O amor é uma manhã de sábado

Vai ficar feio se eu disser que costumo lembrar, aleatoriamente, de uma música da Xuxa em homenagem ao sábado? Eu acho que todo dia deveria ser sábado, diz ela, com aquela voz desafinada, em certo trecho da referida música. Concordo com a loura. E vou além: gosto de qualquer dia que pareça sábado. Hoje, por exemplo, dia 9 de fevereiro, uma terça-feira de carnaval, não é sábado. Mas é como se fosse. Levantei cedo sem necessidade, como se fosse sábado. Abri as janelas e deixei entrar a brisa ainda fria da noite, como se fosse sábado. Enquanto isso, como se fosse sábado, já contemplava o céu azul com poucas nuvens e um Sol quente — mas gostoso — bem distante daquele outro Sol diabólico do restante do dia manauara.
Pus cinco dedos de água na jarra da cafeteira e quatro medidas de pó de café no bule, como se fosse sábado. Café pronto, servi uma dose em um velho copo de vidro que originalmente chegou por aqui como embalagem de extrato de tomate, junto com um punhado de bolachas creme-craque e fui para a mesa que fica no corredor, no caminho da brisa da janela. Como se fosse sábado. Enquanto comia as bolachas, passando-as antes diretamente no pote de manteiga (preguiça de usar facas), procurava alguma leitura interessante neste Medium, como se fosse sábado. E, tal qual em um sábado, me policiava para que a leitura não me fizesse esquecer de beber o café antes que esfriasse até a temperatura ambiente.

“O amor é como a bruma que você vê logo cedo, ao acordar, mas que evapora pouco depois com as primeiras luzes do Sol” (Charles Bukowski)
Gosto dos sábados porque estão entre a empolgação do fim de expediente das sextas-feiras e os depressivos domingos, quando tudo está prestes a recomeçar. Gosto mais ainda dos dias que parecem sábado, mas não o são, como esta terça-feira de carnaval, porque são sábados de espírito. Manhãs de dias que parecem sábado causam o mesmo bem-estar de um sábado autêntico, ainda que não sejam, e é um bem-estar ainda mais natural porque é despretensioso. Um sábado sem ser sábado, mas que o é aqui dentro. E a sensação de sábado é mais importante que um dia de sábado, já que, quando é assim, geralmente temos sábados sucessivos. Amanhã será uma espécie de domingo, mas que amanhece na quinta-feira — dois dias antes de um sábado autêntico.
Mas um sábado bom, autêntico ou não, é pela manhã. A manhã é sempre a melhor hora do dia. Levantar cedo pode ser difícil para muitas pessoas, mas é questão de hábito e força de vontade. E interesse, claro; se não me interessa levantar cedo, por que fazê-lo? Mas interessa a mim porque posso abrir as janelas e deixar entrar a brisa ainda fria da noite. Posso contemplar o céu azul com poucas nuvens e um Sol quente — mas gostoso — bem distante daquele outro Sol diabólico do restante do dia manauara. Posso passar o café com cinco dedos de água na jarra e quatro medidas de café, para depois apreciá-lo em um ex-copo de extrato de tomate com bolachas creme-craque passadas diretamente no pote de manteiga (já disse que não curto facas?)

O restante do dia é mais sem graça porque não é pela manhã. A sensação de tenho todo o dia pela frente só vale nas primeiras horas. Por isso aproveito cada momento — o acordar, o abrir as janelas, o cheiro do café coado. Eu comparo a tênue e rápida manhã de sábado e o sentimento de bem-estar que carrega consigo com a definição de amor nas palavras do escritor boêmio e putão safado Charles Bukowski: “O amor é como a bruma que você vê logo cedo, ao acordar, mas que evapora pouco depois com as primeiras luzes do Sol”. As manhãs de sábado são como o amor: acabam logo nas primeiras horas, mas sempre virão outros, até o dia em que não virá nenhum sábado, nenhum dia que pareça sábado e, finalmente, dia nenhum.
Tenham um bom sábado.