Uber, Flamengo, Sport e 1987

Aí eu pego o táxi, entro apressado, nem olho direito pro motora, dou aquela boa tarde protocolar. — Toca pro aeroporto, por favor. E eu tô com pressa. — Sim, senhor.

Fui chato, seco, impessoal. Mas em vez de me devolver o azedume, a voz do motora soou simpática. Olhei pra ele. Recebi um sorriso puro. Desarmei o espírito. Retribui a simpatia. — E aí, muita correria?

— Sempre, né, doutor. Aqui em São Paulo tá difícil. Olha aí esse trânsito. É um protesto lá na frente.

— Poxa, me diz aí porque São Paulo não gosta do Haddad…

Ele deu lá uma explicação que nos remeteu ao que ele chamava de Úbem.

— Ele (Haddad) agora abriu vaga pra cinco mil táxis daqueles pretos, sabe, executivo? Pra concorrer com o Úbem. Mas tá errado, não vai resolver.

— Por que? Nessa briga de vocês com o Uber eu tô com o Uber. E a população também.

— É, doutor, mas tem alguma coisa errada nessa história toda.

— O quê?

— Meus colegas tão errado em quebrar os carros dos Ubem, um dia desses um amigo meu, o Ceará, quebrou o vidro de um carro lá em Congonhas, caiu vidro no olho da passageira, foi um horror. Mas a gente taxista paga um monte de taxa a Prefeitura. É taxa da licença, taxímetro, não sei o que, um monte de coisa. Se a gente não pagar uminha dessas o carro vai aprendido e pra tirar é multa de dois mil e oitocentos. Eu gasto todo dia cento e vinte de gasolina nesse carro (era um Spin). Uma corrida do meu ponto até os Jardins dá cento e trinta. Os Ubem andam com carro dois ponto zero, que gasta mais gasolina que o meu, e cobra só oitenta pela mesma corrida. Tá certo isso? Não tá, tem alguma coisa errada…

— Eu acho que vocês perdem pro Uber…

(interrompendo, com outro sorriso puro) — …Por causa do preço. Eles são mais barato, né. Mas tem alguma coisa errada. Ou então a empresa é muito rica e paga a diferença, sei lá.

Daí a gente chegou em Congonhas e eu saí do táxi grato pela simpatia e pelo papo. Ganhei outra perspectiva sobre o assunto. Sim, o Uber é ótimo. Mas está no mercado com uma baita vantagem, sem as taxas municipais.

Sim, ainda acho criminoso e bárbaro o comportamento dos taxistas contra o Uber. Mas eles tem um bom ponto a defender. E o novo e avantajado concorrente tá tirando dinheiro do sustento da família. Talvez na mesma condição eu também quebrasse o vidro da galera.

Ok, avião rumo a Belo Horizonte. Viagem de trabalho. Galo e Flamengo no Mineirão. Antes do jogo, papo rápido com Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Fla — um lord, um visionário, um cara que tá sempre do lado certo.

— Presidente, por que os clubes brasileiros tão contratando esse monte de estrangeiro, hei?

— Porque jogador brasileiro tá muito caro, né? A China veio aqui e inflacionou o mercado.

— Meu time também contratou um monte de estrangeiro.

— Ah é, qual teu time?

— O único e legítimo campeão brasileiro de 87!

— Ué, você é do Flamengo? (rindo)

— (rindo mais ainda) Não, né presidente, sou do Sport, claro.

Daí debatemos rapidamente sobre primeira e segunda divisão em 87. A história é longa, nem vou explicar. Mas todo flamenguista para de argumentar quando lembramos que o Guarani, vice-campeão brasileiro de 86, jogava o módulo amarelo. Logo, ali não poderia ser a segunda divisão. Eram, portanto, dois grupos de times que disputavam o mesmo campeonato.

— Vem cá, você lembra da escalação do Sport em 87?

— Claro! E emendei: — Flávio, Betão, Estevam, Marco Antônio e Zé Carlos Macaé; Rogério, Ribamar e Zico; Robertinho, Augusto e Neco.

— Pois eu vou te dizer a minha. E, de prima, sapecou: — Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho e Leonardo; Andrade, Aílton e Zinho; Renato Gaúcho, Bebeto e Zico. Agora me diga: quem é o campeão?

Foi quando fomos interrompidos para ele dar umas entrevistas pro pessoal da TV junto com o meu chefe, o ministro do Esporte.

É injusto eu continuar a conversa aqui, sem ele pra me rebater. Mas eu teria respondido assim a última pergunta:

— Por isso o futebol é tão lindo, presidente. Se a gente só comparasse as escalações do Brasil e da Itália em 82 teríamos seis títulos mundiais e não cinco. Mas os dois times foram pro campo e a pior escalação acabou campeã mundial. Ou seja, pra ser campeão, tem que jogar. E quem foi a campo jogar, meu bom, foi o Leão.

Vinte a quatro horas entre São Paulo e Belo Horizonte. Dois papos que valeram a pena.

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