O Diabo que nos carregue — Prefácio de ‘Minhas conversas com o diabo: livro um’

Por Rodrigo Ortiz Vinholo*

E depois da morte de Acabe, Moabe se rebelou contra Israel.
E caiu Acazias pelas grades de um quarto alto, que tinha em Samaria, e adoeceu; e enviou mensageiros, e disse-lhes: Ide, e perguntai a Baal-Zebube, deus de Ecrom, se sararei desta doença.
2 Reis 1:1,2, Bíblia
Enganam-se portanto os que afirmam não existirem coisas como bruxaria ou feitiçaria, ou os que professam tais coisas serem imaginárias ou existirem demônios só na imaginação de ignorantes e de populares, e também os que declaram ser equívoco atribuir a demônios certos fenômenos naturais que acontecem aos homens. (…) Essa opinião (…) vai de encontro à fé verdadeira. Esta ensina-nos que alguns anjos foram lançados do céu e hoje são demônios. Assim, somos forçados a reconhecer que, dada a própria natureza desses anjos diabólicos, são eles capazes de realizar muitos prodígios de que nós não somos.
O Martelo das Feiticeiras (“Malleus Maleficarum”), Heinrich Kramer e James Sprenger, 1484 (Tradução de Paulo Fróes)

“Demônio”, “Tinhoso”, “Adversário”, “Anjo Caído”, “Satanás”, “Coisa-Ruim”… o Diabo tem tantos nomes e identidades que é até difícil que ele não dê as caras em um momento ou outro, tenha a cara da vez chifres ou não. As caras, aliás, são tantas, em tantos lugares, estilos, funções e vontades que se ele não conseguiu a mesma onipresença que seu criador e contraparte divina, com certeza arranjou gente o suficiente para completar sua influência aonde não consegue chegar.

A mitologia judaico-cristã dá um pano de fundo rico para o Diabo-Mor Lúcifer, que caiu do céu. Este, mais famoso do panteão demoníaco, quando não é confundido com Belzebu, também é chamado poeticamente de “Estrela da Manhã”, referência querida de teólogos e magistas ao planeta Vênus. Esse, claro, é apenas mais um de uma coleção de nomes.

Mas é claro que não é só de um demônio que se faz um Inferno. Não faltam listas de nomes de seres das sombras, com seus cargos, habilidades e peculiaridades, vários deles confirmados e aprovados (ainda que apenas para ter nossa reprovação) por instituições que se posicionam ao lado supostamente sagrado da luta pelas almas humanas. “Ars Goetia” e “A Chave Menor de Salomão”, livros famosos no meio ocultista, listam 72 nomes, começando com o Rei Bael (ou “Baal”) e terminando no Poderoso e Grande Fidalgo do Inferno, Andromalius, passando por nomes mais conhecidos da cultura popular, especialmente através de menções em entretenimento, como o Rei Belial ou o Duque Astaroth. Na própria Bíblia, Belzebu é citado como Baal-Zebub, em um tipo de empréstimo do nome do primeiro da Goétia, e definido em certas traduções como “Senhor das Moscas”.

O Diabo tem muitas caras, o Diabo realiza desejos, o Diabo nos engana e o Diabo é tão esperto quanto… o Diabo. Dificilmente estamos prontos para pagar o preço, mas geralmente ele é um bom negociador.

A mera presença do Diabo nos faz pensar na tentação, no proibido, e na ideia de que, afinal, pode ser que estejamos a todo o tempo procurando tudo o que ele oferece, por mais que odiemos admitir, e aqui existe o cerne de nossa fascinação com ele: a lembrança de que temos tanto assim em comum, ou, alternativamente, a ideia de que estamos à mercê de sua influência, seja para nossos horrores ou conveniência.

Acredito que nós podemos entender muito sobre a humanidade se analisarmos a relação que temos com a ideia do demônio. Enquanto nossa cultura pensa em todos os seres superiores à humanidade como sendo perfeitos, acima de nossas mesquinharias e imperfeições, a ideia de demônios nos apresenta contradições que são inevitavelmente atraentes.

Demônios são cruéis, sádicos e bizarros, mas nisso eles são exatamente como nós. Pode soar sem sentido dizer que demônios são como humanos, porque talvez o inverso que seja real. Como nós, eles têm preferências, gostos e personalidades. De acordo com boa parte da literatura demonológica, os demônios são especialistas nas mais diversas áreas de estudo e tomam parte ativa nessas atividades, mais que qualquer padroeiro. Não se poupam palavras para descrever como os demônios da Goétia lideram exércitos e ensinam as mais variadas disciplinas.

Na capa deste livro, por exemplo, temos Buer, cujo cargo na hierarquia demoníaca é “Presidente”. Soa-me extremamente adequado e relevante lembrar que, além de Medicina, Cura e outras tantas disciplinas, Buer ensine Filosofia Moral e Natural. E Lógica. Fale o que quiser do Diabo e seus asseclas, mas inegável que eles têm muito a ensinar.

Também é importante a pergunta: o que é que o Diabo quer conosco? No Tarot, o Diabo se relaciona a poder, paixão, posse, a tudo que é excessivo e material. O Diabo quer coisas e quer poder. Ele quer tudo, motivo principal pelo qual suas barganhas geralmente envolvem a realização de desejos. Não seria surpresa alguma se, em sua busca por tudo, nós fôssemos só mais alguma coisa que o Diabo quer, quase equivalente a nada. Ou ainda, nós seríamos o objeto da vitória em um joguinho eterno com Deus, com cada alma caída entrando em um placar. O Diabo indicaria com empáfia o marcador enorme, cheio de números vermelhos que não parariam de crescer, e Deus, paciente, o lembraria daquela vez que Jesus não cedeu a seus encantos no deserto.

Ou simplesmente o Diabo reconheceria que nós podemos ser muito mais semelhantes a ele do que a seu oposto e nos quer junto de si, aceitando sem julgamento, ou talvez com todo julgamento possível, nosso papel como ovelhas perdidas. O Diabo sabe nosso pior lado e nesse sentido é quase um juiz. Dizem que Satã originalmente era visto como um ser ao comando de Deus, criado para testar nossa fé, e talvez ele nunca tenha deixado de ser.

Nas histórias deste volume, surge cada um desses aspectos que entendemos na figura dos demônios, tanto para nos assombrar quanto para nos lembrar dessa relação que temos com as barganhas proibidas que o mal nos oferece, literal ou metaforicamente.

Se nós até hoje não temos um consenso do que é o Diabo, aqui temos que ter a mesma suspensão, estando prontos para entender que ninguém é tão inocente quanto se acredita e que nem todos os papéis são dados àqueles que esperamos que os recebam.

Mário Bentes trabalha personagens que podem ter dilemas morais por vezes afastados dos nossos, mas não por isso isentos de identificação. Ele captura a sensação de despreparo, desespero e atração que temos com a figura do Demônio. Não temos o perseguidor implacável, mas o vilão calculista. Não temos a imagem puramente sanguinária, mas algo muito melhor e muito pior.

Acima de tudo, porém, estas não são histórias de demônios, mas de humanos, em uma galeria mista de pessoas e situações: um padre assombrado por sonhos demoníacos e apocalípticos; um menino desejando o retorno de seu pai desaparecido e a felicidade de sua mãe; uma mulher que sofre com a falta de rumo em sua vida; um homem que, separado de seu amor de infância, se depara com uma oportunidade única; uma costureira que se torna correspondente de um artista misterioso; uma mulher que se vê obrigada a ter bravura enquanto tenta construir sua vida atravessando o Brasil; um jornalista e escritor frustrado e sem perspectiva que tem a chance de conquistar seus sonhos.

Bentes empresta algumas dessas figuras demoníacas, colocando-as em jogos diversos com a humanidade. Os nomes da Goétia surgem direta ou indiretamente, como Bael, Barbatos, Furfur, Phenex, Naberius, Gamori, Stolas e outros, deixando a dúvida, como qualquer acordo com o Diabo que se preze, sobre quem realmente está sendo usado na barganha e se o preço é pago pelos personagens ou se o tributo somos nós, leitores.

Quem sabe Bentes e nós que lemos não caímos nas graças dos Caídos e somos favorecidos sem custo algum? (Além do preço do livro, claro!).

Espero que sim, afinal, se existe algo que ao Diabo não falta, com seja lá qual cara assumir, é a mania de ter caprichos de todo tipo.

*Rodrigo Ortiz Vinholo é publicitário, jornalista, escritor e pessoa estranha. Boa parte de seu tempo e poder mental é dedicado a coisas incomuns, incluindo demônios. www.rodrigoortizvinholo.com.br

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