A peruana Maria Paula (cor), que faz tratamento para HIV no Brasil. Fotos: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Peruana na identidade, brasileira no tratamento

Como a testagem rápida e o sistema universal e gratuito de saúde garantem acesso ao tratamento de HIV para todos os moradores da Tríplice Fronteira

De Tabatinga (AM)

Quando Maria Paula entra na sala de testagem rápida de HIV em Tabatinga, na região do Alto Solimões, ela já sabe o resultado. Uma picada no dedo polegar direito e 15 minutos de espera. O auxiliar de enfermagem confirma: “Seu teste deu positivo”. Ela ouviu a mesma frase há 13 anos, só que em espanhol. Era janeiro de 2002, e Maria Paula morava em Iquitos, no Peru.

“Fiquei sentada na rua, pensando. Olhava os carros e queria me atirar”, conta. “Bebi tanto naquela vez e não fui para casa durante dois dias.” Peruana, Maria Paula tentou tratamento nos hospitais públicos de seu país. Porém, na época, o sistema de saúde do Peru só inicia o processo do coquetel de medicamentos quando o CD4 — nível de linfócitos que protegem o organismo de doenças — está abaixo da média. O HIV se multiplica por meio dessas células. Se o sistema imunológico perde sua capacidade de defender o organismo de doenças, é necessário começar o tratamento anti-HIV.

O que as autoridades de saúde do Peru fazem é seguir à risca a antiga orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomendava iniciar o tratamento quando a contagem de CD4 estivesse abaixo de 200 células por mililitro de sangue. Para Maria Paula, isso significou não ter acesso aos medicamentos em seu próprio país. “Meu CD4 sempre foi muito bom. Variava entre 600, 700 ou 800. Nunca tive complicações”, explica. No entanto, em 2015, a OMS reformulou o novo protocolo sobre o tratamento do HIV. A recomendação é que qualquer paciente comece o tratamento logo após o diagnóstico.

Nos últimos meses, a saúde da peruana chamou atenção dos amigos e passou a preocupar. “Ela perdeu mais de cinco quilos e estava sempre doente”, conta a amiga Camila, presidente da associação LGBT de Tabatinga, no Alto Solimões. “Dá pra notar que a doença está consumindo-a aos poucos”, diz.

Rio Solimões, fronteira “viva” entre Brasil e Peru, facilita o acesso ao sistema de saúde brasileiro. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

A rede de saúde de Tabatinga recebe e atende a todos os pacientes de Letícia, na Colômbia, e de várias cidades do Peru, como Santa Rosa, que fica do outro lado do Rio Solimões. A fronteira aberta entre os três países infla os índices de infecção. Ao todo, 30 pacientes que se tratam na cidade são estrangeiros — 16 colombianos e 13 peruanos.

Tabatinga é o segundo município com mais casos de HIV no Amazonas, só perde para Manaus. São 200 pessoas soropositivas, mas apenas 120 seguem o tratamento.

O vice-prefeito de Tabatinga, Carlos Donizetti Gomes, reclama que falta investimento e união entre os países para o tratamento do HIV. Segundo ele, Tabatinga está sobrecarregada. “O trânsito de estrangeiros aqui é muito grande. Precisaríamos de um tratamento em conjunto entre os três países”, afirma. “Todos os governos deveriam compartilhar os investimentos para conter a epidemia nessa região.”

Sobrecarga no sistema de saúde de Tabatinga preocupa o vice-prefeito Carlos Donizetti Gomes. Foto: Cacalos Garrastazu/Eder Content

Em 2015, 28 pessoas foram diagnosticadas com o vírus em Tabatinga, um crescimento de 15% no número de casos em relação ao ano passado. Esse número coloca a cidade na lista de municípios onde o HIV mais cresce no Brasil.

A infectologista Lilia Roy, da Fundação Antônio da Matta (Fuam), ressalta que a região Norte do Brasil é a única em que a mortalidade pelo HIV ainda está aumentando no País. “Aqui nós ainda estamos vivendo como se estivéssemos vários anos atrás do restante do Brasil. O soropositivo ainda convive com o preconceito, que parte da desinformação e da falta de interesse que essas informações sejam propagadas”, afirma.

Em Tabatinga, no ambulatório da cidade onde os pacientes buscam seus medicamentos antirretroviral, o estigma atinge até os funcionários que trabalham no local. “As pessoas não gostam de vir à coordenação, acham que vindo aqui todos são portadores’, relata o diretor de DSTs do municipio, Arnaldo Ferreira. ‘Uma vez chegaram a me perguntar se eu tinha aids apenas por trabalhar aqui.”

Maria Paula cresceu conhecendo a palavra preconceito desde pequena. Sabia que era gay e se assumiu para a mãe aos 12 anos de idade. Foi expulsa de casa. “Morei na rua, sozinha, durante um ano. Foi muito difícil”, relembra. Depois desse período, trabalhou como doméstica em uma casa de família no Peru e em um salão de beleza.

Longe de casa e sem a família, as festas da noite peruana eram o momento em que Maria Paula conseguia sorrir, ser feliz. As travestis a encantavam: o modo como se vestiam e se portavam chamava atenção. “Eu gostava de olhar, de imitá-las. Aos poucos deixei meu cabelo crescer e comprei minhas primeiras roupas.” Nascia Maria Paula.

Em 2008, foi morar com as amigas travestis em Iquitos. Conheceu uma nova vida e passou a se prostituir para sobreviver. Já sabia que era soropositiva, mas isso não mudou a relação da peruana com os clientes. “Tem cliente de todo o tipo, toda idade e classe. Eu faço tudo o que o cliente quiser”, diz.

Em novembro, Maria Paula completou seu quarto mês de tratamento no Brasil. Vive no Peru e viaja até Tabatinga para retirar os medicamentos e fazer as consultas mensais. Segundo a rede de saúde, ela está seguindo todas as recomendações dos médicos, inclusive cumprindo a promessa de usar camisinha em todas as relações sexuais. “Eu me sinto bem em saber que aqui vou me cuidar e ficar bem. Me sinto agradecida”, diz a peruana.

Reportagem de Edgar Maciel, fotos de Cacalos Garrastazu, design gráfico de Juliana Karpinski, edição geral de Andréia Lago. Colaborou: Jéssica Kruckenfellner

Conteúdo produzido pela equipe de jornalistas do Eder Content