já passa de meio-dia. Acho que o meio-dia já passou duas vezes. Melhor não verificar. Já fazem duas horas. Melhor ir dormir. Peço desculpas por esse começo.

Agora sim. O buraco na parede, coberto de vidro (chamam de janela, mas eu não quero banaliza-lo) brilha com o sol da manhã. Quando eu era criança, acordar com essa luz branca e brincar com os cachorros era a melhor atividade que alguém poderia fazer. Sim, nessa ordem. Aqui não tem mais cachorro, nem lugar pra brincar. Meu último cachorro morreu quando eu ainda fazia a barba. A pilha de livros estava na altura da minha cintura, e eram apenas 4. O último CD da pilha de livros era o You’re a Woman, I’m a Machine, da banda Death From Above. Eu amo esse CD. Por muito tempo, ele ficava no topo da pilha. Nessa época, conheci meu vizinho. Uma vez por semana, ele tocava na minha casa pra reclamar do baraulho. Acho que foram 4 ou 5 vezes? Não tenho certeza. Só de lembrar disso, meu coração dispara.

Mas ele sumiu. Eu parei de tocar o CD. Foi o fim da nossa amizade. Essas coisas fazem parte da vida. Agora, You’re a Woman, I’m a Machine encontra-se soterrado entre muitos cds piores e melhores, que eu nunca ouvi. Mas o sol bate forte no chão. Apesar de não ter cachorros nem quintal, sentar no quadrado que ele cria é uma interação e tanto. Desde que zerei 100% dos meus jogos de PS3, abandonei meus hábitos nocivos de gamer e abracei minha solidão física. São incontáveis dias, horas, minutos, esperando esse quadrado de sol. Nos melhores dias, eu consigo chegar bem perto do vidro, e olhar por um breve momento o que acontece do lado de fora. Como eu queria me sentir desse jeito todos os dias. O sol também tem suas desvantagens: depois de um tempo, fica bem quente. Posso tomar uma ducha mas mesmo assim, é muito abafado. Meu ventilador não funciona desde a ocasião em que tentei usa-lo como apoio para ir embora. Não funcionou, e ele desceu junto comigo. No canto da minah sala, com certeza ele deve ser um parque de diversão ou algo assim para o povo da poeira. Pensando bem, talvez tenhamos entrado em harmonia. Eles sabem bem que não há a menor chance de existir onde o sol faz seu cercado. Mas eu deixo eles ficarem com o ventilador.

A comida acabou bem na hora. Deve ter uns meses desde que o rapaz veio com as entregas. Em breve, não vou ter opção se não sair. Meu apartamento é muito pequeno, mas muito, muito, grande. É uma cela, e é meu mundo. Eu estou escrevendo isso porque decidi que performar o ato de viver dia após dia não é mais o que eu quero. Não assim. Eu vou sair, eu vou botar meu corpo do lado de fora. Só me falta decidir qual saída eu vou usar: a porta ou a janela. Até o fim dessa semana eu devo saber. Agora, vou tirar uma soneca.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.