Brandon.
Brandon.
Jul 28, 2017 · 4 min read

Lois Lane

Estou, como de costume, fazendo minha caminhada matinal enquanto, nos fones, escuto uma do Trio Mocotó. Normalmente, faço o mesmo trajeto e, nele, passo pela rua que corta duas das comunidades com os maiores índices de violência de Florianópolis. Ali, pode ter certeza, a lei é do tráfico – e as pessoas são simpaticíssimas.

A rua, que não é muito grande, começa reta, se desenvolve em curvas e desemboca numa pequena pracinha onde crianças andam de bicicleta, moças conversam com seus celulares na cintura e, hoje, dois homens fumam um baseado enquanto riem bastante. Há, também, a “barbearia do Nêgo” (não abre segunda e terça), um pequeno mercado, um depósito de bebida, casas e um bar. Certa vez, em uma dessas caminhadas, entrei nesse boteco que, na verdade, é a garagem de uma casa, e tomei uma Brahma. Nunca vou me esquecer: estava um calor dos infernos e, no som com caixas penduradas nas paredes, tocava Eliana de Lima, Desejo de amar (undererê!). Esse bar, sem nome, fica de frente para o que nasceu para ser um campo de várzea.

Não é, mas perto do que foi até outro dia, agora, está bem mais próximo de ser um campo. Com o tempo e, talvez, falta de jogadores, aquele terreno tornou-se um amontoado de lixo. Todo tipo de coisa era jogada ali. De papel higiênico cagado a sofá. O cheiro era insuportável. Mas aí, um dia, a prefeitura resolveu limpar. Levou tratores e tirou todo o entulho. O campo ressurgiu e a goleira (só há uma) brotou do meio do mato. As pessoas, então, passaram a ir ali para soltar pipa ou ficar batendo papo bebendo com o som do carro ligado berrando algo sobre ostentação. Mas nunca havia visto alguém jogando bola por ali. Hoje vi.

Eram dois times de três tentando fazer gol em um franzino goleiro que defendia a única meta aos berros. Alguns eram adolescentes; outros mais novos. Uma camiseta puída do Barcelona aqui com N YM R 11 nas costas, uma bermuda rasgada ali e ninguém de tênis. Alguns de chinelo. Mas quem me chamou atenção, pela habilidade, foi a única menina do grupo. Pés descalços, bermudão, blusinha da Minnie e cabelos presos numa xuxinha laranja. Do alto de seus, talvez, dezesseis anos, no primeiro lance que vi, ela gingou pra cima do primeiro, elástico no segundo, passou pelo goleiro e GOLAÇO! para irritação do magro arqueiro e minha felicidade.

Me dirigi ao bar e pedi uma Brahma para, de posição privilegiada, assistir ao cotejo. Já sem fones, dessa vez, a música ambiente era tão boa quanto Eliana de Lima: Altemar Dutra. A adolescente continuou jogando como se estivesse desfilando dribles no gramado do Maracanã em um FlaFlu nos 80 com 100.000 pessoas assistindo. Os garotos, vez ou outra, reclamavam de pedregulhos ou cacos de vidro no terreno. Ela não. Seguia firme e quieta rumo ao gol. Cansou de marcar driblando o mirrado – e reclamão – goleiro. Gol driblando o goleiro… O gol mais bonito que há. Ah, curioso, ela nunca sorria ou vibrava. Mantinha, no rosto, uma expressão séria; quase braba. Mesmo quando marcava um golaço. Jogava muito.

Assisti, mais ou menos, uns 20 minutos daquele jogo. Tive que ir embora e, coincidência, mães, como se estivéssemos nos anos 90, começaram a chamar os filhos para “lavar as mãos e almoçar”. Foi aí que descobri o nome da craque: Lois Lane. Fui pagar minha cerveja e a senhora simpática atrás do balcão, resignada, observou:

- Legal assistir as crianças jogando, né? Pena que vão perder o campo. Limparam para vender o terreno. Vão construir um prédio aí. Mas desses que pobre só sente o cheiro do cimento. De longe.

Saí triste com aquilo. Quando já colocava meu fone no ouvido para começar a correr, ela passou por mim. E, então, ajeitando o chinelo estilo Rider nos pés, parou na entrada da praça, levantou o celular com a tela virada para si, fez o V de vitória em frente ao pescoço e sorriu. Lois Lane sorriu pela primeira vez desde que a conheci. Click. Era uma selfie que, terminada, fechou o rosto dela novamente.

Correu, séria, rumo a uma casa de madeira bem conservada pintada de azul. Atravessou a praça em velocidade, chutou uma garrafa de plástico e, com um toque de calcanhar, a pegou na mão e colocou no lixo. Abriu o portão e sumiu no quintal com um cachorro latindo atrás. Lois Lane é craque. Talento puro. Talvez daquelas que ninguém nunca vá conhecer ou, se for, será apenas estatística de mais um corpo estendido na praça vítima de bala perdida direcionada. Lois Lane, apesar da genialidade, não tem motivos para sorrir

Brandon.

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Brandon.

Sou o sexto integrante do Backstreet Boys

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