Garrafa vazia

O que ela esconde? Um adolescente chato que a bebeu para impressionar alguém? Um morador de rua que a sorveu para espantar o frio? Lágrimas? Alegrias? Não importa. Toda garrafa vazia tem uma história.

O ato de deixar uma garrafa vazia em algum lugar sempre me fascinou. Sobretudo, na rua. Certa ocasião comprei uma garrafa de vinho para ficar bebum, mas, fundamentalmente, para deixá-la por aí, ao léu. Me recordo que ficou repousando em um canteiro qualquer. Não ajuda a natureza e nem a limpeza da cidade, mas ficou ali um pedaço da minha vida.

A garrafa vazia, de certa forma, é o fim ou o começo. Análise que depende, sempre, de quem resolveu deixar no ar do vidro vazio algumas lembranças. Pois isso sim, de fato, é inevitável; memória. Alguns a usam para sumir, mesmo que por uma noite; outros para permanecer, mesmo que por alguns instantes.

Ela, com o passar do tempo, pode ter quebrado. Alguém pode tê-la usado para defender-se de algum abusado ou para proteger suas preciosas pedras de crack. A memória ou a garrafa?

É fácil julgar ou transparecer, claro. Difícil é entender. A garrafa, muitas vezes – e só ela – te entende.

O líquido que, socialmente, é o protagonista da garrafa? Sumiu. Ele foi seu melhor amigo. Ficou ela. De vidro, fria, esquecida e largada. Como, muitas vezes, é nossa mente. Um amontoado vazio de estranhas memórias, tristezas e alegrias. Sumiu a garrafa. Sumiu a lembrança.