Caminhos de Domingo

Domingo passado eu tava no maior tédio.
Várias coisas me esperavam, na verdade. Tinha dois trabalhos pra imprimir, tinha que estudar pra prova de Cálculo, tinha que enviar aquela música do Milton Nascimento pro Zeca, tinha que lavar a louça porque os moleques vieram aqui no sábado e tava lotado de açaí na pia, tinha que tirar meus livros da caixa e colocar na prateleira nova, tinha que escrever sobre o filme do Linklater, tinha que assistir o concerto na TV Cultura, tinha que tomar um banho porque o futum de subaquêra tava subindo, tinha que me atualizar nos seriados, tinha que trocar a bolacha Trakinas pelas três fatias de pêra que deixei na geladeira, tinha que fazer uma piada espirituosa sobre o fim do domingo antes que o domingo acabasse, tinha que ligar pra Jaque e falar que nosso café na hora do almoço tava de pé, tinha que cortar a unha, tinha que pesquisar aquela palestra do Clóvis de Barros no YouTube, tinha que ligar pra vó Mirna e dizer que tava com sinusite e que não, eu não tinha bebido na noite passada, era sinusite mesmo, tinha que descer de bicicleta no parque pra aproveitar o sol e deitar no gramado, tinha que trocar a água do Bidu, tinha que ir no banco tirar vinte reais pra carregar o Bilhete Único na banca porque as maquininhas do metrô não funcionam comigo, tinha que lavar pelo menos um par de meias pra usar na segunda-feira, tinha que abrir a janela do quarto, tinha que levantar da cama. Tinha um monte de coisa pra fazer, na verdade. Mas aff, maior tédio.
Então eu levantei, respirei fundo e fiz tudo aquilo.
Imprimi os trabalhos, tomei um banho demorado, estudei pra Cálculo, enviei a música pro Zeca — era “Ponta da Areia”, aliás –, lavei a louça e a pia, coloquei os livros na prateleira e reforcei os parafusos pra que não cedesse, escrevi sobre o filme do Linklater — o nome é “Slacker” — e postei no blog, fui andar de bicicleta no parque, mas não cochilei no gramado, tinha muita gente por lá, quando voltei, dei uma passeada com o Bidu, troquei a água dele, assisti dois episódios de “Orphan Black”, comi pêra, mandei “Não são nem onze da manhã e os caras já passaram a chamada do Fantástico. Essa depressão é só de noite, Globo!” no grupo dos moleques no WhatsApp, liguei pra Jaque que confirmou o café, cortei a unha e pus as meias pra lavar, liguei pra Vó Mirna e nem falei da sinusite, falei de coisas boas e marquei de assistirmos o Especial do Roberto Carlos juntos, tirei os vinte reais, separei a palestra no YouTube pra assistir antes do jogo, almocei, liguei na TV Cultura e lá estava a Bachiana Filarmônica tocando lindamente, aí, puts, aí lembrei que tinha que escrever uma crônica sobre o tédio.
Aí escrevi e percebi que o tédio já tinha passado há muito tempo. Mas isso no domingo passado.