Juan Gabriel Vásquez: “A única obrigação da ficção é não ser redundante, é dizer-nos algo novo”
Tens consciência de estar a apresentar a Colômbia ao mundo através dos seus livros?
Sim, inevitavelmente. Tenho consciência de que o retrato que faço tem uma consequência na perceção que os leitores de todo o mundo têm sobre o meu país e o que espero fazer é, digamos, destruir os clichés, os lugares-comuns, os estereótipos que se têm e convertê-los numa realidade um pouco mais complexa, mais matizada, do que é a experiência colombiana do século XX. Estou muito consciente de que os meus livros parecem estar obcecados dos aspetos mais negros, mais traumáticos da história do meu país, mas é sobre estas coisas que os romances devem falar, para mim. Devem servir para ir a esses lugares negros, convulsos, conflituosos, difíceis e voltar para contar o que ocorre neles.
Quais os principais clichés que vês sobre a Colômbia?
O principal cliché neste momento é o mundo da droga. Vês uma série como “Narcos” e o que encontro ali é uma banalização de uma parte da experiência colombiana que é profundamente traumática, dolorosa, cheia de conflito ainda hoje, quase 25 anos depois da morte de Pablo Escobar. Ainda nos continuamos a perguntar como é que aquilo aconteceu e o país ainda continua marcado não só pela violência extrema, mas também por uma certa ética que deixou a época do narcotráfico na mentalidade colombiana. Tudo isso é muito complexo e causou muito sofrimento. A banalização, a frivolização é algo que me incomoda muito e que vejo na paisagem porque se trata de um tema que é atrativo do ponto de vista do entretenimento. Para alguém que conheça melhor o tema, a ideia de banalizá-lo é profundamente antipática.
Mas essa banalização também ocorre na Colômbia, não? Lembro-me de ver nas lojas t-shirts com a cara de Escobar.
Claro que é possível. Também se produziram na Colômbia séries de televisão, telenovelas culpadas do mesmo. Homem, a mim parece-me que essas coisas só condenam os seus criadores, não nos devemos colocar no papel de juiz, não é o que procuro fazer. O assunto é sério e merece um tratamento que respeite a sua complexidade e a profunda marca que deixou na gente do meu país.
Há uma responsabilidade nisso que fazes? Na complexificação do que é um estereotipo?
Não creio que haja uma responsabilidade que se possa exigir. O mundo da narração é absolutamente livre, claro, mas creio que o escritor, como eu o entendo, tem uma responsabilidade, que é a de explorar estes temas e assuntos respeitando a sua complexidade, sem simplificar e tratando de abrir uma porta até lugares que não tenhamos visitado antes. Ou seja, contar-nos algo que não se tenha contado antes. Na realidade, já o disse muitas vezes, tanto no tema do narcotráfico como nos restantes, a única obrigação da novela é dizer apenas o que só as novelas podem dizer. Se um livro me conta a mim sobre o narcoterrorismo, sobre Pablo Escobar, sobre o que for, o que eu já sei, então esse livro não me serve. A única obrigação é não ser redundante, é dizer-nos algo novo.
Abordas nos teus livros problemas históricos do teu país, que às vezes as próprias pessoas desse país desconhecem. Coisas ensinadas desde pequenos que permanecem como o único que conhecem sobre um determinado tema. Como é a tua relação com a história e com os demais colombianos, tendo em conta o que escreves?
É algo muito interessante. À parte da minha poética como escritor, há uma ideia de que uma pessoa escreve a partir da surpresa. Não escrevo sobre o que conheço, sobre o que domino. Não escrevo sobre o que já sei para explicá-lo aos outros. Escrevo sobre o que não conheço, sobre o que ignoro, sobre o que me surpreende. E dei-me conta de que se costuma pensar que os escritores escrevem sobre os seus países, as suas cidades, porque é o que melhor conhecemos. Penso que não é assim. Penso que escrevemos sobre esses lugares porque serão justamente os lugares que julgávamos conhecer. E algo acontece e descobrimos que não os conhecemos assim tanto. Damo-nos conta de que têm segredos, mistérios, de que há sempre algo que nos surpreende, que nos sacode, que é imprevisível. Escrevo a partir dessa sensação. De não conhecer, de ignorar, e então sou o primeiro a não conhecer os meus temas. Interessa-me que assim seja, que para os meus leitores também seja uma exploração de algo desconhecido ou uma exploração de um aspeto desconhecido de algo que pensamos conhecer.
Isso é quase uma descrição da função do jornalista.
Também. Suponho que sim. Não é surpreendente, porque o método jornalístico é muito próximo do meu. Não escrevo os meus livros fechado num quarto. Quando me fecho geralmente já fiz um trabalho que é jornalístico, de sair ao mundo, de falar com as pessoas, fazer entrevistas. Entrevistas muito aprofundadas. “O barulho das coisas ao cair” nasceu, entre muitas outras fontes, de investigações e conversas com velhos pilotos, de investigações com os Corpos de Paz dos Estados Unidos. “A forma das ruínas” nasceu de uma conversa e uma série de entrevistas com um homem que guardava na sua casa os restos humanos — uma vértebra e uma parte de um crânio — das vítimas mais conhecidas da violência colombiana. Para mim, há sempre um trabalho jornalístico que vem antes da escrita propriamente dita.
E quanto tempo demora isso?
É imprevisível porque não é metódico. É muito ao acaso. “A forma das ruínas” demorou sete anos entre o momento em que este homem me convidou para ir a sua casa e me pôs nas mãos uma vértebra de Jorge Eliezer Gaitan. Foram sete anos em que falei com ele quando ia à Colômbia, tínhamos conversas por acaso. O que me acontece quando escrevo é que não sei o que estou a contar. Não sei quais são os temas. Escrevo para averiguar quais os temas e a escrita sugere-me novas perguntas e disso só me vou dando conta com o passar do tempo e logo chego a um momento em que me sento a escrever e aí pode demorar dois ou três anos. “A forma das ruinas” foram sete anos de dar voltas ao tema e três anos de escrita. “O barulho das coisas ao cair” foram 10 anos de compilar documentos, conversas, anedotas, e dois anos de escrita. É um trabalho muito pouco económico.
É possível separar o narrador de ti?
Bom, é. Claro. O narrador nunca sou eu nem sequer quando mais nos parecemos, como no caso de “A forma das ruínas” em que uso o meu nome e a minha biografia. Nada de importante do que se ali se conta é ficção, mas ao incluir a minha vida e a minha biografia dentro de uma ficção com outras personagens fictícios ou que são transmutações de alguém real, a minha personagem também muda. E não se pode dizer que seja uma autobiografia direta, ainda que lhe tenham acontecido as mesmas coisas que a mim.
O narrador diz a dada altura que não tem uma visão de [Jorge Eliécer] Gaitán como um salvador, mas pergunto se acreditas que a história da Colômbia teria sido a mesma sem o “Bogotazo”?
Repara, é algo que me pergunto muito. Teria gostado de nascer num país onde Gaitán não morreu. Creio que a presença de Gaitán na política colombiana teria permitido a existência de um país melhor, de um país, desde logo, onde certas ideias liberais, certas ideias de justiça social estariam mais presentes. E creio que isso teria evitado grande parte da violência que veio depois. O que acontece é que Gaitán não era um anjo. Ao contrário do que às vezes acontece na política colombiana não era um santo. Era um homem muito contraditório, por isso é interessante. Não sei o que se teria passado, mas tenho a certeza de que o país seria um país melhor não apenas se ele não tivesse sido assassinado, mas se a Colômbia não fosse um país onde isto pode acontecer. O assassinato de Gaitán não foi o primeiro nem o último. Nos anos 1980 e 1990 cresci no meio de grandes figuras da política e de outras partes da sociedade colombiana que morreram assassinadas. Crescer num país assim é crescer acompanhado de uma fragilidade de tudo: da vida, da democracia, da discussão política, que em qualquer momento se pode tornar violenta e acabar com a vida de alguém. E isso sentimo-lo ainda hoje, o que é uma pena.
Nos anos 1980 e 1990 essa violência não era atribuída ao narcotráfico, enquanto antes seria definida apenas como política, mesmo que não possamos distinguir na totalidade as duas?
Percebo o que dizes, mas há uma parte da violência dos anos 1980 e 1990 que não conheces porque é um assunto estritamente colombiano e é normal que não se conheça fora do país. No final dos anos 1980 e começo dos 1990 houve o surgimento de uma esquerda colombiana que havia sido parte das guerrilhas e começava a deixar as armas. E estava a incorporar-se na política. E houve uma “mão negra”, uma aliança terrível entre todos os grupos de direita e extrema-direita, legais e ilegais, da Colômbia, que acabou com o assassinato de todos estes candidatos dessa nova esquerda ex-guerrilheira. Esses crimes são muito parecidos aos de Gaitán e de Rafael Uribe Uribe, a outra investigação do livro.
A Colômbia voltou a ser um tema da atualidade mundial. Estás otimista em relação ao futuro do país?
Nunca fui otimista. O único momento, nos últimos anos, em que me lembro de ter vivido com otimismo foi nos dias anteriores ao famoso referendo que tinha de aprovar os acordos de paz. Acontece que devido a mil fatores, entre eles o que agora se chama ‘fake news’, o referendo deu como resultado a recusa dos acordos por parte de um pouco mais da metade do povo colombiano. Aí dei-me conta de que não há otimismo que valha na história do meu país, uma pessoa tragicamente tem sempre o direito de esperar o pior. Agora, o que é que acontece? Os acordos de paz começam a ser reais, a implementar-se, e isso está a acontecer com muitos problemas, muito imprevistos, pequenos ou não tanto, muito que ajustar. O resultado geral parece-me positivo. Parece que isto se está a materializar. No hospital militar, o último soldado ferido teve alta há meses e agora as salas estão vazias. Isto é uma imagem que deve impressionar qualquer pessoa sensível. No hospital militar já não há feridos e isso é bom. Creio que o país lentamente está a mudar, mas vêm aí umas eleições presidenciais em que os candidatos mais céticos tentarão utilizar o tema da paz para tirar ganhos políticos e sobretudo o que temo é essa direita colombiana que vai tentar usar o descontentamento que muitos colombianos sentem para voltar ao poder como parte destes novos populismos de direita que estamos a ver por todo o mundo apoiados pelas mentiras, distorções e desinformação. E isso é assustador. Fizemos um imenso esforço para chegar a este ponto de terminação de um conflito de 50 anos ou mais que causou tantas mortes e vítimas e tudo isso poderia danificar-se nos próximos 18 meses se não agimos corretamente nas próximas eleições.
A recusa no referendo foi explicada, em parte, pelas questões da memória. As pessoas lembram-se do que as FARC fizeram e como tal não podem votar “sim”. Isto parece uma explicação aceitável?
Não. A dor de todas as vítimas é, claro, respeitável. Parece-me respeitável que a opinião de muitas das pessoas seja a rejeição aos acordos que implicam a presença dessa guerrilha que tantos danos causou à política colombiana. O que se passa é que muitas das vítimas — não vou cometer a irresponsabilidade de falar de estatísticas — queria o acordo de paz. No lugar mais golpeado pela violência guerrilheira, o referendo foi aprovado com 90%. Não sei. Creio que estamos perante uma oportunidade única de virar a página, de fechar um capítulo de violência mediante uns acordos de paz que são vistos como modelo e representam um precedente usado noutros conflitos internacionais. Creio que aquilo de que se esquecem é que se em Havana se estava a negociar o fim da guerra entre o Governo e a guerrilha das FARC essa paz não era só sobre a guerrilha e o Governo. Era para terminar um conflito que também produziu o paramilitarismo, o fenómeno horrível do paramilitarismo, as piores violações dos direitos humanos, também era negociar o final de ciclos de violência que produziram quantidades imensas de deslocados. A guerra colombiana gerou corrupção, um estado débil, maiores desigualdades do que as que a guerrilha teoricamente tentava combater e em realidade degradou os colombianos até níveis que não se havia visto nos últimos anos em conflitos internacionais. Não sei. É difícil.
Noutros conflitos internos há sempre o problema de como reintegrar os grupos que antes estavam do outro lado. Acreditas que isso pode ameaçar o processo?
Claro. Há ferramentas que o Governo tem para ajudar à reinserção dos guerrilheiros. Também é absolutamente essencial que a justiça de transição funcione bem, que cumpra as penas com todo o rigor que estabelece. Que todos os processos de amnistia se cumpram também com rigor. Que não se amnistie quem não tem direito de ser amnistiado. Isto é importantíssimo para fechar feridas. Mas também é importante um processo privado dos colombianos, que é um processo de perdão. De compreensão e de perdão que é muito difícil de defender quando não se foi vítima direta. No entanto, está a ser defendido por muitas das vítimas.
