Ferrugem

O mar estava calmo. Como os pelos de um animal deitado numa planíce, sua superfície era levemente acariciada pelo vento que vinha de mais de uma direção. Era uma vista bela e comum; Bela o suficiente penetrar a mente, comum o suficiente pra não ficar por lá por mais de 3 segundos. Aliás 3 segundos é o tempo ideal para processar as coisas por aqui.

De longe, uma embarcação passava. A experiência ensina que quando um objeto nem parece se mover no horizonte, ele está longe de alcance. Para as crianças que o perseguiam pela praia, sem saber exatamente em que velocidade correr, era o contrário: era como se o objeto os esperasse pacientemente. O mar sabia melhor, não deixava as pegadas muito tempo na areia. As cobria com a eficiência de uma mãe que protege seus filhos de uma desilusão sem os desiludir. A imagem era bem clara, vista de cima dos prédios. Me recordei das vezes que desci correndo de cima dele para me juntar ao bando. Dessa vez, nem me mexi. O baixo não se toca sozinho, e larga-lo abandonado seria irresponsabilidade da minha parte.

É um instrumento curioso. O violão é muito mais barulhento, enquanto o baixo mal emite sons. A diferença de peso é assustadora. A grossura das cordas não é muito familiar, machuca o dedo e é dificil de tocar. E tem menos que o violão, são apenas 4. Mas ele não foi feito assim por acidente. Os sons, apesar de discretos, são interessantes. Eles tem agradado as nuvens também. Hoje, por exemplo, pude sentar do lado de fora no lugar que eu montei (é impressionante a quantidade de coisa que pode ser feita usando entulho) e tocar ao ar livre, olhando pro mar. O sol que derrete esse lugar todo dia hoje estava oculto graças ao trabalho dessas nuvens. Acho que é um sinal para eu continuar. Tem sido relaxante. Mas ainda prefiro o violão.

Enquanto ouvia seus murmúrios (esse é o jeito que o baixo conversa), as crianças começaram a gritar. Como de costume, a embarcação havia desaparecido e não havia nada além do enorme lençol azul. É sempre triste, mas nesse caso deve ter sido a quarta vez daquele grupo de crianças. Seu retorno vagaroso pelas mesmas areias onde corriam minutos antes salientava sua velocidade na perseguição ao barco, usando o triste contraste entre as cabeças olhando para o horizonte e as cabeças olhando pro chão. Não ajudava que o retorno para a cidade se dava através de uma mísera entrada. Eles subiram a escada de volta e seguiram seu caminho, que passava exatamente em frente a onde eu estava. Eles ainda tem um dia inteiro pela frente.

Também era minha hora de retornar. Botei o baixo na pequena caixa de pedra feita especificamente para ele e o protegi do sol que definitivamente viria no dia seguinte. Ele pode ser parado por no máximo um dia, mas é melhr não subestima-lo. Amanhã, provavelmente vou praticar no sol.

Hoje o prognóstico era igual a todos os outros. O saguão do cassino estava quase pronto, faltava apenas polir as pilastras e terminar o acabamento dos bancos. É um saguão extremamente espaçoso, desnecessariamente eu diria. Haviam sofás em frente aos bancos, mas agora eles apenas servem como um lugar para observar quem entra e quem sai. Tenho certeza que muitas pessoas sentam lá e ficam me vendo bater a estaca de pedra no chão. Meu lugar favorito é a fonte. Ela fica bem no centro do saguão. Quando era ativa, a água ia tão alto que parecia estar chovendo caso chegasse muto perto. Ela ficou linda depois que eu reformei, modéstia a parte. É triste que ela não tenha mais água, mas eu pretendo pegar um pouco emprestado do mar. Se tudo der certo, em alguns anos aqui vai voltar a ser o lugar mais bonito da cidade.

O dia dura poucas horas. Eventualmente, só se enxerga até onde o fogo deixa. É minha deixa pra voltar. As ruas são uma mistura de pedra, poeira e areia da praia. Em teoria, pedra e poeira são a mesma coisa. Mas acho que só eu penso nessas coisas. Minha casa não ficava longe daqui. Era o dobro da distância entre meu pequeno estúdio e o cassino, mas no caminho oposto. Se eu fosse pela praia, faria o mesmo trajeto das crianças. Como será que elas estão agora? Será que já perceberam? Mais cedo, enquanto descia o prédio, pensava nisso. Ele é mais bonito hoje do que antes. Os inúmeros buracos na parede denunciavam sua natureza de caixa escura derrotada pela luz; Alguns restos de ladrilho formavam uma bela imagem. Em um dos buracos, porém, o que entrou não foi a luz mas sim o olhar de uma das crianças, que olhava pra mim. Seu rosto era redondo e seu cabelo ralo, mas suas bochechas davam um formato de pão amassado que faziam seus olhos quase imperceptíveis. Mas, nesse caso, não havia dúvida: ele estava olhandopra mim. Imagino que ele tenha se interessado pela aventura de subir e descer um prédio naquele estado. O buraco não era grande o suficiente pra me ver de muitos ângulos, o que me fez imaginar que ele ouviu os passos. Eu não converso muito com crianças, na verdade não converso nada. Mas naquele momento, quis perguntar: ‘’o que?’’

Quando cheguei no primeiro andar, ele não estava mais lá. Nem agora, passando em frente ao prédio. Seus amigos devem te-lo chamado para que não ficasse para trás. Uma criança perdida por aqui nunca acharia seu caminho de volta para dentro. Eu só consigo achar o meu porque memorizei o número de portas do cassino até a casa. O resto das pessoas que passavam estavam prevenidas com mapas. Eu já desisti de falar com elas. Vale muito mais sentar e ouvir o mar do que ser ignorada. O dia vai ser longo amanhã. Espero que não faça sol.

A manhã traz sempre um alívio. São sempre iguais, mas poder ver um palmo além do nariz faz bem pra sanidade. Apesar de que, nas sombras e na luz dos fogos localizados, a cidade é muito mais bonita. A manhã é tão charmosa que esquecem da tarde. Quando o ceu está azul mas sem brilhar; Quando o mar parece fazer mais barulho; Quando a poeira não voa nos momentos certos. Eu conhecia um casal que vivia aqui pelo cassino. Duas pessoas brilhantes, no sentido reluzente da palavra. Mas seu relacionamento não era oficialmente público, muito pelo contrário. Estavam sempre distantes um do outro, e quem os via automaticamente os associava pela semelhança na intensidade da luz que emitiam. Haviam boatos pois volta e meia alguém afirmava ter visto os dois juntos em um sofá, numa piscina, no corredor. Mas nunca foi provado. O que sabe-se é que quando eram vistos, estavam separados. Mas eu tenho certeza que estavam juntos. Eles me lembram a manhã e a noite aqui. São momentos tão distantes e tão próximos, como eles eram. A única diferença é que eu não sou como a tarde.

Esse tipo de história sempre aparece quando trabalho no saguão. Cada ladrilho, cada pedra no chão tem muitas histórias pra contar. Mas elas não tem boca, é injusto deixa-las por aí sem pelo menos ajuda-las a contar essas histórias do melhor jeito. Já deviam ser umas 6 da tarde quando começou a chover. Eu tinha acabado de terminar de polir uma das pilastras. Não ficou muito bom, mas ficou melhor do que antes. Elas pareciam faixos de luz antigamente. A chuva é um inconveniente e tanto aqui. Ela desce pelas escacadas vagarosamente e vira lama quando chega no saguão. Mas ainda é cedo pra voltar. Será que eu guardei meu baixo direito? Ele não parece ser muito compatível com a chuva. Na volta eu checo. Por agora só me resta esperar. Acho que vou ver a fonte encher.

Os carros se alinhavam na porta como engrenagens, e circulavam a fonte com uma organização e precisão sobrenaturais. Os modelos eram variados: Alguns eram longos, geométricos, imponentes. Já outros eram lisos, esticados e pareciam ondas com rodas. Seus ocupantes não eram tão diferentes. Pessoas de altíssima classe, evidenciada nas pedras e pérolas que ostentavam. Alguns levavam seus filhos, sempre no lado esquerdo do banco de trás. A fonte era muito mais impressionante que o cassino: revestida em mármore com polimento dourado, cada pedra encravada refletia a luz dos holofotes e hipnotizava. A água chegava até o céu; sua altura era completamente incalculável para uma criança. Precisavam de alguns gritos dos pais para que finalmente saíssem dos carros e os acompanhassem. Era uma troca justa: ao vivo, a entrada do cassino quase compensava. Suas duas pilastras sustentavam suas portas como guardiões, e o tapete era vermelho e servia como guia até o próximo mundo. Para os adultos, era praxe. O baile de gala acontecia todo ano ali. Para algumas crianças, porém, era a primeira vez. Políticos, artistas, músicos, escritores. O mundo particular de suas casas se expandia em um evento como aquele. Do lado da entrada, os vidros transformavam o saguão em uma grande vitrine. Era possível espionar o que acontecia dentro enquanto-subia-se as escadas. Enquanto os convidados reparavam nos detalhes, o resto do mundo reparava nos convidados. Fotógrafos e jornalistas pediam opiniões e comentários, enquanto passantes apenas assistiam essa outra realidade. A cidade estava toda viva naquela noite, mas apenas o cassino importava. Lemis D’Artagnam era uma das almas celebradas. Com sua filha, estreante, era o centro de absolutamente todos os olhares. Desde o momento em que saiu de seu carro, segurando sua filha pela mão, o evento prendeu a respiração. A pequena, deslumbrada, olhava perdida para as luzes e vitrines, até encontrar o olhar de sua mãe. ‘’Já vamos entrar, ok? Você está linda hoje!’’. Prontamente respondida com um largo sorriso, Lemis continuou caminhando de mãos dadas com a pequena herdeira sem um pingo de hesitação. De todas as luzes, poucas brilhavam como ela. Mas a chuva parou de cair.

É raro de chover por aqui. É sempre um saco quando acontece. Essa cidade não foi feita pra isso, deveria fazer sol o tempo todo. A chuva alaga tudo e a praia fica mais barulhenta do que o normal. Pelo menos dura pouco. Os passos até a o prédio entre o cassino e minha casa pareciam maiores dessa vez. Andar desviando das poças requer mais atenção. Mesmo assim, meus pés estavam limpos. A lama no cassino não chegava nas ruas, e as pedras que pavimentavem o caminho não estavavam mais sujas. Era um padrão familiar: cada pedra tinha uma listra em uma lateral e três na outra. Sua cor era quase marfim, complementada pelo vinho das listras citadas. Muitas ainda no lugar certo. Dessa vez, não cruzei com ninguém. Porque andar só quando tem poeira? É a única parte boa de ficar cheio de água aqui. Apesar do que eu falei, é mais fácil de respirar. O vento também faz bem, é uma sensação boa. Mas ainda é um saco.

Descer os quintos andar do prédio (que vou chamar de estúdio a partir de agora) eram mais fácil do que subir. A gravidade só puxa pra baixo, mas felizmente eu tenho meus macetes. A pequena cachoeira que se formava na escada do primeiro andar era minha recepção. Apesar da dificuldade aparente, não era tão difícil. Vigas e buracos davam o apoio perfeito. O que tinha que cair já tinha caído. A janela onde o menino me olhou aquele dia foi um dos lugares por onde a água entrou. Acho que a goteira caía direto na escada, e o vento ajudou a botar o resto pra dentro. É uma vista boa, a maioria das casas aqui não tem 3 andares. O quinto é o objetivo. Eu sempre me sinto bem depois de subir assim.

No estúdio, fui recebida pelo vento gelado que soprava do mar. O sol estava discreto, no horizonete. A essa hora, ele estava quase no mar, como se estivesse sentado por lá olhando pra mim. A luz era suficiente pra enxergar meu estúdio. Meu baixo estava intacto, apesar da água ter chegado até ele. Acho que os buracos ajudaram a escoar. As notas vieram sozinhas. Eram discretas, mas serviam de apoio para o resto. Inseparável, a batida na bateria o acompanhou sem hesitação. A guitarra temperava a música — instrumento de cordas sempre foram meus favoritos. O que uma nota aqui ou ali pode fazer com seu corpo é a melhor coisa do mundo. As palavras não tardaram a chegar, por último mas não menos imortante:

Somewhere over the dunes, love..
I walk, I wept

Meu corpo já se mexia sozinho. Meu vestido, cintilante, agora estava pintado de laranja graças a ajuda do sol. Ele terminava um pouco acima do meu joelho, mas mesmo assim o estúdio estava iluminado com seu reflexo, coberto pelo brilho. Minhas pernas permaneciam no escuro, mas não se importavam. Elas já estavam no meio de sua festa, e eu também. Dançar sem alguém para me incomodar era uma experiência rara. Lá em cima, no estúdio, apenas a banda e eu.

Enough
I turn the desert into sea, babe

O horizonte me encarava mesmo com meus olhos fechados. Foram horas ali, mas apenas uma música. Será que ele esta ouvindo também?

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