Dor

Recentemente passei pela segunda pior dor da minha vida. A primeira, incomparável, foi quando descobri o transtorno de ansiedade e tive síndrome do pânico. Não posso dizer que estou 100% livre de tamanha dor que me fez sentir sozinho e um lixo, mas estou, finalmente, no caminho para isso. Um caminho doloroso e, por vezes, inacreditável. A vida, de fato, para mim, tornou-se um teatro absurdo.

Precisei parar, pedir ajuda e tentar entender tudo que se passava. Demorei a conseguir voltar para os trilhos. O sentimento de saudade, indignação, raiva e incredulidade tomavam conta de mim. A alma, ferida, sozinha, não conseguia se acalmar. As crises de ansiedade, mesmo com remédio, voltaram com tudo. Sonhei, por muito tempo, todo dia, com a minha morte. Eu estava me entregando. A vida, de fato, não fazia mais o menor sentido. Sentia, de alguma forma, que eu estava perdendo as forças entre a dor e a raiva.

Então, um dia, aos poucos, comecei a entender. Não os motivos para que tudo aquilo tivesse acontecido, mas, sim, que a culpa maior não era minha. Bem, é claro que tive culpa, só que dessa vez eu não precisava me consumir em desculpas para tentar salvar algo que já não contava mais comigo. Fui percebendo que, por aí, há quem me ache bonito, quem me leia, quem me admire, quem me veja como homem e quem, fundamentalmente, dê valor para os meus acertos e converse sobre meus erros. Eu não precisava do passado e nem daquilo que não estava nem aí para mim. O cotidiano me mostrou que, sim, sou do caralho e há pessoas que, de verdade, sentem a minha falta e me escutam sem achar que não sei me expressar.

Só que a vida, ao menos a minha, não é tão simples assim, né? Às vezes, do nada, cozinhando, por exemplo, a raiva vinha e a diferença é que, agora, eu a controlava como controlo uma crise de ansiedade: na respiração. Na raça. Não sou mais frágil. Desabo se tiver que desabar, mas volto com a coluna reta e o peito estufado. Em frente. Aprendendo e reconhecendo cada defeito.

Como em todo episódio horrível de vida ficaram as consequências. E eu, hoje, sou um cara mais frio. Perdi um pouco da vontade de mudar o mundo e de escutar os problemas das pessoas. Nunca mais vou escrever texto especial para ninguém ou declarar amor e amizade absurda. Tomar dor dos outros e alertar sobre pessoas escrotas? Tô fora. Fiquei, de verdade, um pouco estragado. Foi tudo muito forte, surpreendente e dolorido. Não tinha como ficar livre de cicatriz. Por dentro, hoje, sou um vazio cheio de remendos precários em feridas expostas que jamais se fecharão por inteiro.

Consegui, na porrada, entender que a única pessoa no mundo que, apesar de todos os defeitos, eu nunca cansei na vida, não me queria mais. Tive que verbalizar, para poder ir em frente, que eu me arrependi de cada demonstração que dei em 11 anos. Me aliviei por chegar a definitiva conclusão que AMAR e se APAIXONAR, de fato, não acontece assim, do nada. E, finalmente, chorando e desolado, tive que me livrar de lembranças para ter certeza que nunca mais vamos nos ver ou falar. Pois, provavelmente, um dos meus defeitos é não querer contato com quem não me quer.

Hoje, mais forte, eu me sinto sozinho. Não tenho mais as risadas por coisas que ninguém ri, não tenho mais as conversas de horas, não tenho mais o sorriso mais bonito que já vi na vida, nao tenho mais o hambúrguer mais delicioso, não tenho a família que me acolheu, não tenho mais mordidas na minha barriga, não tenho mais pêgacão de pé por torcer por alguém idiota no Big Brother, não tenho mais discussão por não ter paciência para tirar foto, não tenho mais o beijo, não tenho mais minha garotinha deitando nas minhas pernas para dormir e não tenho mais as cumplicidades que, sei, nunca mais terei com ninguém. Isso me sufoca. Mas é preciso ir. O que tenho hoje? Uma vida, curta ou longa, pela frente.

Vou caminhando. Fazendo minhas coisas. Conhecendo pessoas que olham para mim com admiração, me tratando e evoluindo. O passado se encerra hoje. Com esse último texto. E que, na distância e no silêncio que um dia nos uniu, ele fique cada vez mais esfumaçado. Queime em seu tempo. Até virar cinza, parar de doer e, definitivamente, nunca mais existir.

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