O jovem líder Silvério Tikuna no dia da formatura (cor). Fotos: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Formar para falar a mesma língua dos índios

Como uma nova comunicação está produzindo avanços na prevenção de doenças nas tribos do Alto Solimões

Da Aldeia Umariaçu II, Tabatinga (AM)

As comunidades indígenas de Umariaçu amanheceram debaixo de chuva forte no dia 18 de agosto de 2015. A reserva, que abriga mais de 5 mil indígenas da etnia tikuna, está dividida em duas áreas separadas por um igarapé, cerca de três quilômetros ao sul de Tabatinga, na região do Alto Solimões (AM). A tempestade por pouco não atrapalhou uma cerimônia aguardada com expectativa pelo jovem Silvério Tikuna, de 17 anos.

Assim como outros quase 30 jovens tikunas, marubos, kanamaris e de outras etnias, Silvério estava ansioso pela formatura em um programa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para formar jovens comunicadores. A principal missão deles é transmitir para suas comunidades, na sua própria língua, o conhecimento para prevenir doenças e infecções sexualmente transmissíveis. “É muito importante pra mim e pra todos os jovens daqui. Vieram equipes de fora para orientar, dizer como a gente pode se prevenir dessas doenças”, comemorava Silvério, orgulhoso do seu diploma.

O programa mudou a comunicação com os indígenas: a prática ineficaz de transmitir informação do homem branco para o indígena foi deixada de lado e substituída por uma nova abordagem. Essa foi uma das soluções encontradas para fazer frente às diferenças culturais e à dificuldade de comunicação com uma população indígena exposta aos riscos impostos pela presença do vírus HIV na fronteira tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru.

A chuva não conseguiu tirar a alegria da festa, realizada em uma escola no Umariaçu II. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Os testes sorológicos realizados na região do Alto Solimões no âmbito do programa Amazonaids forneceram uma dimensão precisa dos alarmantes índices de infecções e doenças sexualmente transmissíveis entre indígenas no Estado.

A testagem, portanto, foi essencial para indicar a necessidade de orientar e conscientizar as populações indígenas que transitam e misturam-se pela região — inclusive em cidades de porte considerável, como Tabatinga, no Brasil, e Letícia, já na Colômbia.

Após um pacto entre as entidades envolvidas no Amazonaids, o Unicef conversou com os caciques locais. Depois, ouviu as demandas dos jovens. Foi então elaborado um programa em conjunto, dividido em quatro módulos. O primeiro deles foi exclusivamente dedicado a métodos para prevenir a disseminação do HIV, da aids e de outras doenças e infecções transmitidas pelo contato sexual desprotegido.

Os novos e jovens líderes indígenas, fluentes tanto no português quanto no idioma de sua tribo de origem, foram treinados para conscientizar suas comunidades sobre os perigos aos quais estão expostos, especialmente quando deixam suas comunidades para ir às cidades do Alto Solimões.

O tamanho do desafio torna-se mais claro ao conversar com um agente de saúde indígena que atua na comunidade Umariaçu I. Com todas as informações acessadas no treinamento, ele admite que nunca usa preservativos, mesmo em relações extraconjugais. “Eu sou sadio. Nunca peguei nada”, afirma. A contradição não o impede de garantir o compromisso de transmitir as orientações do programa à sua comunidade e assegurar que seus conselhos são ouvidos. “A maioria me ouve, mas alguns não obedecem”, admite.

A nova estratégia de comunicação com a população indígena incluiu a distribuição de cartilhas de prevenção a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), aids e hepatites virais. Com ajuda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), as cartilhas foram traduzidas para os idiomas de quatro etnias presentes na região — marubo, mayouruna, matis e kanamari. Adaptadas às particularidades e realidades dessas comunidades, tornaram-se um dos instrumentos desenvolvidos no decorrer do Amazonaids.

O programa Amazonaids mudou a comunicação com os indígenas para se adaptar às diferenças culturais. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

O segundo módulo do programa abordou um tema que Silvério já identificou na sua tribo: os problemas decorrentes do consumo excessivo de álcool e drogas, crescente entre jovens indígenas das comunidades do Alto Solimões. Sintomaticamente, a violência tem aumentado. “Quebram garrafas, às vezes brigam. O adolescente bebe, depois fica caído no chão e amanhece jogado, todo sujo. Pra nós, isso é uma tristeza”, conta o recém-formado Silvério. A correlação entre consumo excessivo de álcool e drogas e transmissão de ISTs decorrentes de relações sexuais desprotegidas é consenso entre especialistas.

A possibilidade de observar a situação de dentro e de maneira constante coloca os líderes indígenas formados pelo programa numa posição privilegiada. Como membros dessas comunidades, eles conseguem abordar problemas crônicos, que também são tratados diretamente pelos agentes do Amazonaids em palestras e oficinas realizadas nas tribos nativas da região.

Silvério diz que está preparado para trabalhar com os jovens. Quer fazer palestras e rodas de conversa para mudar para melhor a realidade dentro de sua comunidade. “Já aprendemos alguma coisa. Chamar os jovens, conversar com eles, orientar para que tenham conhecimento. É isso que nós estamos dando pra eles, é conhecimento.”

Reportagem de Ricardo Gozzi, fotos de Cacalos Garrastazu, edição de texto de Andréia Lago, design gráfico de Juliana Karpinski. Colaborou: Jéssica Kruckenfellner

Conteúdo original produzido pela equipe de jornalistas do Eder Content

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