Jovem redesenha sua vida após descobrir que viver com HIV é possível

©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Para Moisés Maciel da Silva, aquele aniversário não seria como os outros. Os 18 anos chegaram trazendo não apenas o atestado de maioridade civil, mas uma nova configuração na ordem das coisas. Junto com as comemorações, Moisés recebeu, também, o resultado positivo do exame de HIV.

A notícia atingiu o jovem como um golpe, e foram necessários tempo e o apoio da mãe para que ele conseguisse se reerguer.

“Bola para frente foi um termo que ela usou muito. Eu estava na bad, triste e com medo porque, até então, eu não tinha informação de que viver com HIV era possível”.
Aos 18 anos, Moisés Maciel recebeu o resultado positivo para o HIV. A mãe havia pedido ao médico uma série de exames para a família, e Moisés requisitou o de HIV: “Decidi fazer o teste, mas não por achar que eu tinha. A gente nunca pensa que a gente pode ter HIV, câncer ou alguma doença. A gente sempre pensa que vai ser o vizinho”. ©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Entre testes confirmatórios, acolhimento no serviço de saúde e início do tratamento, transcorreriam quatro meses, durante os quais Moisés ia tocando a ‘bola para frente’. Tirou carteira de motorista na semana em que deu início à medicação de antirretrovirais e, logo, se candidatou para trabalhar no Jovem SUS, um projeto da Prefeitura de São Paulo que visa ao acolhimento da população nas unidades de saúde do município.

“Foi aí que eu percebi que viver com HIV é possível, porque eu estava vivo!
“Na semana em que eu comecei a medicação, o teste prático na autoescola estava agendado. E, mesmo depois do diagnóstico, quando eu achei que a minha vida ia parar completamente, que eu não ia mais estudar, que eu não ia mais fazer nada, eu continuei vivendo. E essa foi a primeira coisa que percebi: que viver com HIV é possível. Por que eu estava ali, vivo”. © UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Dali em diante, o jovem passou a delinear seu caminho em direção à atenção à saúde. O desejo de cursar medicina, que já vinha dos vestibulares anteriores, se consolidaria como um plano de futuro. E, a partir de sua experiência como Jovem SUS, Moisés se envolveria com o Viva Melhor Sabendo Jovem, uma iniciativa que oferece testes gratuitos de HIV aliados à uma atenção especializada, com foco no público jovem e LGBT.

No meio de todos esses processos, Moisés encontrou na atenção à saúde seu principal objetivo de vida. Começou a atuar como Jovem SUS e como voluntário do Viva Melhor Sabendo Jovem. Neste último, ele passa toda sexta-feira e todo sábado à noite dentro de uma unidade móvel da prefeitura de São Paulo, realizando testes de HIV, acolhendo e orientando a população. ©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Toda sexta-feira e sábado à tarde, Moisés sai da Zona Leste, onde mora com a família, e segue para o Centro de São Paulo. Lá, no Largo do Arouche, dentro de uma unidade móvel, ele e seus colegas de projeto realizam os exames nos voluntários, tiram dúvidas e prestam acolhimento.

“No Arouche, existe muito jovem das estatísticas, que são jovens gays, meninas trans, meninos trans, travestis, profissionais do sexo… Ali é um hot spot de pessoas da estatística. O Viva Melhor Sabendo Jovem é um projeto que visa à testagem entre pares, de jovem para jovem, de pessoas que falam o mesmo idioma, sem ser técnicos. É um projeto muito especial para mim, porque a gente consegue fazer o teste, consegue acolher a pessoa, passar informações falando o mesmo idioma, de jovem para jovem… E isso é muito bom”.
Para ele, o Viva Melhor Sabendo Jovem facilitou sua compreensão de que viver com HIV é possível: “O que eu consegui com o Viva foi um contato com a juventude de uma maneira muito direta. Foi escutando as questões dos jovens e as diversas falas que tivemos no projeto. Essa experiência de trocar o conhecimento me possibilitou entender as pessoas como um todo” ©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Para Moisés, as trocas de experiências com outros jovens — escutá-los e compreendê-los — facilitaram a convivência com o HIV e o fortaleceram.

“Uma coisa é a gente dizer que viver com o HIV é possível. Outra coisa é a gente receber o diagnóstico positivo e viver com HIV. E a gente está ali vendo sempre que isso é possível. Hoje, além de saber que é possível viver com o HIV, eu sinto que estou no controle. Eu sinto que estou no comando da minha vida”.

Controle esse que, segundo Moisés, não seria possível sem o apoio que ele recebeu de sua ‘amiga-mãe’, de seu pai e seus irmãos, de amigos e de companheiros dos projetos dos quais participa.

“Numa fase em que a gente se sente sozinho, na bad, a gente precisa de alguém para conversar, para falar das angústias e dos medos. Porque eu tinha medo. Até iniciar o projeto, eu me perguntava: quanto tempo mais?”
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E “quanto tempo de vida você tem?” foi a primeira pergunta que Mateus Araújo fez quando Moisés contou de sua sorologia. Moisés havia chamado o amigo para participar do Viva Melhor Sabendo Jovem por acreditar que seria interessante para Mateus conhecer melhor as diferentes dinâmicas da comunidade LGBT. E, hoje, Moisés comemora que, nessa caminhada em conjunto, os dois puderam crescer juntos.

Mateus e Moisés se conheceram no ensino médio e se tornaram melhores amigos. A convite de Moisés, Mateus se voluntariou no Viva Melhor Sabendo Jovem. Foi nesse processo que Mateus soube da sorologia do amigo e quis se informar: “No começo pensei que seria estranho, pensei que meu amigo teria muitas dificuldades. Mas, não. Com o passar do tempo eu conheci outras pessoas que convivem com a doença e aprendi com elas que o HIV não tem rosto”. ©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Agora com 19 anos, enquanto resgata sua trajetória ao longo deste último ano, Moisés desenha planos de futuro com os dois pés fincados no chão. Em sua lista de objetivos, estão cursar medicina, aprender francês e italiano (o que ele faz hoje nas horas vagas, por distração), morar fora do Brasil e continuar ajudando as pessoas.

“Esta vontade de ajudar o próximo é algo que me move. Existem várias maneiras de ajudar as pessoas. Eu quero poder ajudá-las dentro da saúde”, diz resoluto. A partir do seu trabalho, Moisés também sonha em auxiliar financeiramente sua família, que hoje vive da renda das faxinas da mãe e do trabalho do pai como atendente de açougue.

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Vivo e fortalecido, Moisés encontra inspiração para comandar os rumos de sua vida na “coragem e determinação das pessoas nessa luta diária pela necessidade”. E, com esse discernimento, o jovem segue construindo e desenhando “este quadro de Moisés”: de uma pessoa em formação.

“Eu estou em processo de construção. A cada dia, este quadro de Moisés é construído. Por enquanto, eu consigo dizer que Moisés é Moisés, e Moisés é uma pessoa além de qualquer rótulo. Acima de tudo, uma pessoa”.
Sentindo-se no controle de sua vida, Moisés planeja estudar medicina e continuar ajudando as pessoas: “Estar ali naquele ambiente de saúde me deixa muito feliz. Pela oportunidade de ajudar as pessoas. Eu ainda não posso ajudá-las com diagnósticos médicos, mas eu posso orientar as pessoas. E é uma necessidade tão grande…”. ©UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

Sobre o Viva Melhor Sabendo Jovem

O Viva Melhor Sabendo Jovem é uma estratégia em saúde, que tem como objetivo ampliar o acesso de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos ao teste do HIV. Além das testagens, a iniciativa tem como prioridades a retenção ao tratamento dos jovens positivos e o acesso às informações sobre prevenção.

Essa importante ferramenta de prevenção ao HIV foi implementada dentro da Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), cujo objetivo é garantir os direitos de meninos e meninas moradores das regiões mais vulneráveis das grandes cidades.

Em São Paulo, o projeto-piloto do Viva Melhor Sabendo Jovem ocorreu entre 2015 e 2016 e foi realizado pelo Programa Municipal de DST e Aids da Secretaria Municipal de Saúde, com apoio do UNICEF e parceria técnica da ONG Viração. Nesse período foram realizados 811 testes. Trinta e duas pessoas foram diagnosticadas com HIV positivo e 97% delas aceitaram ser encaminhadas para os serviços de saúde e acompanhadas no tratamento. Agora o projeto virou política pública na cidade e segue com as atividades no mesmo local.

Danielle Pereira, São Paulo, novembro de 2016.

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