Raiva

“Eu queria pegar uma faca e enfiar no pescoço dela. Pegar o rosto dela e esfregar na porra do asfalto quente, sabe? Não queria que ela morresse, mas queria descarregar toda a minha raiva naquela professora que me ferrou. Durou poucos minutos, mas, só de imaginar, me deu prazer. Um prazer horrível e falso, eu sei. Não aguento mais viver assim”.

Contou uma menina, aos prantos, no grupo de ajuda a pessoas com distúrbio de raiva. Posso, nitidamente, sentir a dor dela em não querer sentir nada daquilo. A confusão de sentimentos que só um ódio maldito te faz sentir quando você tem a sensação quente tomando conta do teu corpo. É físico e psicológico. É, de verdade, como quando o doutor Bruce Banner se transforma em Hulk. Ele, quando volta, vem como? Triste, deprimido, se achando a pior das pessoas e querendo ficar sozinho. Um ataque de raiva é assim.

Eu tenho distúrbio de raiva. Hoje sei que ele vem como consequência da minha tardia descoberta de uma TDAH negligenciada desde a infância. Tenho, ainda, muito ódio guardado dentro de mim. Há diferentes jeitos dele se manifestar nas pessoas. Na menina é machucar alguém, em mim é socar parede, estante e xingar. É horrível sentir tudo isso.

Dia desses estava fazendo meu almoço e, depois de algumas lembranças, senti ela chegando. Fiquei inquieto, andei para lá e para cá e joguei um garfo na parede. Durou 2m37. Pareceu uma eternidade. Sentei no sofá e foi como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão. Chegou a tristeza e o estado depressivo. Dia perdido.

Não sou fofo e tenho certa dificuldade em ficar, por exemplo, namorandinho ou, sei lá eu, abraçado com uma amiga ou amigo, por exemplo. Por quê? Pela raiva. Criei uma casca de vida que não permite me entregar totalmente. Eu sou todo amor. TODO! Mas sempre que me entreguei? Me ferrei. Ansiedade que vira tristeza que vira depressão e explode na raiva. Que, no fundo, sempre atrapalhou minhas relações humanas.

“Ah, é? Eu sou o nervosinho? Estou sempre atacado? Então foda-se. Vou ser assim mesmo”.

Esse é o grande erro de quem sofre com a raiva. Porque, no geral, as pessoas não estão nem aí se temos um distúrbio ou não. Elas nos taxam e nunca mais (N-U-N-C-A-M-A-I-S) vão mudar isso. Então muita gente prefere nem saber sobre os motivos que levam a esse distúrbio e continuam distribuindo patadas por aí. Até serem consumidas por inteiro pela raiva.

Demorei a entender que eu precisava me tratar e que viver sem tentar me entender não faria mais o menor sentido. Eu, Rafael, no meu caso específico, o meu distúrbio me leva a não se encaixar nas coisas. Eu nunca machucaria alguém, como a menina do início do texto, mas eu me machucaria facilmente. Eu gosto de ser eu, mas tem horas que não aguento. Meu pavio não é curto. Eu não tenho pavio. Explodia, por exemplo, como uma pergunta boba qualquer:

- Pra que você vai comprar isso?

BOOOOMMM!

É contra isso que, hoje, nos grupos, na terapia, na yoga, na meditação, eu luto. Episódios estão cada vez mais raros e, sinto, pela primeira vez na vida, que estou me equilibrando. A raiva? Não. Ela nunca vai embora. Eu preciso saber, para continuar, que sempre vão existir coisas “simples” que vão me tirar do sério e nenhuma outro ser humano vai entender. Eu só não tenho que me transformar em Hulk por causa disso.

Eu não quero ser Gandhi e amar tudo e todos. Quero apenas controlar a minha raiva e saber que não estou prejudicando pessoas legais ou me prejudicando. A raiva e ódio podem nos levar a caminhos sem fim. Talvez, naqueles minutos, você queira machucar alguém. Talvez, naqueles minutos, você queira quebrar todo que há no seu quarto. Talvez, naqueles minutos, você se mate. Ter esse distúrbio não significa que você é má pessoa ou ruim (como já me falaram). Significa apenas que você tem problemas e precisa de ajuda.

A raiva é como o crack dos sentimentos. Ela vicia e o tiro, rápido, pode te dar uma prazer absurdo. A consequência, depois, é a tristeza, a dor e o psicológico em frangalhos. A raiva, como a droga citada, te transforma em um morto vivo. E nada mais horrível do que existir sendo, aos poucos, corroído por algo que destrói tua essência e não te deixa evoluir.

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