Eduardo Cunha e impeachment: sua ignorância política fala sobre você, não sobre mim

O esporte favorito dos defensores do impedimento da presidente Dilma Rousseff é tentar deslegitimar a argumentação de um enorme número de pessoas que não aceita que um processo de impedimento seja feito por um parlamentar acusado, entre outras coisas, de corrupção, lavagem de dinheiro e de manter contas secretas no exterior.

A tarefa de deslegitimar tal posicionamento é tão retoricamente rasa quanto infantil. Em linhas gerais, o que andam defendendo nas redes sociais é que a indignação contra Eduardo Cunha ocorreu apenas a partir de 2015, quando o deputado do PMDB, então aliado do Governo Federal, desembarcou como ratos fogem de um navio prestar a afundar.

Falando no idioma da Internet, é como se criticar Cunha fosse “modinha”. E que, antes dos recentes episódios da House of Cards nacional, nenhum dos críticos tivesse sequer ouvido falar do deputado carioca ligado à bancada evangélica.

Se há um ditado popular muito válido, neste caso, é aquele que diz que “o bom julgador, por si, julga os outros”. Ou seja, é bem provável que os próprios deslegitimadores do discurso alheio não conhecessem essa figura política lamentável e, por isso, pressupõem que sua própria ignorância certamente era compartilhada pelos “modinhas”.

Não por acaso, diziam que “o gigante acordou”, quando na verdade falavam de si mesmos: como esses pioneiros criadores da roda nunca haviam ido às ruas para nada que não fosse micareta com área VIP, deduziram que ninguém mais o havia feito.

Voltando ao Cunha: julgo ser “bem provável” que não tivessem conhecimento de sua existência porque, se o soubessem (quero crer no bom senso alheio), poderiam perfeitamente concordar que um gângster como esse não teria legitimidade política, jurídica e moral para conduzir um processo de afastamento de um(a) presidente.

Retrato falado

“O bom julgador, por si, julga os outros”.

Pressupondo que, na era da Internet e da livre informação, seu problema seja o de falta de conhecimento, separei aqui algumas informações sobre Eduardo Cunha. Tal resumo é fruto de reportagem, assinada por mim, três anos atrás. Muito tempo antes da eleição que levou Dilma Rousseff para seu segundo mandato e, portanto, muito antes da farsa política de impedimento.

1989: Economista, Eduardo Cunha começou na política quando conheceu Paulo César “PC” Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor. Na época, Cunha ajudou a arrecadar fundos para a campanha.

1990: Com Collor presidente, assumiu a presidência da Telerj. Ficou no cargo até 1993. Foi acusado de corrupção.

1999: Depois de tornar-se aliado, em 1995, do então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, Cunha levou presidência da Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (Cehab). Ficou um ano no cargo. Foi acusado de corrupção.

2000: Eduardo Cunha teve seu nome envolvido com problemas com a Receita Federal, que apontou incompatibilidade entre a movimentação financeira do deputado e o montante declarado ao Imposto de Renda.

2003: Já como deputado federal, foi acusado pelo então presidente da Câmara, Aldo Rebelo, de chantagear empresários do setor de combustíveis usando a Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Ele exigia “pedágio” para não convocá-los para prestar informações na comissão.

2004: Processado pelas acusações de corrupção na Cheab, Cunha conseguiu ter o caso arquivado com base em documento falso do Ministério Público Estadual, que o inocentava.

2005: Acusado de manter relações com o doleiro Lúcio Funaro, também investigado pela CPI dos Correios, que pagava o aluguel do deputado em um luxuoso flat em Brasília.

2003 a 2006: A CPI dos Correios identificou que pelo menos R$ 300 milhões foram desviados do fundo de pensão da Cedae, e que era Eduardo Cunha que mantinha, por meio de interlocutores, o controle das movimentações.

2007: O Ministério Público constata que o documento que livrara, em 2004, a cara de Cunha das acusações de corrupção na Cehab era falso. O subprocurador-geral de Justiça, Elio Fischberg, chegou a ser condenado a três anos e dez meses de prisão pela falsificação.

2007: Chantageou o Governo Federal, então com Lula na Presidência, a aceitar a indicação do ex-prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, à presidência da Furnas. Cunha era relator da CPMF e, em troca do parecer favorável, exigiu a aceitação da indicação de seu aliado. A então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, foi contra.

2007: Como vice-presidente da CPI do Apagão Aéreo, Eduardo Cunha foi acusado pela deputada estadual Cidinha Campos (PDT-RJ) de realizar operações com o traficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía. De acordo com a denúncia, o deputado vendeu uma casa em Angra dos Reis por US$ 800 mil e a comprou de volta, pouco tempo depois, por US$ 700 mil. O lucro da venda não foi declarado à Receita Federal.

2011: De acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), Furnas, sob influência de Cunha, cobriu prejuízos causados pela participação da Companhia Energética Serra da Carioca II (também ligada a Cunha) na sociedade montada para construir a Usina Hidrelétrica da Serra do Facão, em Goiás. Os prejuízos da estatal ultrapassaram os R$ 100 milhões.

2012: O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) reabriu o processo sobre investigações de ocorrência de fraudes em contratos celebrados pela Cehab, em 2004.

2013: O uso de documento falso para se livrar do processo em 2004 rendeu ainda, no mês de março, denúncia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

2014: Eduardo Cunha é citado em delação premiada do doleiro Alberto Youssef, no âmbito da operação Lava Jato, sendo acusado de receber propina em cima de contratos da Petrobras.

2015: Convocado para depor à Polícia Federal para prestar esclarecimentos, Cunha recusou o convite. Apesar disso, não foi conduzido coercitivamente — como Lula, um ano depois.

2015: O Ministério Público da Suíça envia, à Procuradoria Geral da República (PGR), cópias de 35 arquivos — com cópias da assinatura, passaporte, visto norte-americano, nome completo, data de nascimento e endereço em condomínio de luxo na Barra da Tijuca — que comprovam a movimentação de contas no exterior, totalizando quase R$ 24 milhões.

2015: Durante todo o ano, Eduardo Cunha chantageou o Governo Federal para que fosse blindado contra a operação Lava Jato.

2016: O Supremo Tribunal Federal (STF) abre ação penal contra Eduardo Cunha pelos crimes de corrupção e o presidente da Câmara passa à condição de primeiro réu nas investigações da Operação Lava Jato.

2016: Aceita pedido de impedimento por vingança contra Dilma em relação a Furnas e por não ter sido protegido no Conselho de Ética da Câmara (apesar de suas manobras para se livrar de eventual cassação, o que incluiu ameaças de morte contra o então relator do processo).

Para resumir, é possível dizer que Eduardo Cunha é o Rei Midas da corrupção: tudo o que toca vira propina. Nem vou falar dos projetos assinados por Eduardo Cunha de temática conservadora baseados em fundamentalismo cujo retrocesso só é similar ao do regime dos aiatolás.

Agora, mesmo conhecendo tal figura funesta e seu histórico envolvimento com corrupção por onde passou, se ainda assim você acha que ele tem condições de conduzir impedimento de uma presidente acusada de qualquer coisa — menos de desviar dinheiro público — , seu problema não está apenas em tentar deslegitimar o discurso alheio.

É déficit de caráter.

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