CONSTRUINDO UM IMPÉRIO

Presidente chinês Xi Jinping quer criar a maior economia esportiva do mundo até2025. Ele coloca o futebol, o mais global dos esportes, no coração dos seus planos

Texto original na edição de Maio da revista Sports Management. Tradução de Ulisses Faustino Zinhoni


A China tem planos ambiciosos para os esportes. Comandado pelo presidente Xi Jinping, o governo central anunciou que quer criar uma economia esportiva de cinco trilhões de yuans (R$2,8 trilhões) até 2025. Se tudo der certo, a nação se tornará líder mundial nos esportes- com o setor representando 1% do PIB chinês.

Ao anunciar o projeto, em Novembro de 2014, o Presidente inicialmente ofereceu poucos detalhes de como o país de aproximadamente 1,4 bilhões de habitantes planejava alcançar seus planos ambiciosos. De lá para cá, no entanto, mais informações foram aparecendo. O futebol, ao que tudo indica, vai ser o carro chefe das aspirações chinesas. Um torcedor do esporte, o presidente tem dois objetivos para a revolução chinesa — sediar a copa do mundo, e eventualmente, ganhá-la.

FASE DE PROGRESSO

O professor Simon Chadwick observa a China há quase duas décadas, e testemunha de perto o emergir do esporte como uma indústria séria. Chadwick diz que a partir de suas bem divulgadas iniciativas de “diplomacia de estádio” — a construção de centros esportivos em países em desenvolvimento, em troca de acesso preferencial a recursos naturais — o interesse da China em esportes atingiu um novo patamar depois de sediar os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim.

“As Olimpíadas de Pequim foram propostas em conjunto com a agenda de restabelecimento da China no cenário mundial”, ele diz. “Os jogos projetaram uma nova imagem da China como um país moderno, desenvolvido e de potência econômica. Era a marca de um país em larga escala. Ao sediar os jogos, a China estava dizendo ‘nós estamos aqui, somos fortes e exercemos influência’”.

De acordo com Chadwick, a China já deu o próximo passo de seus planos esportivos — para o qual o pronunciamento de Jinping em novembro de 2014 serviu como pontapé inicial. Ao discurso do presidente se sucedeu uma corrida de uma série de empresas chinesas em busca de negócios relacionados aos esportes — bem como de transmissores de esportes e times de futebol — em mercados maduros.

Dois dos negócios mais significativos foram a compra de 20% do clube espanhol de futebol Atlético de Madrid, pela Dalian Wanda, a maior empresa privada do setor imobiliário chinês e o investimento de 400 milhões de dólares (1 bilhão e 400 milhões de reais) da China Media Capital, na compra de 13% do City Football Group — que detém os direitos do Manchester City, e do New York City FC, entre outros times.

“O que a China está fazendo é construir um setor inteiramente novo de negócios que não existia por lá antes”, diz Chadwick. Ele acrescenta que este estágio não consiste somente em companhias chinesas comprando clubes de futebol e empresas de mídia. No começo de 2016, clubes de futebol chineses completaram uma série de importantes transferências, com atletas considerados de alto nível, como os brasileiros Alex Teixeira, e o meio campista Ramires, egresso do Chelsea, assim como a contratação de Gervinho, ex-atleta do Arsenal, que chamaram a atenção do mundo do futebol.

“Alguns clubes desconhecidos da China gastaram quantias enormes de dinheiro em alguns dos melhores talentos do mundo — e fizeram soar os alarmes de muitos que ainda não haviam notado o que acontecia na China”, relata Chadwick. “Isso realmente anunciou que a China está presente e quer negócio. Foi um indicativo claro de que eles têm recursos econômicos e a intenção — para se sobressair neste ramo.”

TENENTES

Por mais que a China permaneça oficialmente como um Estado comunista, há um bom tempo o país tem adotado princípios do capitalismo e passado por significativas reformas na economia. Como resultado disso, existem agora companhias multibilionárias operando dentro da China e as pessoas que as controlam emergem como tenentes econômicos.

Se tratando de esportes, dois desses tenentes — Wang Jianlin e Jack Ma — se destacam como os condutores das ambições chinesas. Wang é o dono do conglomerado Dalian Wanda, que adquiriu 20% do Atlético de Madrid, e recentemente comprou a multinacional Infront Sport and Media por US$1,2 bilhão. Wanda também se tornou o maior patrocinador da Fifa, desde que Gianni Infantino se tornou presidente da entidade em Fevereiro.

Enquanto isso, Ma — o chefe do Grupo Alibaba — gastou cerca de US$192 milhões na compra de 50% do time chinês Guangzhou Evergrande, que disputa a Superliga Chinesa. Para operar o crescente portifólio de seus negócios no esporte, Ma lançou um novo braço — a Alibaba Sports Group.

Não é coincidência que foi o Guangzhou Evergrande que protagonizou uma das mais impressionantes transações da janela de transferências de 2016 — a contratação da estrela colombiana Jackson Martinez por US$47,9 milhões. Martinez é um jogador no seu auge — um atleta desejado por vários clubes da Premier League — e sua transferência para o Evergrande foi um sinal claro que a liga chinesa é mais que uma aposentadoria lucrativa para jogadores decadentes.

Chadwick diz que as razões para a emergência dos “tenentes” são políticas — assim como econômicas. “Para entender o que está acontecendo, é crucial entender os meandros políticos. A maneira que os negócios chineses funcionam é que você deve ser visto apoiando publicamente o Estado. Do contrário, de alguma maneira o crescimento dos seus negócios acaba se limitando”.

LUCRANDO

As correntes políticas e as tradições chinesas são fatores que as companhias estrangeiras vão ter que considerar se elas esperam se beneficiar do boom do esporte na China. Na superfície, a criação de uma nova superpotência esportiva — e a necessidade de infra-estrutura e instalações para sustentá-la — brinda fornecedores estrangeiros, arquitetos, companhias de treinamento e outros provedores de serviço com uma plenitude de oportunidades.

Alguns negócios já estão sendo conduzidos, enquanto a China começa a olhar além de suas fronteiras para ganhar expertise e ajuda. A criação de um setor popular de esportesé um exemplo disso. No futebol, existe um número de centro de treinamentos estabelecidos por empresas estrangeiras, muitas vezes encabeçados por ex-jogadores. O ex-atacante brasileiro Ronaldo, foi o último (em novembro de 2015) a fechar negócio e constituir uma rede de escolas de futebol que levarão seu nome — um total de 30 devem ser abertas nos próximos cinco anos.

Para Chadwick, entretanto, o futuro não é tão claro. “Existem potencialmente enormes oportunidades para estrangeiros se envolverem e beneficiarem — mas ao mesmo tempo, pode não haver oportunidades reais”.

“Não é como fazer negócios na Europa, onde você pode entrar em um avião e sair vendendo gramados sintéticos, por exemplo. Você não pode pegar um avião para a China e simplesmente dizer ‘estamos aqui e é isso que temos para oferecer’. Tem muita regulação e o Estado mantém um controle rígido sobre o que acontece nas cidades, vilas, e províncias.

Para fazer negócios na China, você deve se estabelecer no país, ou ao menos fazê-lo por meio de um agente local. Mesmo que suas bases estejam na China, você ainda deve trabalhar com agentes locais, porque precisa de uma licença especial para operar. Se você quiser exportar para a china, precisa passar por um agente aprovado pelo Estado”.

Ele acrescenta que criar contatos e entender as práticas locais é a chave para o sucesso para qualquer companhia que quiser se envolver com o cenário. “Assim como os políticos, estabelecer relações genuínas com as pessoas com quem você quer trabalhar é crucial.

Os chineses tem uma coisa chamada Quanxi — um tipo de relação que é muito importante para eles. Se você quer fazer negócios com eles, eles precisam confiar em você em um nível completamente diferente do que o habitual na Europa”.

Chadwick termina com palavras encorajadoras. “Os chineses realmente gostam de fazer transações. Eles estão constantemente na expectativa por oportunidades e vão fazer negócio se acharem que vale a pena”.

Tom Walker • editor colaborador • Sports Management