Sete contos de um repórter peregrino

Jamais vou recordar o dia da semana, ou do mês, mas o ano era 2006 — uma década atrás, portanto — , e eu cursava o primeiro semestre de Jornalismo. Estava no terminal central de ônibus da cidade de Manaus, observando o personagem da pauta que eu mesmo havia sugerido: um velho cego que cantava e tocava violão. Mas outro instrumento também chamava a atenção: uma engenhoca feita por ele, que consistia em um mega-fone ligado a um velho aparelho de telefone daqueles cor de marfim da Ericsson; a aparelhagem servia obviamente para que sua voz fosse ouvida à distância.

Eu estava aguardando meu parceiro para executarmos a pauta que fazia parte de uma atividade acadêmica da disciplina de Laboratório de Redação. Quando meu colega chegou, abordamos o velho, explicamos que queríamos entrevistá-lo e contar, em uma reportagem, sua história de vida. Ingênuo, imaginei que ele adoraria fazer parte da pauta. Mas aquela abordagem não era exatamente uma novidade para ele, que, ainda com o equipamento na boca, tratou de nos esculhambar para a cidade toda ouvir. Ele não queria conversa com jornalistas porque “entrevistas não mudavam em nada” sua vida difícil.


A pauta era um combo: a visita do então presidente Lula a Manaus, mais evento público com o então governador do Estado do Amazonas, Eduardo Braga, mais o então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes. Éramos meu amigo Rômulo Araújo e eu, da equipe do Portal D24am. No hora do discurso do então prefeito, a população pobre, carente de segurança (responsabilidade do Governo do Estado) e de outros serviços públicos (faltava água na área há alguns dias), vaiou copiosamente o folclórico prefeito. Na frente do Lula, que tentou minimizar o constrangimento.

Não tivemos dúvida: nosso lead matador foi a saraiva de vaias, tal como é comum em ocasiões como essa. Nosso então editor-executivo não mudou o enfoque ou o direcionamento, e publicou minha matéria e a videorreportagem do Rômulo, ambas com este mesmo viés. Saímos da redação, naquela noite, felizes da vida. No dia seguinte, já pela manhã, misteriosamente, a publicidade municipal desapareceu da home do portal.


Nunca havia ido a um show na minha vida e continuo sem ir. Mas naquele ano, entre 2008 e 2009, fui, por força do meu trabalho como repórter no Portal Amazônia, a um show da banda Iron Maiden. Fiquei na área VIP para fazer a reportagem da apresentação em si, enquanto um colega ficou no meio do público para apanhar personagens e histórias. Acabei aproveitando o show, descobrindo da melhor forma o quão poderosa é a voz de Bruce Dickinson, e ainda aprendendo de uma vez por todas a importância de um personagem para uma melhor apuração.

Encontrei, por acaso, ali mesmo na área VIP, um antigo colega de trabalho. Ele era chefe de um setor da secretaria governamental em que eu havia sido estagiário no setor de comunicação por dois anos, como repórter de assessoria. Lembrei na hora que ele sempre fora um fã da banda. Não tive dúvidas e o usei como fonte primária para a reportagem. Graças a ele, escrevi um texto mostrando não apenas o setlist básico do show, mas até mesmo a história e o contexto de cada letra.

Six, six, six, the number of The Beast.


Em um dos plantões policiais de final de semana pelo Portal D24am, já em algum Departamento Integrado de Polícia (DIP) da zona Norte, deparei-me com a seguinte situação: na delegacia, dois homens estavam detidos. Um deles vestido de mototaxista; o outro, sem camisa. Segundo o delegado, eles foram parados em uma batida comum da PM. Revistados, descobriu-se que o descamisado estava com drogas no bolso e que levaria, segundo admitiu mais tarde, a outra pessoa não identificada. Ambos acabaram sendo levados para prestar depoimento, sob protestos desesperados do dito mototaxista.

O delegado acreditava que o mototaxista nada tinha com o caso, e que fora apenas vítima do infeliz acaso. Conversei com ele, que negou envolvimento com drogas ou tráfico. O descamisado, por sua vez, confirmou a versão do mototaxista e disse que pegou o primeiro que passou. O mototaxista disse ainda que saíra de casa em uma noite de domingo para ver se faturava alguma coisa, sob protestos da esposa, que pediu que ele ficasse. Eu tinha duas opções naquela situação: ou escrevia a história completa, citando até mesmo o nome de um possível e provável inocente (o que poderia ser uma tragédia em sua vida) ou nenhuma linha.

Na dúvida, não fiz a matéria. Meu editor do plantão concordou.


Voltando a 2006, quando estava no primeiro semestre do curso de Jornalismo e na época em que fui estagiário do setor de comunicação de órgão governamental. Em uma retirada de ocupação irregular, em que havia gente pobre, em sua maioria que realmente não tinha onde morar, diante de todo o aparato opressivo da máquina pública: policiais militares, Guarda Ambiental e tudo mais contra velhos e crianças. Naquela altura, eu já tinha gana de atuar em redação, e acabava fazendo registros nada institucionais.

Um desses registros era de um PM alto e forte, segurando uma metralhadora contra uma idosa que mal podia andar. Lembro que fiz a foto com nó na garganta, com uma vontade imensa de chorar, e prometi a mim mesmo que, quando finalmente estivesse do lado de lá, nunca deixaria de publicar nada do tipo. Aquela foto específica, claro, por ter sido feita do lado de cá do campo institucional, jamais viu a luz do Sol.


Em Brasília, como correspondente do jornal Diário do Amazonas, vivenciei pelo menos três situações inesquecíveis. A primeira, quando havia acabado de começar meu trabalho na sucursal do jornal e passei um dia inteiro no Congresso Nacional com um sapato apertado, que me causou calos terríveis; a segunda, quando, depois de fazer uma simples pergunta ao senador Eduardo Braga, em uma pauta sobre questões envolvendo a matriz energética do Estado do Amazonas, tive a resposta irritadiça e arrogante de sempre, mas que causou risadas posteriores: “Você é engenheiro?”

Por fim, quando da primeira visita oficial do então governador Omar Aziz a Brasília, em uma agenda no Ministério da Saúde, fui abordado por ele de uma forma pouco ortodoxa: “Mariozinho, você por aqui?” Para quem nos conhecia, sabia que eu e ele — o governador — já tínhamos desentendimentos por causa de reportagens e postagens em redes sociais, o que fez com que o amistoso cumprimento soasse… político demais. A pauta não deu em nada, além de uma notinha na coluna de opinião: “Omar acende cigarro na frente do Ministério da Saúde”.


Dia 13 de junho de 2013. São Paulo. O Movimento Passe Livre (MPL) já havia realizado algumas manifestações pela cidade contra o aumento da tarifa nos ônibus e metrôs — quase todas rechaçadas pela imprensa corporativa e pelos opinachistas de Facebook. Dada a dimensão da coisa, acabei deixando temporariamente a cobertura de ciência e tecnologia que fazia para o Jornal GGN, do Luis Nassif, para ajudar na cobertura dos eventos da agenda de cidadania.

Naquele noite do dia 13, testemunhei o exato momento em que a Polícia Militar de São Paulo exibiu todo o seu fascismo contra manifestantes desarmados. Na linha de frente da marcha, ouvi a rápida negociação entre representantes do MPL e um tal de coronel Ben-Hur: “Se alguém der um passo, vamos atirar”. E sem que ninguém desse um passo, eles dispararam uma chuva de bombas de efeito moral e balas de borracha. Em certa altura da praça de guerra, fiquei ilhado em um canto com uma equipe do jornal Estadão e fomos alvejados de propósito, mesmo nos identificando como imprensa. Acabei com um ferimento no tornozelo por causa de estilhaços de uma bomba de efeito moral, mas que tinha impacto imoral.

Fiquei no lucro. Houve quem perdesse um olho.

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