Um dia em 89: ódio por Ulysses Guimarães, fui ladrão e preso político

Corria o ano de 1989 e, consequentemente, a primeira eleição direta pós término de ditadura. Eu era uma criança de seis anos e, lembro bem, olhava tudo aquilo fascinado. Gostava de dois candidatos: Lula e Roberto Freire. O primeiro eu amava e o segundo só gostava do jeito que falava mesmo.

A minha volta, percebia, os adultos de meu convívio e, em casa, estavam todos apaixonados por Collor. Fora um ou outro que adorava o Maluf, o negócio mesmo era Fernando. Lembro de uma tia do colégio que falou uma vez:

- É um bonitão. Queria casar com esse Collor. Imagine eu de primeira dama ao lado dele? Lindo.

Em uma ocasião, uma quarta-feira em que íamos para a sala de artes brincar com massinhas de modelar e fazer lanche comunitário, entrou, atrasada, a Gabrielinha. Emocionada, ela dizia:

- Tia, tia… Eu estive com o velhinho. Ele é tão fofo. Ai, ele tem que ser presidente, tia. O velhinho me pegou no colo. VOTE NO VELHINHO!

A tia, apaixonada pelo Collor (lembram?), sorriu simpática. Eu achei aquilo uma merda. Que velhinho? Sai fora. Lula-lá, minha filha. Contudo, era importante, eu precisava saber quem era o tal velhinho.

- OLHA AQUI MEU BOTTOM DO VELHINHO, TIA!

Minha chance. Olhei e, com a dificuldade de quem tinha acabado de aprender a ler, juntei as letras: Ulysses Guimarães. Ok. Não gostava dele. Simples assim. Tinha cara de vô escroto, à época. Bem, ao menos para mim. E, agora, eu só pensava que precisava de um adesivo do Lula – ou até mesmo do Roberto Freire – para colar em minha lancheira dos Transformers.

Acontece que a Gabrielinha não parava de falar na porcaria do velhinho e aquilo estava me irritando. Precisava de uma, sei lá, vingança. Lembrei que, dias antes, com a mesma efusividade que demonstrava amor pelo seu Ulysses, ela nos apresentou um lápis-borracha que ganhará de sua vó. Não tive dúvidas. “Na hora do lanche comunitário vou roubar esse lápis”. Roubei. Aproveitei o primeiro vacilo e enfiei a mão em sua mochila rosa.

O resto do dia transcorreu bem com aquela criança mala falando do Ulysses Guimarães e eu feliz com meu roubo. Até chegar o fim da tarde e ela perceber que seu precioso lápis-borracha tinha sumido. Foi um escândalo; uma choradeira. Eu, por dentro, gargalhava. Pensei em dizer que “vai ver o maldito velhinho pegou a porra do lápis”, mas a timidez patológica não me permitia emitir sons em 1989.

Sei que lá pelas tantas a tia que queria ser primeira dama do Collor (e que, por curiosidade, também se chamava Rosane) resolveu que alguém tinha pego o lápis. Aí fodeu, né, meu amigo? Vasculharam tudo e acharam dentro da minha lancheira. Ao lado de um biscoito wafer de morango. A professora foi minha aliada política e não fez escarcéu. Entregou para a menina e disse que achou no chão. Gabrielinha, então, pode ir para casa feliz cantando o jingle maldito do velhinho.

* Doutor Ulysses? Ah, até hoje não suporto e acho superestimado. Dia desses revi uma entrevista dele. Lá pelas tantas desliguei o vídeo. Balbuciei:

- Vote no velhinho é o cacete.

E comecei a cantarolar sua musiquinha. *

Eu? Bem; eu fui parar em uma sala com Rosane Collor e um cara nojento (vice-diretor ou algo que o valha) que me fazia perguntas sobre o roubo (antes de me deixar esperando por meia hora. Preso político, claro):

- Por que? Qual o motivo? Não sabe que isso não se faz? Aqui respeitamos os valores de Deus, sabia?

Eu, tímido patológico, como já dito, não respondia nada. Ele insistia. Berrava. Nada. Lá pelas tantas ele se irritou e disse para a tia:

- Libera, Libera, Rosane. Esse aí deve ser de família esquerdista. Ladrãozinho. Tudo vagabundo.

Mal sabia ele que, no geral, minha família era a mais conservadora e de direita possível. Provável que se, de fato, isso chegasse a eles – e soubessem de minhas simpatias por Lula -, olha, dariam razão ao cara e me colocariam em psicólogos ou coisa parecida.

Hoje em dia, quando defendo alguma coisa, como direi, mais à esquerda – e até me defino como um esquerdista – lembro daquele dia em 1989. Ter raiva de mim por isso não é novidade. Há 27 anos que eu escuto essa babaquice. E, há 27 anos, acredite, é um orgulho estar do lado de cá.

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