Sobre aproveitar a vida

Todo mundo já ouviu falar inúmeras vezes sobre aproveitar a vida, curtir ela, fazê-la valer a pena, ser você, se jogar nos perigos, ter uma aventura, fazer da sua vida algo útil. Esse tipo de fala é extremamente comum, vendem a todos nós a mesma embalagem, como se fosse uma fórmula já bem estabelecida, como se fosse uma verdade absoluta e já completa, porém, alguma vez você já parou pra realmente pensar sobre a definição de aproveitar a vida?

Eu desde pequeno nunca fui o tipo de pessoa muito sociável. Nunca fui um garoto que com seus vários amigos se juntava para fazer bagunças, sair com os amigos, dar seus rolezinhos, zoar e voltar tarde da noite. Chega ser estranho utilizar o termo antissocial no caso, afinal, embora eu desde sempre seja um cara extremamente caseiro, aplicar esse conceito não é algo que eu concorde, já que embora não saia de casa, todos que me conhecem sabem que sou bastante elétrico, falador acima do normal, explosivo, inquieto e bastante bem-humorado. É por isso que já daí vemos que o termo antissocial é mal utilizado, muitos classificam com pessoas que não saem de casa, mas na verdade deveríamos ver que são pessoas que não gostam de se relacionar com outras pessoas, coisa que não é meu caso, apenas não compartilhava e ainda não compartilho dessa filosofia de vida imposta pela grande massa.

Tenho um irmão 7 anos mais velho que eu que foi criado de maneira, épocas, situações, presenças entre outros aspectos todos diferentes dos meus. Enquanto ele saía, arrumava seus namoros, suas aventuras, risadas, porres, transas, festas, zoeiras entre outras coisas, minha maneira como já descrita foi completamente o oposto. Por não ter feito as mesmas coisas que ele, meu irmão sempre disse que eu não aproveito minha vida, que ele sim viveu a adolescência dele, que ele teve sua infância e ela valeu a pena. Típico do estereótipo recém criado do “velhos tempos” onde supervaloriza os tempos passados e subestimam a contemporaneidade. Isso me fez pensar, sobre o que é aproveitar a vida.

Já que os velhos tempos parecem ser sempre melhores, é falando sobre o tempo que começamos nossa viagem filosófica para que possamos realmente nos perguntarmos sobre qual a realidade do “aproveitar a vida”.

Você já parou para pensar quem era seu bisavô ou tataravô? Sabe seu nome? De onde veio? Quem foi ele? Trabalhava com o que? A grande maioria das pessoas provavelmente responderá não para essas perguntas quase como uma totalidade, principalmente se formos abordar o tataravô, já que bisavô alguns ainda conseguem ter a felicidade de conhecê-los. Mas não é o caso de todos. Mas o importante dessas questões é para sabermos que em um período de no máximo 100 anos, a probabilidade de que todos nós desapareceremos da história é muito grande. Daqui 100 anos você some, não existiu, passou por aqui, e foi embora, as pessoas do seu sangue não saberão mais quem foi você, como viveu, qual seu nome, seu trabalho, as músicas que gosta de ouvir, o carro novo que lutou tanto para comprar.

Será que é só isso que você realmente vale? Será que aproveitar a vida se resume à vida monótona de todos os dias acordar para passar uma média de oito horas fazendo algo que te prenda a uma recompensa no final do mês assim fazendo com que você possa viver, e que você viva para que possa fazer isso mais uma vez a grande parte da semana por mais oito horas, e mais oito horas e mais oito horas, lutando para que consiga subir de recompensas e agora poder viver melhor, mas nas mesmas oito horas, as vezes até mais.

Essas recompensas são gastas com algumas horas de risadas ao lado de pessoas que fazem o mesmo semanalmente, gastando sua recompensa com música alta, bebida, estourando a recompensa, evitando pensar tanto e curtir mais. Isso quando o indivíduo evita gastar essa recompensa para poder investi-la no que muitos consideram como conforto, com seu carro novo, casa nova, roupas e sapatos novos… vivem para fazer mais do mesmo, sem se importarem tanto com o amanhã, muito menos para décadas que virão.

A cartilha de uma boa vida sempre foi assim, valorizar a vida sempre se baseou nesses conceitos, com alegria, agitação, sexo, pegação, bebida, loucuras, as vezes podem ser interrompidos com alguma filosofia religiosa que impeça algumas dessas coisas nos restringindo muitas vezes a seguir mais um método repetitivo, só que dessa vez religioso. Afinal, é tudo isso que a humanidade consegue produzir? É isso que é a receita para aproveitar a vida?

Aos poucos, o conhecimento, a virtude, a ética e a moral vão cada vez sendo deixadas de lado, ignoradas como se não fossem bem vindas nesse novo padrão da vida, do viver sem ver, do foda-se exaltado, dos sorrisos momentâneos e da não previsão do futuro. Livros trocados por copos, carreiras, salários, trabalho, onde o cansaço físico é mais valorizado que o mental.

O pensamento se tornou algo a ser barrado, a sociedade transformou o homem em um novo animal, mas dessa vez agindo pelo instinto imposto pela nova sociedade, esse instinto que tira a mais bela da natureza do homem, que é a de raciocinar, de fazermos diferentes dos demais animais. Uma sociedade que restringiu de maneira antiética falar sobre Política, Religião ou Esporte, pois quando esses temas são utilizados, abraçam-os sem pensar, e fazem guerras com eles, novamente agindo com instinto.

Mas como evitar isso se somos meros mortais, que obviamente não passaremos dos 100 anos de idade a menos que tenhamos a sorte de sermos algum décano, mas mesmo assim sabemos que tem um fim… Como podemos evitar que sejamos esquecidos e engolidos pela grande adversidade do passar do tempo? Temos uma solução, mas nem toda solução é fácil, algumas são extremamente difíceis e a probabilidade de obtermos com sucesso é baixíssima.

Talvez o homem precise tomar consciência de quão pequeno é, se não fazer por si só, nada obterá. Tentar ser útil para a história é o passo, seja você um escritor de renome, um artista famoso, um arquiteto conceituado, um cientista que descobriu uma cura de doença, até um empreendedor que fundou uma empresa multi bilionária… ser alguém, fazer com que seja lembrado de alguma forma, que esteja escrito em algum documento, algo que evite que em pouco tempo você seja apenas mais um grão de areia.

O homem precisa provar por si só o porquê é o espermatozoide vencedor, ele precisa aproveitar o pouco tempo que tem para não ser só mais um qualquer, talvez a vida baseada nas festas, porres, sorrisos, orgias e chapadas não seja o rumo certo… talvez esse estilo de vida só ilude pessoas que acham que são diferentes mas fazem parte da mesma redoma, do mesmo pasto onde o estilo de vida material seja o pastor, e vocês os cordeiros.

Aproveitem a vida, ou morram tentando aproveitá-la.

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