Eu (possivelmente) Descobri a Heurística para Aprovação do Visto Americano

(…) “Eu então entrei no hall de entrevistas na Embaixada Americana. Aguardei alguns minutos a minha vez, tentando controlar o nervosismo, quando fui finalmente chamada para a Entrevista pelo Cônsul:
Eu: Bom dia!
Cônsul: Por que quer viajar aos Estados Unidos?
Eu: Turísmo.
C: Quem vai pagar a sua viagem?
Eu: O meu namorado, ele é Americano.
C: O que você faz?
Eu: Trabalho na empresa xyz, há 1 ano.
C: Você tem imóvel em seu nome?
Eu: Não.
C: Possui automóvel?
Eu: Estou pagando o consórcio.
C: Posso ver o comprovante?
Eu: Claro, está aqui.
C: Tem filhos?
Eu: Não.
C: Lamento, mas infelizmente não poderei aprovar seu visto para os Estados Unidos desta vez. Nesse papel que estou te entregando explica as razões e condições para se aplicar novamente no futuro, se ainda for de seu interesse.”

Não, essa não é a minha história. É uma de muitas que se pode encontrar na internet. São relatos comuns entre sí: interesse em tirar o visto de turismo (B1/B2) para os EUA. O problema é que em muitos casos o visto é negado pelo Cônsul na Embaixada Americana.

O que diferencia a minha das outras histórias são duas coisas: primeiro, eu descobri o padrão que é observado pelos Cônsuls. Segundo — é a melhor parte: vou ensinar como fazer isto agora.

SPOILER: esse artigo pode conter informações confidenciais e de fontes não autorizadas à realizar tal divulgação, e para profunda mitigação e detalhamento, essa leitura pode ser demasiadamente extensa para alguns.

Não é o objetivo desse artigo fazer uso de screenshots contendo passo a passos de preenchimento de formulários, dado o volume de material que pode ser encontrado na internet. Ao invés disso, o foco será a divulgação de informações raras ou de difícil obtenção mas que se fazem cruciais e serão chave para o sucesso no processo do visto.

Faz um tempo que uma amiga minha me perguntou “Sob quais circunstâncias você iria para os Estados Unidos?”. Isso me fez pensar: são várias pessoas que viajam para os EUA todos os anos e os padrões já começam por aí: saúde, férias, estudos, trabalho e fuga. No entanto, não é por qualquer motivo que os Estados Unidos admitem pessoas em seu território.

Como sabemos, o controle de imigração é extremamente forte e atuante lá e todas as medidas são tomadas para certificar as pessoas que de fato não irão causar prejuízos aos EUA e aos americanos, seja ocupando uma vaga de trabalho ou causando uma elevação nos custos da nação.

Esse sistema está longe de ser perfeito e começa antes mesmo da solicitação formal de visto, pelo sistema de vigilância de ameaças em potêncial. Entretanto vamos tratar aqui da heurística utilizada para solicitações formais de visto junto ao Consulado Americano, mais especificamente o processo para o visto de turísmo.

A seguir nos vamos entrar em detalhes sobre suas características, como explorar suas falhas afim de maximizar as chances de se obter o visto.


Interpretando a Taxa de Aprovação e Compreendendo o Processo

Os Dados oficiais mais recentes da Embaixada Americana alegam que a taxa de aprovação de visto no Brasil girava em torno de 96,8%. O que quase qualificaria o Brasil para a isenção do processo de entrevista para obter o visto.

O que eles não informam é que dos 3,2% que são recusados representam milhares de pessoas dentro de um padrão social e comportamental muito semelhante e que, ainda, uma grande parte dessa fatia tinha autêntica intenção de visitar os EUA como turista, mas que como o relato que mencionei no começo do artigo, tem sua solicitação negada, aparentemente sem motivo.

Alegadamente é necessário, além de não ter impedimentos Legais ou Judiciais para visitar os EUA, comprovar a intenção de retornar ao país de origem e comprovar condições para a estadia enquanto nos EUA. Mas quais exatamente seriam os critérios para avaliar isto?

Levando em consideração as falhas do processo de solicitação de visto, conheço vários testemunhos de pessoas que legitimamente tem como objetivo o turísmo, mas por causa dos critérios utilizados pela Embaixada, tem seu visto negado. Bem como, ainda demonstrando a fragilidade do sistema, outro grupo de pessoas que deveria ter seu visto negado, são autorizados à entrar nos EUA e explodem aviões em prédios.

O fato de eu ter consciência sobre a real dificuldade em ter a solicitação de visto aprovada me motivou a realizar uma intensa e aprofundada pesquisa à fim de compreender o processo o máximo possível, e cheguei à diversas conclusões considerando fontes abertas e restritas.

É possível encontrar alguns AMA’s (me pergunte qualquer coisa) que são abertamente respondidos por profissionais de Consulados. Outras informações podem ser obtidas através de documentos oficiais da Embaixada, disponíveis em seus sites, mas que incrívelmente passam despercebido. Vídeos também são informativos. Além de um número gigantesco de depoimentos de pessoas que preencheram a solicitação de visto para turísmo.


O Formulário DS-160

Tudo começa no formulário DS-160. Esse é o primeiro grande passo que você precisa cuidar para conseguir ter o visto aprovado. Eu estimo que o preenchimento adequado do DS-160 tem peso de 50% sobre todo o processo. É quando o entrevistador olha para o DS-160 e analisa a informações contidas alí, incluindo sua foto, que ele vai ter a primeira imprssão sobre a decisão de aprovar o seu visto ou não.

“O preenchimento adequado do DS-160 tem peso de 50% sobre todo o processo.”

O que eu pude verificar é que o visto americano tem uma heurística, de fato. Mas para lidar com isto, envolve mais timming do que manipulação. Então a recomendação que faço é: prepare a sua vida para a viagem. Consiga levantar fatos que agradarão os EUA. Quanto mais laços forem construidos naturalmente, mais fácil será o processo de aprovação.

No preenchimento do formulário, se tem duas opções: falar a verdade ou manipular as informações. É muito difundido o apoio à se falar a verdade sempre no formulário. Eu apoio e incentivo que se fale a verdade, mas não concordo plenamente que ela deve ser utilizada sempre. Analisando os dados que pude levantar, concluí que existe um grupo de informações que os Cônsuls esperam ler em um formulário e ouvir de você na entrevista para deliberar a aprovação. É importante que você saiba quais são essas informações que ele espera para que a entrevista ocorra bem e sem alterações significativas.

Nesse sentido, seja franco. Mas se for manipular a verdade, seja conciso. Cirúrgico. Você precisa assumir em primeiro lugar que o Cônsul não vai acreditar em tudo que está no papel, e ele pode te testar e pedir comprovações do que foi afirmado alí.

A seguir há um conjunto de informações que fitam o primeiro padrão analisado pelo Cônsul. Elas não são proibitivas, mas podem aumentar consideralvemente as chances de aprovação, tornando sua aplicação preliminarmente segura, se estas informações forem observadas.

Não inclua no formulário informações irrelevantes nem que sabidamente irão prejudicar você.

  • Não tenha pressa em preencher o formulário. O preenchimento pode levar dias sem nenhum problema. O importante é que seja valorizado o peso das informações que alí constarão.
  • Não informe apenas pai ou mãe, mesmo se vivem separados ou mesmo que seu pai tenha sumido no mundo. Exceto caso você tenha sido registrado por apenas um deles
  • Não tente falsificar a informação de nascimento, a menos que consiga replicar a autênticação dessa informação.
  • Regra geral: não tente usar informação falsa cuja você não é capaz de comprovar ou simular provas para verificá-las.
  • Informe datas e lugares propícios para turísmo. Ex: Julho, Nova York. Nesse sentido, evite mencionar lugares que notadamente são reconhecidos por abrigarem grandes comunidades de brasileiros como Massachussets e Flórida.
  • Não mencione conhecer pessoas nos EUA que não são americanos por nascença (Naturalizados por tempo, casamento, exílio ou Green Card), e que não têm vínculo de primeiro grau com você.
  • Da mesma forma, não mencione ficar na casa de parentes ou conhecidos que foram naturalizados nas hipóteses consideradas no item supracitado. É melhor mencionar um albergue ou um hotel.
  • Informe períodos compatíveis com seu aporte financeiro e com o propósito de um turísta. Ex: de 23 de Dezembro à 2 de Janeiro. OBS: se o seu país de origem é considerado ameaça terrorista, procure encontrar um equilíbrio entre datas de passeio e (evitar) datas festivas.
  • Mencionando um hotel, seja cuidadadoso para escolher àquele que seja compatível com sua renda, evitando extrapolações.
  • Alegar conhecimento em outros idiomas como Inglês e Espanhol pode ser uma faca de dois gumes — se sua aplicação for considerada preliminarmente segura, pode trabalhar a seu favor. No caso oposto, isso poderá afundar você de vez. Tenha ciência disso e tome sua decisão.
  • Suas chances poderão ser melhoradas se você conseguir comprovar estabilidade no trabalho (carreira pública ou muito tempo numa mesma companhia mesmo que privada). Serão ainda ampliadas se ocupar cargo de chefia.
  • Suas chances poderão ser ampliadas se constar em seu passaporte que você é um viajante e visitou outros países turísticos.
  • Suas chances poderão ser melhoradas se houver saldo em conta compatível com a viagem.

Como eu disse anteriormente, o formulário DS-160 é extremamente importante para ser considerado preliminarmente seguro ou suspeito. Mas para você precisar manipular o menos possível, é uma questão de timming. Então procure se enquandrar no padrão preliminarmente seguro, à medida do possível.

À seguir eu procurei ranquear as atribuições que podem ser observadas no formulário, ordenadas por grandeza. Você pode usar esta lista para analisar se é o momento mais adequado para tentar o visto. Confira:

O que pode ser considerado suspeito:

  • Filhos Americanos nos EUA
  • Histórico de impedimento para pisar em solo Americano
  • Renda incompatível com a viagem
  • Parentes ou conhecidos nos EUA em caráter precatório ou Naturalizados
  • Ser solteiro e ter namorado(a) Americano
  • Planos de viagem incompatíveis com perfil para turísmo ou para com sua situação particular
  • Índice de imigrantes que partiram da mesma região onde você nasceu ou onde você mora
  • Histórico negativo e mal esclarecido de solicitações anteriores
  • Jovem e recém formado, ou ainda, na perspectiva de se formar nos próxmios mêses ou anos.
  • Ser um pequeno comerciante e sem perfil de viajante ou turista

O que pode ser considerado seguro:

  • Estabilidade trabalhista e financeira
  • Imóveis ou automóveis em seu nome
  • Ter filhos ou esposa/o no Brasil
  • Viagem e estadia subsidiada por parentes Americanos de nascença ou por empresa reconhecida
  • Faculdade em meio do curso
  • Passaporte com carimbos de outros países turísticos

A Visita ao CASV

Após realizar o preenchimento perfeito do formulário, é hora de se preparar para tirar foto e colher digitais no CASV. Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma observação: existe uma dúvida comum sobre a documentação que precisa ser apresentada no CASV, muitas fontes afirmam que é necessário página de confirmação do DS-160, confirmação de agendamento incluindo email com instruções, passaporte e comprovante de pagamento da taxa. Pois bem, na realidade, os únicos documentos que serão exigidos são pág. de confirmação do DS-160 e passaporte, apenas, porque esses são os documentos principais. É isso mesmo que você leu.

A confirmação de agendamento com instruções e comprovante de pagamento de taxa são documentações acessórias. Elas só serão utilizados se por ventura não for possível ler o código do DS-160. Nesse caso, eles vao recorrer à esta documentação acessória para comprovar que tudo ocorreu dentro dos conformes durante a solicitação do agendamento para o CASV. Isto implica que, bastaria alguém se certificar de imprimir duas vias em impressoras de alto dpi (1200 ou superior) para garantir que o código seria lido sem problemas, isentando assim de se preocupar em levar outros documentos.

A visita ao CASV é um procedimento muito tranquilo, e geralmente sem atrasos. Na verdade, as chances de você ser atendido antecipadamente ao seu horário são grandes. Então relaxe, você pode entrar com celular delisgado, com chaves, cinto, e tudo mais. Eu levei uma pasta de documentos e não tive qualquer problema. O CASV possui um sistema de reconchecimento facial sem precedentes. Tente utilizá-lo a seu favor.Uma dica que vou dar e que será utilizada depois: na hora da foto, tente expressar um semblante positivo e natural. Confie em mim, isso pode ser útil mais adiante ;)

O CASV possui um sistema de reconchecimento facial sem precedentes. Tente utilizá-lo a seu favor.

A Fase Final: a entrevista na Embaixada Americana

É recomendado muita atenção nas dicas desta seção - isso pode definir a aprovação do seu visto.

Uma menção importante: Desapegue-se dessa ideia de cotas diárias, mensais, ou anuais. Eu pude verificar com fontes oficiais que isto, de fato, não existe. Cada entrevista é única. E cada candidato tem 100% de chances de ser aprovado antes da entrevista começar. Iste depende muito mais de você do que de qualquer outro fator. Mesmo que seja sua segunda ou terceira vez, cada entrevista é uma chance totalmente nova. Se na entrevista anterior houve algum engano ou se você se expressou mal de alguma maneira, ou, se no preenchimento do forumulário você errou alguma informação, logo no começo, peça a palavra para o Cônsul — ele vai te conceder— então tente explicar o que aconteceu de errado da última vez. Ele tem o seu histórico e ficará feliz em compreender o mal entendido.

Sobre o Cônsul: cada Cônsul pode ter muitas atribuições, faça analogia à polícia cívil, onde o PC tem diversas atribuições, uma delas é examinar candidatos à obter CNH. Para os Cônsuls da Embaixada, é a mesma coisa. Para tanto, os Cônsuls são treinados para analisar você, o seu perfil e suas intenções, à fim de ponderar sobre a veracidade das informações que você alegou no DS-160 + entrevista e decidir se você é bem vindo ou não aos EUA.

O tempo que eles tem para fazer tudo isso é muito curto, mas eles são muito bem preparados e bons no que fazem. Eles podem sentir o cheiro de mentira e podem compreender suas intenções instantâneamente. Como um psicólogo (alguns alegam que seriam todos formados em psicologia, até. Eu não pude verificar essa informação e, sinceramente, não acho que é pra tanto).

Tendo isto em mente, é necessário que você consiga se expressar de maneira clara para o Cônsul, desde o primeiro momento. E o primeiro momento é quando ele visualiza sua foto na tela do sistema (daí a importância de um semblante amigável para a foto).

Entretanto, existem circunstâncias que podem prejudicar a comunicação corporal e dessa forma podem confundir ou levar à confusão da interpretação das suas reais intenções pelo Cônsul. A maior de todas essas circunstâncias é o nervosismo. Isso é muito sério. Prepare o seu psicológico, tente relaxar e fique tranquilo. A primeira palavra é a última que deve ser esquecida: esteja calmo.

O nervosismo e ansiedade pode te fazer falhar. Por isso tente ficar calmo e relaxe. Prepare o seu psicológico para a entrevista.

Sem isso, você pode falhar em comunicar as suas reais intenções na entrevista e com efeito, poderá ter a sua solicitação negada. Eu pude obsvervar muitos relatos e até mesmo presencialmente no dia da minha entrevista, pessoas que estavam extremamente nervosas e falharam por não transmitir a segurança e a confiança necessária para que o Cônsul tivesse as mínimas condições para atestar suas informações e aprovar o visto. Geralmente é isto que torna algumas entrevistas mais longas que outras: o Cônsul é perspicaz o bastante para identificar a autênticidade de um solicitante instantâneamente. Para aqueles casos em que ele não consegue fazer isso, ele solicita uma lista comprovantes para auxiliá-lo.

Você precisa transmitir a segurança e a confiança necessária para que o Cônsul tenha as mínimas condições para aprovar o seu visto.

Superando o nervosismo, o segundo fator que deve ser observado é a coerência. É neste momento que você precisa responder às perguntas do Cônsul. Se, de acordo com o DS-160, você for preliminarmente seguro, o Cônsul vai te fazer perguntas simples. Basta respondê-las com tranquilidade e sem cair em contradição que sua entrevista será rápida e tudo vai dar certo. Agora, se sua candidatura for suspeita preliminarmente, o Cônsul terá de realizar perguntas mais elaboradas à fim de se certificar que as suspeitas podem ser sanadas. Neste caso, ele provavelmente irá te pedir documentos de comprovação.

Procure ser claro e dê justificativas simples para perguntas complexas, apresentando documentação convincente. Em todos os casos, lembre-se de não cair em contradição relevantes. Se você informou no DS-160 que trabalha a 6 anos e na hora que ele te perguntou você repondeu 5 — não tem problema. Mas se você alegou no formulário que você recebe R$1.000,00 e você responde que recebe R$4.000,00 , ou ainda, se alegar no DS-160 que vai visitar NY, mas responde ao Cônsul que vai pra Califórnia, ele provavelmente vai querer saber porque desta discrepância.

Sempre que questionado, procure dar justificativas simples, mesmo para perguntas complexas.

O Cônsul pode te fazer uma dessas duas perguntas logo de cara, mas fique atento pois existe uma linha tênue que divide nuances entre elas:

“Para onde você vai nos EUA?”

“O que você quer fazer nos EUA?”

Se ele fizer a primeira pergunta, o Cônsul quer espera uma resposta simples e direta. Seja confiante e responda.

Se ele fizer a segunda, o Cônsul está disposto a saber a sua opinião sobre os EUA, e está te dando uma abertura para você tecer algumas breves palavras sobre o seu propósito de viagem. Nesse caso, não seja seco respondendo “Turismo na Disney.” Diga, por exemplo: “Sempre tive muita vontade de visitar os EUA por isso quero aproveitar as minhas férias para conhecer a cidade tal!”.

Esteja preparado para responder perguntas de natureza curiosa e inusitada, como: Por que você deciciu ir para os EUA sozinho, se vc tem esposa? Por que deciciu conhecer os EUA depois dos 30? Por que você iria querer viajar para os EUA logo agora que se formou? O sistema me diz que você conhece pessoas no EUA!

E outras coisas do tipo…


A Minha História

Foram muitos mêses estudando e descobrindo informações para não falhar na entrevista, e depois de muito pesquisar, eu finalmente me inscrevi para tentar o visto. Sabendo de como deveria proceder para melhorar as minhas chances, vou explicar como eu fiz.

A minha situação real é:

  • Natural de cidade de origem numerosa de imigrantes
  • Renda de pouco mais de 1 salário mínimo
  • Parentes naturalizados americanos
  • Último semestre da faculdade
  • Nenhum imóvel ou automóvel no nome
  • Pais separados, humildes
  • Carimbo da Argentina e Perú no passaporte
  • 2 anos trabalhando na empresa

Como é de se perceber, a minha aplicação tinha tudo para ser considerada preliminarmente suspeita. Apenas dois pontos à favor: a visita em outros países e 2 anos na mesma empresa. Isso foi de certa forma positivo, pois assim eu pude verificar a eficiência da minha teoria numa situação muito adversa. E havia muita água para eu remar, pois preliminamente, eu dificilmente seria considerado em ter a intenção de voltar ao Brasil, uma vez estando nos EUA.

Eu cheguei muito cedo à Embaixada, às 08:00. Meu horário era meio dia. Perguntei se poderia ser atendido antes, mas o responsável pela organização da fila disse que não.

Eu então esperei alí mesmo, num café que existe nas proximidades da Embaixada. Fiquei alí às vezes de pé, às vezes sentado, o tempo inteiro. Observava àquela fila enorme que dobrava o quarteirão. Sem dúvidas, mais de 60 pessoas. E o tempo foi passando. Mas quanto mais o tempo passava, mais tranquilo eu ficava.

Uma coisa eu me deixava particularmente bem: eu tinha certeza que eu portava de mais informações úteis que a maioria das pessoas que alí estavam. Eu havia planejado muito aquele momento e agora bastava ficar calma e executar o plano.

No final de contas, ter chegado tão antecipadamente não foi algo ruim — Ao meio dia, a fila que tinha quase uma centena de pessoas no começo, havia se reduzido à apenas 8, sendo eu o sexto entre eles. Ótimo!

Depois de deixar meus pertences naqueles sacoleiros, fomos autorizados a entrar na Embaixada. Lá dentro um scanner. Normal.

Muitas pessoas tiveram que tirar outra foto na hora, pois ao ler o código do passaporte, o sistema não conseguia recuperar a foto. Mas esse não foi o meu caso.

Então eu segui direto para o hall de entrevistas. Varias cabines com um Cônsul aposto para realizar a entrevista. Ele, sentado. Eu, de pé, mesmo.

Mais um organizador de fila me recepcionou, verificou o passaporte e me disse que eu entraria na fila para o guichê 7. Então eu fui e na minha frente duas pessoas, sendo uma estando sendo entrevistada naquele momento. Eu pude ouvir a entrevista das duas. A primeira era um casal que parecia estar tendo dificuldades em comprovar a intenção em voltar ao Brasil. Eles alegaram ser pequenos empresários. Foram muitas perguntas e um vai e vem de documentos… no final, não sei se funcionou. O segundo era um rapaz que tinha um semblante sereno. Ouvi ele dizer que ia para Nova York, passar as férias de julho. O Cônsul ainda perguntou se ele morava sozinho e o que seus pais faziam da vida. Depois perguntou à ele para confirmar a informação que ja havia visitado outros países anteriormente e ele respondeu que sim, México e Chile. Ele não precisou mostrar nenhum comprovante e sua entrevista foi muito rápida. O seu visto foi concedido.

Ao meu ver, o primeiro caso, do casal, não deu certo porque apesar de terem uma condição boa para viagem, o DS-160 pode ter sido preenchido com informações insuficientes ou imprecisas, o que levou o Cônsul a realizar um questionamento mais detalhado, e eles nao compreenderam bem esses questionamentos do Cônsul, se embolaram para responder à ele. E o segundo, do garoto à minha frente, este ficou claro que o seu formulário foi preenchido de forma adequada. O Cônsul, olhou pro rapaz e quase não teve dúvidas, fez algumas perguntas por mera confirmação e aprovou a sua solicitação.

No meu caso, por mais que eu soubesse quais eram as melhores informações que eu teria de colocar no DS-160, não era viável eu manipular todas elas. Eu fiz o que pude para valorizar algumas, mas sabia que ainda assim eu eu seria preliminarmente suspeito. Enfim, era chegada a minha vez.

Ao finalizar com o rapaz, aguardei olhando atentamente a face do Cônsul, que finalizava os protocolos referentes ao atendimento anterior. Ao levantar sua cabeça, assinalou para eu que eu aproximasse. Assenei confiantemente que havia entedido e caminhei em direção ao guichê, e com um semblante sereno no rosto disse:

Eu: Bom dia!

Cônsul: Bom dia!

C: (ele verifica as informações na tela e seu semblante ja muda para preocupação) Aonde você pretende ir nos EUA?

Eu: Nova York.

C: Você trabalha?

Eu: Sim! Trabalho em uma grande rede de supermecados há 2 anos, sou gerente. (não sou gerente, sou caixa)

C: E quanto você recebe lá?

Eu: R$1.800,00.

C: Posso ver os comprovantes?

Eu: Claro, estão aqui. (comprovantes manipulados)

C: Você é de Governador Valadares, Minas Gerais?

Eu: Sim, mas desde muito cedo me mudei de lá. Moro em Belo Horizonte. (Cônsul faz olhar de reprovação)

C: Você conhece alguém nos EUA?

Eu: Não.

C: Me parece que existem muitas pessoas da sua cidade nos EUA…

Eu: Eu já ouvi dizer… os Estados Unidos é um país muito interessante e embora não conheça ninguém que more, sempre ouço coisas boas de lá! Minha mãe pensou em visitar uma vez também, mas como foi numa época difícil, decidiu não tentar o visto. (na verdade tenho parentes lá)

Eu: Posso fazer uma observação?

C: Sim, pode falar.

Eu: Não tenho certeza se no formulário exibe corretamente para você, mas a minha faculdade ainda está em curso. Eu não me formei ainda.

C: Ah, sim… E quanto falta para se formar?

Eu: Dois anos. É a metade. (falta bem menos que isso)

C: Você tem um comprovante de matrícula?

Eu: Sim! É este. (O comprovante nao precisou ser manipulado porque não informava em qual semestre eu estava)

C: Tudo certo… Você disse que é gerente. Então você trabalha muito. Você vai deixar o trabalho para visitar os EUA?

Eu: Não! Vou aproveitar as minhas férias, que serão em conjunto com as da faculdade. Eu trouxe uma declaração da empresa, ficaria feliz em poder aprsentá-la para você!

C: Por favor.

Eu: Aqui.

C: Você então quer conhecer NY. Você gosta de viajar? Já esteve em outros países antes?

Eu: Sim! Já estive na Argentina e no Perú. Gosto de viajar quando estou de férias e adoraria poder conhecer os EUA desta vez!

C: Okay… bom. Só tem uma coisa errada. (Meu coração vai na boca!)

C: Meu sistema diz que você tem parentes nos EUA!

Eu: (sei que o sistema não tem esse alcance) Eu diria para por favor verificar novamente, pois seu sistema está equivocado!

C: (…) (Cônsul devolve um folheto branco) Tudo certo… o seu passaporte será entregue em sua residência em até 10 dias. Seu visto foi aprovado!

Eu: Muito obrigado! Bom dia!

Sai da Embaixada quase esquecendo meus eletrônicos para trás!

Eu sabia que não seria fácil. E depois dessa longa entrevista, assim foi que eu cheguei a conclusão que eu havia descoberto a heurística do visto americano.

“O destino é uma questão de escolha. Controle o seu ou alguém o controlará.” — Desconhecido
Nada é randômico no mundo. Existe, porém os padrões que ainda não foram idêntificados” — Dr. Feil D. Hawk
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