Tem tempo pra um abraço?

Era uma quarta-feira à noite. Ou quinta, não importa. O fato é que eu tava na rodoviária, tava voltando de uma exposição no CCBB, tinha deixado uma amiga no ponto do ônibus e tava indo pegar o metrô. Então apareceu um rapaz na minha frente e disse:
“E aí, tu podia me dar um abraço?”.
Pela aparência, deu pra perceber que ele morava na rua. Em uns 3 segundos, eu pensei em todas as possibilidades do que fazer se ele tentasse me roubar. Respondi que sim, mas, quando ele chegou mais perto, eu automaticamente coloquei a mão no bolso que guardava meu celular. Ele me abraçou forte e percebi que ele começou a chorar, depois ele me agradeceu e eu perguntei o nome dele: “Pode me chamar de Parati, é assim que falo pra todo mundo me chamar”. Depois passou a mão nos olhos pra secar as lágrimas, enquanto eu tentava falar alguma coisa pro cara se sentir melhor, e disse o primeiro clichê que a gente escuta na igreja: “Jesus te ama”, então ele me mostrou o antebraço, que tinha uma tatuagem do rosto de Jesus, e aí me respondeu: “Eu sei disso, eu só tenho ele”. A partir daí ele me contou um pouco da sua história: ele veio do Rio, tinha chegado há poucos dias em Brasília, não tem família, tava dormindo pela rodoviária e em algum lugar próximo da UnB e falou que gostava de conversar, mas ninguém dava moral pra ele. Nessa hora, eu percebi que tinham muitas pessoas por perto olhando pra gente com a mesma desconfiança que eu tinha ficado no primeiro momento. Voltei a focar na nossa conversa e ele me disse que não sabia o que tava fazendo ou pra onde tava indo, mas que ele acreditava que Deus o guiava. Foi se despedindo e eu perguntei se ele ia dormir pela rodoviária porque eu ia levar uma comida pra ele na manhã do outro dia, então ele me disse: “Pô, cara, vou dormir por aqui sim, mas não precisa trazer comida, me traz uma bíblia?”. Eu fiquei uns segundos sem reação, até que confirmei e prometi que ia levar. Antes de ir, me pediu outro abraço (dessa vez eu nem me lembrei do celular). Abracei bem mais forte do que antes, ele chorou de novo, mas dessa vez chorou rindo, e a gente se despediu.Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi colocar uma bíblia na mochila que levo pro trabalho.
Eu nunca mais vi o Parati.

O que eu to querendo te falar com essa história é que a gente foca tanto em si mesmo e em nossos problemas que ficamos frios para o que ta acontecendo em nossa volta. Um cara sujo, fedido e sem um lugar pra dormir só queria conversar um pouco e, num lugar lotado como aquele, foi difícil achar alguém. Nós escutamos que devemos amar o próximo, mas nos esquecemos de que o amor se faz com atitudes pequenas, como escutar o outro. Eu torço pra que comecemos a viver de uma maneira mais leve e prestemos mais atenção uns nos outros.
PS: A bíblia do Parati ainda tá na minha mochila. Se Deus quiser guiar ele de novo no meu caminho, eu vou me amarrar em trocar mais uma ideia com ele.