Aos 64 anos, Seinfeld reflete sobre humor, sorte e família

Sob vários aspectos o mundo de Jerry Seinfeld é o que sempre foi. Ele ainda é um comediante stand-up apreciado, estrela e cocriador do seriado de TV que leva seu nome e âncora do talk-show da Netflix Comedians in Cars Getting Coffee. Aos 64 anos, Jerry ainda participa de dezenas de shows ao vivo por ano e na sexta-feira, 26, anunciou seu retorno para uma temporada no Beacon Theater com 20 novos espetáculos programados para 2019.

Mas o mundo da comédia vive um período tumultuado. Enquanto alguns artistas se sentem inquietos com o que podem ou não dizer no palco, outros famosos caíram em desgraça por causa de escândalos em que se envolveram. Bill Cosby, um dos heróis criativos de Seinfeld, foi condenado por abuso sexual em abril e preso em setembro. Roseanne Barr teve seu programa na rede ABC cancelado em maio depois de postar um tuíte racista. Louis C.K., que no ano passado admitiu ter praticado atos de má conduta sexual, retomou suas atuações em clubes, o que provocou protestos de algumas pessoas e críticas de outros comediantes.

São questões complicadas e incômodas que Seinfeld sabe que não pode evitar estando no posto que ocupa, e sobre as quais vem refletindo e processando em tempo real. Na quarta, 24, durante almoço no Barney Greengrass, no Upper West Side, ele falou sobre o atual momento cultural. “Estamos refletindo sobre ele enquanto seguimos em frente”, afirmou. “E existe algo que é estimulante e fortalecedor neste caso — não sabemos realmente quais são as regras.”

Seinfeld também falou sobre seu enfoque como comediante stand-up neste período tenso, sobre os artistas que transgrediram e aqueles que ele ainda admira.

Sua temporada no Beacon Theater foi de 2016 a 2017, mas não este ano. O que o fez voltar em 2019?

Quando decidimos fazer a experiência, adorei trabalhar ali. Mas nos pareceu que foi tempo demais e você nunca deseja permanecer demasiado em um lugar. Mas depois senti falta. É a minha visão do que considero ser a experiência ideal no caso do stand-up: um belo e antigo teatro na cidade natal de uma pessoa, onde ela conhece cada centímetro do seu bairro. Você vê um artista no Madison Square Garden, no Radio City ou no Carnegie Hall e cada um desses teatros constitui uma experiência diferente. Você não tem a mesma interação com o artista.

Ainda é importante para você trabalhar com material novo em clubes menores?

Ontem saí de Long Island, cheguei à minha casa às sete horas e peguei minha jaqueta para sair. Minha mulher me perguntou para onde eu ia. ‘Vou para um clube’, respondi. E ela insistiu: ‘Por que?’ Estamos casados há 18 anos, e você ainda tem de responder a essas perguntas. ‘Preciso experimentar uma coisa’. Os comediantes de verdade querem sair todas as noites.

Por muitas razões, observamos que há muita tensão no campo da comédia nos dias atuais

Certamente. Outro dia estava falando para o meu público: ‘Por que vocês ainda vêm aqui? Acho que gostam de ver uma pessoa transpirar’. Chris Rock me explicou sua teoria, segundo a qual antigamente, quando você ia assistir Neil Young ou Jimi Hendrix via o artista por inteiro. Hoje, no caso de muitos artistas, o talento dessa pessoa é apenas um componente do que ela está fazendo. Mas, no caso do comediante, você ainda tem na frente o artista por inteiro: o escritor, o diretor, o apresentador. E todo o seu talento é exibido em um só pacote, o que é algo intenso. Por isso o stand-up é tão popular.

Você também sente essa inquietação?

Claro. Com Cosby e Louis e Roseanne. O fato é que estar no campo da comédia significa ‘odiamos você, saia do palco’. Estamos acostumados. Todo comediante sofre com isso em sua vida: ser vaiado, xingado, odiado. Você quase não percebe. Consegue ficar imune a isto ou não.

Pessoas foram punidas pelo comportamento fora do palco. Mas no caso daqueles que acham que foram penalizadas por coisas que disseram no palco, eles teriam direito a uma esfera de proteção nas suas apresentações?

Não acho. Porque o público automaticamente filtra aquilo que você está dizendo. Você sabe quantas pessoas estão por perto desde quando comecei? Eu comecei com centenas de homens e mulheres e 99% se foram. E era um público bom. Por que foram embora? Por qualquer razão que você possa imaginar. Por cada fragilidade humana que existe. Cada brecha da sua personalidade é um motivo para piada — e vamos ver se conseguimos aprofundar essa brecha e empurrar você para dentro dela. É o que acontece no stand-up.

Como acha que evitou esses obstáculos?

Tive sorte. Nos anos 1970 estava rodeado de cocaína e alcoolismo. Mas como não tinha nenhum interesse nisso, nunca tive contato. Jamais vi cocaína na minha vida. Sério. Sabia que havia, mas eu estava num outro caminho. ‘Não, não, isso não é para mim’. Acho que tive sorte de ter uma aversão natural a coisas que considerava tóxicas. É isto abrange uma ampla gama.

E hoje uma família ajuda?

Ah, sim. Quando a vida de alguém depende de você manter a família unida, é mais fácil mantê-la unida.

Tradução: TEREZINHA MARTINO


Originally published at Totalidade.