Gleissimar Castelo Branco (cor): uma década dedicada ao combate à violência contra a mulher. Fotos: Cacalos Garrastazu/Eder Content

“Para, senão eu vou chamar a Gleissimar.”

Como romper o silêncio em torno da violência doméstica está reduzindo a vulnerabilidade das mulheres na Tríplice Fronteira

De Benjamin Constant, Alto Solimões (AM)

É claro que a maior parte das mulheres da região do Alto Solimões não conhece pessoalmente Gleissimar Campelo Castelo Branco. Mas é muito comum que mulheres da região recorram ao nome dela, até com certa intimidade, quando se encontram na iminência de sofrer violência física de seus maridos ou parceiros.

Na condição de presidente da Associação de Mulheres do Alto Solimões (Amaflorsol), uma organização não governamental engajada no combate à violência contra a mulher, Gleissimar simboliza um trabalho importante para o desenvolvimento do programa Amazonaids na orientação das mulheres vítimas de violência doméstica nessa distante região do Brasil sobre possíveis doenças e infecções sexualmente transmissíveis.

“Não sei se por bem ou por mal, mas quando um homem começa a querer bater na mulher, acaba ouvindo: ‘olhe, eu vou já ligar pra Gleissimar’”, diz a ativista.

“Alguns até recuam. Tem gente que eu não conheço, mas usa meu nome nesse sentido.”

O reconhecimento é o bônus por um trabalho que pode ser bastante oneroso. Não é raro que Gleissimar precise tomar mais cuidados do que a maioria das pessoas ao transitar por Benjamin Constant e outras cidades amazonenses da Tríplice Fronteira do Brasil com Peru e Colômbia. Ela já descobriu, alertada por um amigo na polícia, que fazia parte de uma lista de pessoas marcadas para morrer. Grande parte das pessoas com nome na lista havia realmente sido assassinada.

Porto é a única conexão de Benjamin Constant e Atalaia do Norte com o restante do Brasil. Foto Cacalos Garrastazu/Eder Content

“Foi quando eu comecei a tomar alguns cuidados. Eu trabalhava na prefeitura, como chefe de gabinete, fazia faculdade de manhã. Tive que ensinar meus filhos que, quando eu chegasse em casa, não deveriam mais correr no portão pra me receber. Comecei a não sair com meus filhos quando ia fazer compras. Não saía mais na rua nem passeava com eles”, relembra.

Ela também mudou o roteiro cotidiano: adotou caminhos diferentes, revezava. “E nem falei pro meu chefe, que era o prefeito na época. Pensei que se eu contasse as pessoas iam ficar com medo de que acontecesse uma matança na prefeitura, então iriam me demitir”, relata Gleissimar.

A esta altura você pode estar se perguntando o que a violência contra mulheres tem a ver com prevenção à disseminação do HIV, da aids e de outras doenças e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Tem tudo a ver.

Uma das facetas da violência doméstica é a violência sexual: mulheres vítimas de estupro pelos próprios companheiros são colocadas em risco. É por isso que as mulheres vítimas de violência são identificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos principais grupos vulneráveis à proliferação do vírus HIV e da aids, além de diversas outras infecções e doenças sexualmente transmissíveis.

Para a OMS, algumas condições definem a elevada vulnerabilidade a ISTs da mulher vítima de violência: geralmente, ela se torna mais exposta a riscos de infecção por não se proteger adequadamente nas relações com seu parceiro; ela se relaciona sexualmente com parceiros altamente expostos a ISTs. O medo da violência, por sua vez, limita a busca por meios de prevenção, assim como aos serviços de saúde, além de servir como obstáculo à testagem do sangue e à divulgação da condição sorológica ao parceiro.

Na Tríplice Fronteira, fazer frente à violência contra a mulher é atividade de risco. Foto Cacalos Garrastazu/Eder Content

Na região atendida pelo Amazonaids, no entanto, a violência contra mulher extrapola o universo das vítimas diretas da violência. Até mesmo as pessoas que de alguma forma colaboram com o combate à violência doméstica tornam-se alvos não só de ameaças, mas também de atentados.

“Uma assistente social da Ufam, que é uma universidade federal, recebeu recados para se afastar de mim, para se afastar da luta”, exemplifica Gleissimar. “Assim como tem um comunicador da Rádio Nacional de Tabatinga que também recebeu recado de que deveria afastar-se e não dar ibope pra mim.”

Antes de engajar-se no combate à violência contra a mulher, Gleissimar foi vítima de agressões físicas e psicológicas do ex-marido. “Eu fiz todos os caminhos do ciclo da violência doméstica”, recorda. Até que ele tentou matá-la. “Quando eu vi que a minha vida já estava em risco, tive que tomar uma decisão.”

Ela sobreviveu para contar a história. Ao partir para a luta contra a violência, Gleissimar rompeu um silêncio sepulcral. Até então, o dito popular “em briga de marido e mulher não se mete a colher” era seguido à risca na região do Alto Solimões. Em sua omissão, a polícia e o sistema judiciário praticamente endossavam os crimes contra mulheres.

O simples fato de dar voz ao combate à violência contra a mulher de alguma maneira acaba por manter os agressores na defensiva. “Os policiais da nova geração têm uma outra visão, e também policiais que são filhos de homens agressores, que viram suas mães serem violentadas e hoje fazem trabalho por conta disso também.”

O recado de Gleissimar às mulheres vítimas de violência é tão breve quanto claro: “Rompam com a violência. Todas as mulheres merecem uma vida sem violência.”

Reportagem de Ricardo Gozzi, fotos de Cacalos Garrastazu, design gráfico de Juliana Karpinski, edição geral de Andréia Lago. Colaborou: Jéssica Kruckenfellner.

Conteúdo produzido pela equipe de jornalistas do Eder Content