Banja Luka: um banho de sol no Coração das Trevas

por Tiago Pereira de Carvalho

@ Banja Luka, Republika Srspka, Bósnia & Herzegovina | Jul 2017

É difícil livrar Banja Luka da má fama. Uma paragem de um par de dias e noites na segunda maior cidade da Bósnia & Herzegovina pode, porém, ajudar a olhá-la para além das sombras: uma cidade sobrevive aos seus piores representantes. Abaixo, o relato possível de uma visita à capital da Republika Srpska [RS] * no seu mês mais quente do ano: Julho.

Apelida de “Coração das Trevas” pelo ACNUR — Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados durante a Guerra da Bósnia [devido ao entusiasmo com que alguns sérvios locais perpetraram ali uma limpeza étnica sem piedade], Banja Luka é hoje uma cidade onde num raio de dois quilómetros podemos entrar numa igreja ortodoxa, numa mesquita, num templo católico ou no centro judaico Arie Livne. Nem sempre foi assim e há ressentimentos latentes. “Ainda temos gente que está pensando de mais na guerra. Nos noticiários ainda se fala da guerra. Todo o tempo. Srebrenica, cada ano igual!”. As palavras, num Português razoável aprendido com telenovelas brasileiras, são do sérvio bósnio Robert, jovem a trabalhar no ramo do marketing digital num país com uma taxa de desemprego a rondar os 40%. “Os políticos ainda falam da guerra para ganhar votos”, acrescenta o meu interlocutor.

Admitamos, na Bósnia é difícil não falar de guerra. Durante o conflito dos anos 90, o exército e as forças paramilitares da RS [com o general Ratko Mladić como líder militar e Radovan Karadžić como presidente em destaque] destruíram 16 mesquitas da cidade, expulsaram a minoria muçulmana das suas casas e da cidade, cobraram-lhes uma taxa de saída pelo “privilégio” do desterro. Em contrapartida, exilaram-se no “coração das trevas” cerca de 40.000 sérvios oriundos de áreas da Bósnia dominadas por croatas-católicos e bosniaks-muçulmanos. O próprio Robert volta a falar da maldita cuja: “Antes da guerra gente da Eslovénia, Macedónia e Montenegro falava sérvio. Agora não, eles sabem, mas não querem.” O professor universitário Dragan dir-me-á, a meio de uma limonada num bar sobre o rio Vrbas (onde me banharei mais tarde para suportar melhor o calor) que antes da guerra se viam mais casamentos mistos do que hoje em Banja Luka. Deu exemplos de várias combinações dentro do seu círculo familiar e de amizades.

Antes, noutro conflito, a 2ª Guerra Mundial, foi a vez dos ortodoxos de Banja Luka — nesta cidade é difícil dissociar a religião cristã ortodoxa da etnia sérvia — serem vítimas da Ustaše [organização croata de extrema-direita colocada no poder no Estado Independente da Croácia pelas forças do Eixo em 1941] com a conivência da Igreja Católica. Muçulmanos, judeus e ortodoxos da cidade foram deportados para o campo de Concentração de Jasenovac, milhares de sérvios foram mortos, e a catedral ortodoxa Cristo O Salvador foi destruída. Agora vemo-la, imponente, na sala de entrada da cidade, cercada de vários restos da antiga estrutura como signo histórico-arqueológico, mas também como artefacto de memória religiosa, étnica e política.

Sinais contraditórios

Apesar da coabitação da cidade, há feridas por sarar, mesmo vinte anos depois de Banja Luka ter sido palco de um encontro histórico entre políticos sérvios moderados e o exército bósnio para definir a implementação do Acordo de Paz assinado em Dayton e… para uma cocktail party entre “ex-inimigos”, sob o olhar atento e moderador de representantes britânicos da NATO. Falo desse episódio a Robert e ele pergunta-me supreendido: “Uma missão de paz aqui?”. A seguir, curioso, quer saber: “Porquê a Bósnia? Os teus amigos conhecem alguma coisa sobre a guerra?”

Se politicamente Milorad Dodik, o presidente da RS, vai procurando capitalizar simpatia em cima do orgulho sérvio e do nacionalismo — ameaçando um referendo à independência da RS da Bósnia e Herzegovina, mesmo que inconstitucional, questionando feriados nacionais e banindo livros escolares que ensinem aos miúdos o cerco de Sarajevo e o massacre de Srebrenica neste território, que ocupa 49% do país –, alguns cidadãos na rua continuam a prolongar uma tensão étnica e religiosa antiga e a louvar velhos monstros. Um devoto de Kurtz do “Coração das Trevas” [neste caso, o criminoso de guerra Ratko] recompõe num placard informativo um pequeno cartaz de apoio ao seu herói; em 2011 houve uma manifestação de apoio a Ratko em Banja com 10.000 pessoas nas ruas; a palavra genocídio aparece mais do que uma vez pela cidade.

“O bósnio e o montenegrino são línguas políticas — não existem”

Nikola, 29 anos, licenciado em Língua e Cultura Sérvia e Literatura Mundial, ex-professor, agora desempregado, admirador de Camões, aborda-me numa feira do livro e, numa sessão de vinte minutos de proselitismo digna de uma testemunha de jeová das Letras sérvias, diz-me em italiano: “Alguns linguistas dizem que existem os idiomas sérvio, croata, bósnio e montenegrino, mas do que é que estamos a falar? Por exemplo, o bósnio e o montenegrino são línguas políticas, não existem”. E continua: “A única língua croata é o dialecto Shtokavian, mas durante o Romantismo os croatas começaram a escrever em sérvio”. Neste período, todos os eslavistas do mundo falavam a língua sérvia. Palavra de Nikola.

Há mais argumentos a favor do sérvio, lembra: os grandes escritores — o montenegrino Petar II Petrović-Njegoš ou o bósnio e ateu mas de uma família islâmica Meša Selimović escreviam em sérvio. Houve inclusive franceses que estudaram sérvio para compreender melhor o escritor Momcilo Nastasijevic, conta vaidoso.

Tem como escritor predilecto Fiodor Dostoyevsky — “über alles”, acima de todos –, fala em italiano comigo, mas escreve apenas em cirílico, “porque é o alfabeto nacional sérvio, para pessoas ortodoxas. O primeiro”. Se há uma versão em cirílico de um livro, ele prefere-a à versão latina. Aliás, foi em cirílico que leu Camões. De resto, considera que “não devemos eliminar a escrita em alfabeto latino, mas devemos salvar o cirílico”. É uma missão, e ele um missionário da língua sérvia. Desempregado, mas ocupado com uma causa. Para rematar, como bom retórico que é, evoca uma realidade mais próxima para tentar convencer-me definitivamente: “Por exemplo, tu és de Portugal. Por que não existe a língua brasileira? Há uma forma da língua portuguesa no Brasil”.

A esperança é que, para cada sinal ou gesto nacionalista invertebrado em Banja Luka, parece haver sempre um exemplo vivo de cosmopolitismo e abertura. O próprio Nikola é uma contradição ambulante — misto de fervor sérvio e de amor pelo mundo.

Embora preocupado com a influência da Arábia Saudita em Sarajevo (não a consegui confirmar), Dragan, professor de Desenvolvimento Rural na Universidade de Banja Luka, é adepto da entrada na União Europeia, que conheceu quando foi estudar, no âmbito do Erasmus Mundus.

Filho da globalização cultural, Andrej, meu anfitrião de couchsurfing, num inglês perfeito, não toma uma posição pró-sérvia no que toca a um conflito cujas convulsões experienciou no ventre da mãe.

Robert, globetrotter apaixonado por Portugal e música latina, campeão do couchsurfing da cidade, mesmo bósnio e torcendo no futebol pela Sérvia, é um sérvio ortodoxo pouco dado a ortodoxices religiosas e culturais: “Banja Luka é melhor para viver, Sarajevo para viajar”.

*A República Sérvia (não confundir com a República da Sérvia) é uma das duas entidades políticas em que está dividida a Bósnia e Herzegovina, sendo a outra a Federação da Bósnia e Herzegovina. A primeira corresponde a 49% do território do país; a segunda a 51%. Proclamada em 1992, mas apenas reconhecida como entidade da Bósnia e Herzegovina em 1995, depois do Acordo de Paz de Dayton, assinado nos Estados Unidos durante a Administração Clinton.