Rogelio, um homem de causas (im)possíveis

Do Facebook do admirador do céu de sua varanda.

duas semanas, ele não postava suas tradicionais fotos da alvorada e do crepúsculo seguidas de passagens e trechos de obras que, em grande maioria, não tive oportunidade de ler. Até em seus quase diários registros no Instagram, Rogelio Casado era uma espécie de professor. Ora de literatura e poesia, ora de pensamentos abstratos os quais nem sempre pude acompanhar, mas que de alguma forma apreendia para reflexão interna.

Não posso dizer que o conhecia bem, ou que éramos amigos, mas nos esbarramos muitas vezes por aí. Em um dos meus primeiros estágios em Jornalismo, dez anos atrás, em uma rápida passagem pela comunicação da Secretaria de Saúde do Amazonas, era parte da rotina vê-lo entrar no departamento, com a fineza e solenidade que lhe eram marcas, para ter alguns longos debates com minha antiga chefe e ex-professora, a jornalista Andreia Arruda.

Pelo contato indireto, passei a acompanhar suas colunas no jornal em que costumava tratar da gestão pública da saúde e da luta antimanicomial — uma de suas principais bandeiras de vida. Li muitas de suas “cartas ao presidente Lula”, em que portava-se como crítico ferrenho, mas sensato e conhecedor da causa, teórica e prática. Naquelas páginas, conheci o profissional da psiquiatria e o ativista político.

Mais tarde, quando eu já era jornalista profissional e conhecido no meio pelo ativismo midiático, voltamos a nos falar. Em 2011, na ocasião das comemorações do aniversário da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ele convidou a mim e outros colegas para a mesa temática “A Liberdade de Expressão através dos novos canais de informação”, na qual Rogelio Casado fora mediador.

Talvez por esta ocasião, tenha visitado seu apartamento uma única vez — não recordo se antes ou depois do evento (ou mesmo se fora por conta de tal evento). Mas permaneceu na minha memória a vista da varanda, muitas vezes reproduzida por ele em seus registros celestes logo ao amanhecer. Também marcou certo momento, quando falamos de lidar com comentários fascistas, reacionários e baixos nas caixas de comentários de nossos blogs.

Ele, que mantinha o “PICICA — Blog do Rogelio Casado”, espaço no qual tive a honra de ter postagens, artigos e crônicas replicadas por ele em alguns momentos, me dizia que eliminava ou deixava de seguir algumas das fontes de ideias reacionárias e violentas para manter a sanidade. Mas que, “para se manter alerta”, mantinha outros. Trago isso comigo até hoje e sempre lembrava dele ao refletir sobre “desamigar” alguém cujas ideias me causavam embrulhos estomacais.

Iria apenas com ele um segredo meu: em setembro de 2012, quando era correspondente em Brasília e estava às vias com meu primeiro livro, percebi que vinha engolindo palavras inteiras nos textos. Fiz uma consulta virtual com Rogelio. Ele me acalmou ao dizer que havia, de minha parte, um “fator estressor… sofrimento por antecipação”. Ele referia-se a algumas informações que eu mesmo havia dado e decretou que eu não tinha dislexia, como eu suspeitava, mas estava apenas com distúrbio de ansiedade.

Sugeriu, por fim, um psicólogo em Brasília, cujo nome foi obtido entre suas redes de contatos, finalizando a indicação com palavras firmes e acalmantes.

“Aprender a lidar com os fantasmas…
…não é uma coisa do outro mundo.
É deste.”

Naquele mesmo ano, desejou-me feliz natal. No início do ano seguinte, o convidei a escrever uma resenha crítica daquele livro cujas palavras eu, por ansiedade, engolia. De cara, ele topou. Mais tarde, voltou a mim com uma sinceridade tocante e que me massageou o ego: “não tive condições de escrever criticamente sobre algo tão bonito.”

Nossa última troca de mensagens diretas aconteceu em dezembro de 2014, quando Rogelio mandou o link de uma campanha internacional que visava o cessar fogo contra a população civil da Palestina. Foi enfático: “A causa é justa”. Nem precisava. Toda a causa em que Rogelio estava envolvido era cristalinamente justa. Era um homem cuja integridade e pública admiração funcionava como chancela de bons ideais.

Há menos de um mês, Rogelio viu partir a companheira Nivya Valente, mãe de seu filho mais novo, Juan Casado. Agradeceu, em suas redes sociais, “após o primeiro dia do resto de nossas vidas” sem aquela que, ao seu lado, durante 15 anos, também esteve na luta antimanicomial e em demais causas (im)possíveis.

Hoje, o mundo dos sonhadores perde mais um combatente. Mas as memórias de suas ações permanecem, como assim deve acontecer com os bons. Entre fotos do céu de sua varanda, registros entusiasmados de seu filho vencendo no Stand Up Paddle e consultas desavisadas de jornalistas com distúrbios de ansiedade, Rogelio teve tempo para muitos feitos.

Da sua forma, mudou o mundo.

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