VALORES INCOERENTES, MAS CONVENIENTES.

“Patrão, vamos conversar um pouquinho…”

Jaime entrou pelo grande salão de cristal que dava de frente para seu posto de segurança na mansão, caminhou pelo corredor apelidado pelo patrão de “Louvre” devido à imensa quantidade de obras de arte, mas os funcionários chamavam de “deus me louvre” caso estragassem alguma peça, que valeria muitos meses de salário para pagar o prejuízo ao chefe. De frente para a lareira estava Conrado, o sorridente empresário de meia-idade sorrindo para o programa de TV favorito da HBO, Real Time with Bill Maher. 
- Posso entrar, patrão?
- Orra Jaime, você é de casa, nem precisa pedir!

Da última vez que Jaime entrou sem pedir, levou uma bronca…

-Podemos conversar um pouco? Queria tirar uma dúvida sobre economia com o senhor!

-Opa, fico feliz que você se interesse por estes assuntos! Diga lá, qual tua dúvida?

-Vi uma palestra do senhor enquanto fazia a sua segurança no evento dos empreendedores líderes de São Paulo e não consigo parar de pensar no conceito de mais valia.

-Orra, não vem com papo de comunista pra mim não, Jaime! Há há há!

-Longe de mim senhor, dizem que esses comunistas são o cão, querem roubar nossa grana pra dar pros outros, e matam quem não obedecer e odeiam Jesus! -Quero tirar uma dúvida capitalista!

-Vai lá! Disse Conrado se reconfortando na cadeira manufaturada.

-Acompanhei o senhor na advocacia enquanto fazia o teu seguro de vida e testamento e o senhor comentou que caso morresse sua esposa ficaria com 500 milhões de reais e por isso eu teria que redobrar meu turno protegendo o senhor, lembra?

-Porra, mas era brincadeira, Jaime! Há há há!

-Eu sei patrão, a questão é: sua vida vale 500 milhões. E a minha?

Suspiro lento e profundo do Sr. Conrado, temendo que aquilo significasse alguma ameaça de sequestro ou ameaça similar. Ele bebe o resto do Whiskey 18 anos de uma vez, tosse e retoma sua fala:

-Bem Jaime, você trabalha aqui há quase 10 anos, é praticamente da família, todos acham seu trabalho muito valioso.

-Sim, são 12 anos já, doze anos hoje, e me honro de sempre ter protegido o senhor e sua família pra onde fôssemos.

-Porra, então que papo é esse agora, Jaime? Disse Conrado entre suspiros.

-Comecei a ouvir palestras sobre empreendedorismo e queria tirar minhas dúvidas com um dos mais ricos empreendedores do país. Daí queria saber, se sua vida vale 500 milhões, sua casa 200 milhões, teus carros somados 800 mil e se somar na apólice sua esposa e dois filhos daria um bilhão, certo?

-Sim, por aí, eu valho mais porque sustento essa porra toda! Há há há!

-É aí que surge minha dúvida: o senhor tem um patrimônio de 1 bilhão, mas teu cadeado vale 2 mil reais.

Sr Conrado volta a se espantar, temendo algo pior que um sequestro: um pedido de aumento. Entre tosses, ele recobra uma postura mais séria no assento. -Se você tá pedindo aumento Jaime, sinto muito mas o país tá passando por uma crise, você sabe. -Já tá difícil manter todos vocês empregados…

-Não é isso, é que acho estranho: eu ganho 2 mil reais do senhor, e o senhor é o indefeso. Se eu protejo alguém de 500 milhões, eu deveria valer mais que 500 milhões, não? Mas só valho 24 mil por ano… está errado!

-Não está errado! Disse um Sr Conrado afoito. -Seu produto é sua força de trabalho, meu produto é um telefone que filma, tira foto, faz videoconferência, paga contas de banco, tem joguinhos, permite que pessoas se comuniquem e todos amam! -Por isso é mais valioso e gera muita grana pra mim e os sócios que nos matamos pra levantar a empresa. Trabalhei muito no começo, sem fins de semana, só fui ter lucro 2 anos depois e a patroa buzinando no meu ouvido achando que tudo daria errado e íamos viver na favela caso desse errado. -Não é fácil abrir empresa no Brasil, você sabe!

-Sim, eu sei, mas o senhor não sabe fazer o produto, contrata pessoas para fazer. -O teu trabalho era planejar o negócio para os outros fazerem, agora só precisa gerenciar as pessoas que te substituíram no processo de pensar, enquanto passa os dias rindo para a tela da TV ou Celular. E mesmo assim vale mais que nós funcionários que trabalhamos 12 horas por dia para satisfazê-lo e protegê-lo e depois voltamos pra favela onde vivemos. Jaime olha penetrantemente nos olhos do Sr Conrado e diz. -N´so demos errado, Sr Conrado?

Sr Conrado levanta e troca sua expressão risonha por uma tez nervosa e tensa. Amarra com força o roupão e diz para Jaime ainda sentado.

-O que você quer Jaime? Aumento? Tá pensando em me sequestrar? Saiba que eu tenho uma arma e o delegado é meu amigo pessoal!

-Não sou bandido não, Sr Conrado, o senhor sabe. -Não quis te deixar nervoso, me desculpe. É que como o Sr sabe, tenho 3 filhos e o caçula nasceu com um problema no coração, lembra?

-Sim, lembro… Conrado mentiu por compaixão, enquanto se serenizava e voltava a abundar-se na cadeira luxuosa.

-Então, para sobreviver ele precisa de uma operação que só é feita nos EUA ou Cuba, mas não podemos pagar, por isso queria falar para o senhor me emprestar o dinheiro, pois a vida dele vale mais que 2 mil ou 500 milhões, não pode ser contabilizado por valores monetários, mas eu sei que para o senhor, que nem conhece ele direito não dará o mesmo valor. Por isso quero saber, qual o valor que o Sr daria para a vida do meu filho, sabendo que ele é só o filho de um segurança particular que vale 2 mil reais, que se expõe a levar tiros e facadas para proteger o homem de 500 milhões.

Sr Conrado não esperava se atingido por esse raciocínio naquele dia. De repente seu segurança, pobre, analfabeto funcional, favelado e com problemas de fluxo monetário aparece com um pensamento de filosofia e economia fabulosa. Mesmo acostumado a palestrar e debater com economistas e ministros da fazenda, agora estava limitado nas palavras e sem resposta. Então recorreu ao simples:

-Quanto que você precisa?

-Só 50 mil. Eu pago com descontos mensais de 200 reais do meu salário, mais que isso não posso me comprometer! Disse Jaime, com as mãos juntas, como em uma prece.

-Orra, assim vai demorar a vida toda pra me pagar! Façamos assim… Suspense para pensamento, enquanto se levanta e caminha até a lareira e vira sorridente para Jaime.

-Que tal eu te doar essa grana? É dedutível do imposto de renda, entra como doação! Há há há!

-SÉRIO? Ficaria eternamente grato! Eu faço o que o Sr quiser, posso fazer horas extras! Preciso avisar a patroa que o bacuri está salvo! Eu já tava ficando desesperado porque nenhum apresentador de TV escolhia nossa cartinha pra nos salvar…

-Há há há! Você fez bem em me procurar, você tem sorte pois eu sou um cara sentimental, e tenho filhos também, entendo teu desespero, Jaime. Se aclama, enxuga essas lágrimas e volta pro teu posto. Marmanjo de 2 metros chorando, cê num é homi não? Há há há! Sr Conrado baria nas costas de Jaime que limpava as lágrimas entre soluções e um sorriso tristonho, mas que representava alívio. Conrado voltou à sua TV e apoiava a mão ao rosto.

Meses mais tarde, Sr Conrado foi premiado por seu novo livro ter virado um Best-Seller e suas palestras tiveram um aumento não só de cachê, mas de solicitações. O livro se tratava de um empregado e seu patrão filosofando sobre o valor da vida e o valor do capital e ambos acabavam salvando a vida um do outro.

Jaime nunca leu o livro, mas brinca toda noite com seu filho caçula, a operação foi um sucesso.

-O Sr Conrado é um santo!