Jovem ribeirinha supera desafios para garantir direito à educação

© UNICEF/BRZ/Fred Borba

Na varanda, a voz de Ingra Lorreine Rodrigues é abafada pelo constante ronco dos barcos que carregam os moradores de Carreiro da Várzea. A casa onde mora, na área rural do município, é rodeada pelo Rio Solimões, um dos mais importantes da bacia Amazônica. Ali, a adolescente de 17 anos relata as dificuldades da vida de ribeirinha, como a falta de opções mais variadas de lazer ou o dispendioso acesso aos serviços públicos.

“Principalmente a distancia para chegar até a sede do município. Então há toda essa mobilização, esse meio de transporte alternativo — tem que andar de barco, à pé, de rabeta, pegar ônibus — e tem que ter muita força de vontade”.

Com seu pai agricultor e sua mãe artesã, Ingra compoe uma das mais de um milhão de famílias ribeirinhas que vivem na Amazônia de forma dispersa, onde a garantia de direitos se torna um desafio. O dia-a-dia da adolescente consiste em ajudar nas tarefas da casa e estudar. Mas, uma parte considerável do seu tempo é gasto no deslocamento até escola. “Quando eu saio de casa, por volta das 11 da manhã, é mais ou menos uma hora e meia para chegar lá no ponto de ônibus. Na época da seca, a barragem represa o rio, então nós temos de pegar dois transportes a mais para chegar no ponto onde o ônibus escolar nos pega. Por esses motivos que eu tento não me desanimar. Mas muitos jovens desistem”, diz.

© UNICEF/BRZ/Fred Borba

Para ela, a perseverança nos estudos é peça-chave na construção de um futuro. Com a meta de estudar biomedicina, Ingra sonha também em fazer algo por sua comunidade.

“O estudo é fundamental. E o que me motiva é a vontade de ter um desempenho melhor, para que eu possa melhorar meu bem estar, o bem estar da minha família e de todos os que estão ao meu redor”.

E, pensando na melhoria de vida dos ribeirinhos, ela também aponta outras possíveis soluções para a região: “Tornar os meios de transporte mais acessíveis. Em relação à saúde acho que deveria haver mais postos de saúde disponíveis para a minha comunidade. Aqui só há um. Na sede do município também tem, mas quando precisamos fazer exames, ir ao médico e fazer essas coisas mais sofisticadas, temos que nos deslocar até a capital Manaus”, explica.

Enfrentar as dificuldades e nunca desistir são metas que Ingra traçou para si, mas que ela gostaria de deixar como legado para outros tantos jovens. Em junho, ela teve a oportunidade de passar esse recado. “Ninguém imaginava que um município como Carreiro da Várzea ia participar do revezamento da tocha Olímpica, que é um evento mundialmente conhecido”.

Ao conduzir a chama Olímpica em Manaus, Ingra prestou uma homenagem ao município e ao povo ribeirinho. Estampando as cores de seu município nas tranças, ela correu pelos jovens do interior com a mesma garra que persegue seus objetivos. E, emocionada, fez um desejo:

“Que todos olhem para os jovens da Amazônia como jovens que podem ir além, buscar seus sonhos e conhecimentos independente das dificuldades enfrentadas. Que a minha história sirva de exemplo para todos ribeirinhos, que eles nunca desistam, que corram atrás dos seus sonhos, independente dos obstáculos, que todos sigam em frente, com garra, determinação e foco”.
© UNICEF/BRZ/Fred Borba
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