Bem-te-vis se Calam na Segunda-Feira

Um piu.
E o galho retorcido e seco de onde o pássaro pulou em direção à morte certa viu a certeza ser contradita. O pássaro voou, bateu as asas e dominou o vento. Não foi a energia mal guiada dos moleques malvados tentando acertá-lo com um estilingue, não foi a energia ruim vinda dos vizinhos de cabeça quente por ter que engolir sapo num emprego que odeiam, não foi a energia elétrica contida nos raios que diziam para que ele voltasse para seu ninho ao invés de voar na chuva, não foi a energia eólica, não. Foi a energia proveniente da independência que deu ao pássaro a felicidade de crer num futuro melhor, com menos vermes engordando da plantação alheia e mais crianças atenciosas cuidando de pássaros machucados em caixinhas de sapato.

Um viu
Viu e calou. Viu e consentiu. Viu e nada fez. Viu e se virou. Viu, mas o fato ficou como uma foto que não desgrudava da parede de sua mente. Viu e sentiu as lágrimas queimando seus olhos enquanto atravessava as esquinas escuras de São Paulo, rezando a seu Deus para que o fizesse se esquecer daquilo. Estava sendo consumido, assim como um ato de maldade naquele beco sujo fora consumado. Mas ele não tinha forças para impedir, certo? Ele não sacrificaria sua noite maravilhosa pela noite dolorida de alguém, certo? Quantas pessoas não sofrem diariamente enquanto o mundo fecha os olhos e finge que não viu, certo? Era parte do mundo, tudo isso, parte de um todo nojento. Mas estava tudo bem até agora, não estava? Por favor, esqueça! Esqueça! Esqueça! Não pode ser real, não deveria ser real!
Viu, mas tudo o que queria era seu véu de volta.

Um mil.
Tantos motivos para ser feliz, tantas coisas que temos em comum, tantos universos brilhando em corações pela cidade, tanta vida, e reina o individualismo, a reclamação silenciosa que leva a gritar com os filhos e o comodismo de dizer que o mundo precisa ser salvo, mas não fazer nada para mudá-lo. Muros foram derrubados e leis foram assinadas pela luta da maioria que apanhou de cassetete na passeata pacífica por sua cor, sua classe social, por ser professor, por ser aluno, por ser cidadão, por se importar com quem mora do outro lado do globo, por quem sabe que não será ouvido, por quem se faz ouvir, por quem não se atém a tristezas que nada trazem. Mas ainda há tanto a ser feito e dito.
Tantos ícones, tantos símbolos, tantos índices. Tantas adições, talvez até mais subtrações e a dor das divisões. A mão que levanta a bandeira da paz tem mil cores e digitais, a mão que aperta o gatilho tem uma só.
Um civil, homem ou máquina?

Um leu. Um dormiu. Um sentiu. Um agiu. Bem te viu quem te sentiu no meio de mil.

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