Imagens da região do Alto Solimões, onde está localizada a Tríplice Fronteira — Brasil, Colômbia e Peru. Fotos: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Como a união de agentes públicos e sociedade civil trouxe à luz a difícil realidade do combate ao HIV/aids no fronteira norte do Brasil

Do Alto Solimões (AM)

Quase dez anos se passaram entre o início do programa Amazonaids, em 2008, e a expansão das iniciativas para fazer frente à disseminação do HIV, da aids e de outras doenças e infecções sexualmente transmissíveis para 62 municípios do Amazonas. O Estado, com taxa de infecção 83% superior à média brasileira, é considerado um dos pontos de atenção do combate à epidemia no Brasil. Entre especialistas e agentes locais, o consenso é que o programa deu visibilidade às dimensões da doença numa região distante e esquecida.

Bem antes de o programa chegar à Amazônia, as Metas do Milênio estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000 incluíam estancar o avanço do vírus HIV e da aids e fazer com que sua disseminação passasse a declinar até 2015. O Brasil fez diversos avanços nos anos que se seguiram, como estabilizar a taxa de detecção do HIV e diminuir o coeficiente de mortalidade por aids no período.

Os bons resultados, porém, enfrentaram a resiliência maior da epidemia em algumas regiões brasileiras. Iniciativas específicas foram desenvolvidas pelas agências que compõem o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), e surgiram os programas Amazonaids, na região do Alto Solimões, Laços SociAids, na Bahia, e AIDSTchê, no Rio Grande do Sul — Estados considerados hotspots da epidemia no Brasil.

De saída, os três programas tinham como adversários o estigma e o preconceito. Grupos vulneráveis, como prostitutas e a população LGBT, acabam duplamente estigmatizados quando o HIV e a aids somam-se ao preconceito que os cerca. O Amazonaids, no entanto, apresentava particularidades mais radicais e desafiadoras do que os programas adotados na Bahia e Rio Grande do Sul.

O Alto Solimões fica no meio da selva amazônica, uma área de difícil acesso e geograficamente distante de todos os grandes centros do Brasil.

Havia um imenso desafio logístico a ser superado. Além disso, trata-se de uma região de tríplice fronteira, para onde convergem os territórios do Brasil, Colômbia e Peru. Essa área remota favorece a atuação do narcotráfico e do crime organizado — apesar da forte presença militar.

Todos os fatores possíveis de vulnerabilidade conspiravam contra o Alto Solimões. “O uso de drogas ali é muito alto, o índice de violência contra a mulher é muito elevado, a violência sexual é muito grande, há muita prostituição e tudo isso sem controle de DST”, resume a médica Silvana da Silva Lima, coordenadora estadual de DST, HIV e Hepatites Virais no Amazonas, sobre a situação na Tríplice Fronteira antes da chegada do Amazonaids.

Além disso, os postos no lado brasileiro atendem também aos peruanos e colombianos que recorrem ao sistema de saúde universal e público do Brasil. “É uma fronteira viva. Tem muitos pacientes dos outros países que se tratam no Brasil”, explica Glaudomira Rodrigues, chefe do setor de enfermagem da Fundação Alfredo da Matta (Fuam), em Manaus. A diversidade étnica e cultural da região, com grandes populações indígenas e ribeirinhas espalhadas por uma ampla área geográfica, exigiu o envolvimento de antropólogos, sociólogos e geógrafos.

A enfermeira Glaudomira Rodrigues (esq) e a médica Silvana Silva Lima. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

O ponto de partida foi um mapa temático das vulnerabilidades a doenças e epidemias no Estado, projeto conduzido pela médica Adele Benzaken, então infectologista e pesquisadora da Fundação Alfredo da Mata (FUAM) na capital amazonense, hoje diretora do Departamento de IST, AIDS e Hepatites Virais (DIAHV) do Ministério da Saúde. O ano era 2008. Essas pesquisas forneceram evidências científicas mais que suficientes para justificar uma intervenção no Alto Solimões para enfrentar a disseminação do HIV, da aids, de hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Por se tratar de uma região de tríplice fronteira, a pesquisadora previu que qualquer ação teria mais chances de sucesso se houvesse o engajamento de uma agência internacional. Convidou o médico Pedro Chequer, então coordenador do UNAIDS no Brasil, para assistir a uma exposição sobre as conclusões de sua pesquisa. Ao cativar o UNAIDS para atuar no Alto Solimões, agregou 11 agências da ONU que integram o programa. Era a chave para intervir em diversas frentes com maiores chances de apoio de agentes públicos e privados, nacionais e internacionais.

A Unesco, por exemplo, implementou um programa de saúde e prevenção nas escolas. Por intermédio do UNODC, agência da ONU para o combate ao narcotráfico e ao crime organizado, colocou-se em prática um programa de formação de agentes promotores de saúde dentro do sistema prisional de Tabatinga.

Três cidades da região foram escolhidas para concentrar a atuação do Amazonaids: Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte. Não é pra menos: a área geográfica abrangida por essas três cidades é duas vezes maior do que a de todo o Estado do Rio de Janeiro. A maior parte dos deslocamentos dependia de barcos, com pouquíssimos pontos com acesso por terra.

Cais de Tabatinga, a porta de entrada para o Alto Solimões. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

A região do Alto Solimões também concentra a maior parte da população indígena do Amazonas que, por sua vez, abriga mais da metade dos indígenas brasileiros. “Essa população indígena, antes do Amazonaids, tinha muito pouco acesso a qualquer tipo de diagnóstico, tratamento e prevenção. Era uma população vulnerável sem acesso a nenhum tipo de programa”, enfatiza Adele, que integrou o grupo gestor do Amazonaids antes de tornar-se diretora do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, em Brasília.

Ao longo dos primeiros três anos de existência do Amazonaids, mais de 80% de toda a população tikuna sexualmente ativa na região do Alto Solimões foi testada com testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites virais. A população tikuna é estimada em mais de 50 mil pessoas, segundo levantamento de povos indígenas no Brasil entre 2006 e 2010.

Os testes apontaram que a incidência de sífilis na região é muito elevada. Em Atalaia do Norte, por exemplo, a taxa de prevalência é de quase 6%. O resultado é relevante porque a sífilis é associada à transmissão de outras ISTs. “Se existe sífilis ou outras ISTs nessas proporções é porque aquela população está fazendo sexo desprotegido, então ela está mais vulnerável a vírus como o HIV”, explica Adele.

O teste rápido de sífilis é um dos exemplos de sucesso do Amazonaids. A experiência foi tão bem-sucedida no Alto Solimões que em 2012 passou a ser aplicada em escala nacional pelo Ministério da Saúde.

A solução do teste rápido foi financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates para superar uma das tantas barreiras enfrentadas pelo Amazonaids. No início, todas as amostras de sangue eram enviadas a Manaus para testagem. Com o passar do tempo, porém, as empresas aéreas passaram a se recusar a fazer o transporte do sangue em seus aviões. “Era preciso fazer o acompanhamento dos casos diagnosticados, com exame de carga viral, mas a única companhia aérea que atendia aquela região se recusava a transportar o sangue para Manaus, alegando motivo de biossegurança”, explica Adele.

A médica Adele Benzaken, que atuou no Amazonaids de 2008 a 2012, é a atual diretora do Departamento de IST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Outro problema era o diagnóstico tardio, especialmente de indígenas e ribeirinhos que habitavam áreas muito remotas, às vezes à distância de dois ou três dias de barco de Tabatinga. O diagnóstico tardio da infecção por HIV favorece não apenas a disseminação do vírus, mas muitas vezes faz com que o paciente desenvolva aids e morra em consequência de doenças oportunistas. “O ideal é a pessoa saber que tem o HIV e começar o tratamento. Mas lá pessoas ainda morrem em decorrência da aids”, lamenta a especialista.

Uma das razões é o estigma da doença, que dificulta que os pacientes retirem a medicação nos postos do programa. “Muitos pacientes não gostam de vir aqui, acham que as pessoas vão achar que quem entra aqui é portador”, afirma o coordenador municipal de DST, HIV e HVs de Tabatinga, Arnaldo Ferreira.

A ativista Sebastiana Silva, presidente do grupo Mulheres Independentes pela Livre Expressão Sexual (Amilis), diz que o Amazonaids teve um papel importante na desestigmatização de pessoas que vivem com vírus HIV e aids particularmente no atendimento médico. “Hoje, os profissionais responsáveis pelo atendimento estão mais preparados do que antes”, afirma.

Em outra frente de atuação, o programa de formação de agentes de saúde chegou ao sistema prisional de Tabatinga, região com população carcerária relacionada ao narcotráfico na Tríplice Fronteira. No primeiro momento, o programa de formação foi concentrado mais nas DSTs, principalmente HIV, recorda o médico Williams Damasceno, coordenador de saúde do Sistema Penitenciário do Estado do Amazonas. Depois foi ampliado para tuberculose, uma das doenças oportunistas mais comuns entre os portadores do vírus causador da aids.

Ativista pela livre expressão sexual das mulheres, Sebastiana Silva diz que o atendimento médico melhorou com o Amazonaids. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Um dos principais legados do Amazonaids, na visão de Adele, é “o acesso da população dessa região, que é uma população esquecida, a informações e meios de prevenir ISTs”. O programa, além disso, jogou luz sobre essa situação.

Em 2013, o Amazonas registrou 37,4 casos de infecção por HIV/aids para cada 100 mil habitantes, acima da média nacional de 20,4

Antes do Amazonaids, praticamente todos os casos notificados de aids do Amazonas eram registrados em Manaus. As pessoas muitas vezes deixavam suas comunidades temendo o preconceito. Alguns municípios preferiram delegar à capital não apenas os pacientes, mas também o estigma. Mas a epidemia, solenemente ignorada até alguns anos atrás, hoje tem nomes, rostos e estatísticas.

Passados oito anos, barreiras invisíveis foram derrubadas. Agora, uma articulação interfederativa começa a expandir as experiências do Amazonaids do Alto Solimões para todo o Estado. O objetivo é colocar o Amazonas em linha com a contenção da epidemia de HIV e aids verificada na maior parte do Brasil.

O Brasil está comprometido com as metas 90–90–90. Ambiciosa, a principal meta consiste em diagnosticar, até 2020, 90% da população com HIV. Deste total, 90% das pessoas cientes de sua condição sorológica devem estar seguindo tratamento e, dos pacientes em tratamento, 90% devem estar com carga viral indetectável.

O fato de o Amazonas ter 8.642 casos notificados talvez passe a impressão de que o desafio não seja tão grande assim. Mas questões como grandes distâncias, dificuldades logísticas e taxas de infecção em expansão, deixam claro o grande desafio que o Amazonas terá pela frente no combate ao HIV e à aids.

Reportagem de Edgar Maciel e Ricardo Gozzi, fotos de Cacalos Garrastazu, edição de texto de Andréia Lago, design gráfico de Juliana Karpinski. Colaborou: Jéssica Kruckenfellner

Conteúdo original produzido pela equipe de jornalistas do Eder Content