Extraviado

Poucas coisas são tão agradáveis a uma mente cercada como a minha como são os aeroportos. Uma entropia de sucessos, organizados, vendidos e arquitetados para serem vários em um. É diferente das rodoviárias, que são bagunçadas, com seus ditos fracassos e fracassados, comprados, às vezes ainda à venda, onde todos são um. Queria eu ser forte o suficiente para gostar das rodoviárias. É lá que existem histórias. Nos aeroportos, há fatos sobre os quais não posso escrever. Então escrevo sobre mim.

Cercado por painéis com tantos destinos, a certeza de que nenhum deles me trará paz é estranha. Mais estranha que isso é a proximidade que os aeroportos me trazem da morte. Ela parece possivelmente iminente e certamente inevitável; e em nada me assusta. Aliás, a proximidade da vida me deixa muito mais tenso. Nela, nada há de certo. Tudo pode ser evitado. A morte me parece muito mais real. Dela não duvido. Sei que é o fim. Sei que não há mais responsabilidades, que não serei uma responsabilidade. Que com certeza não deixarei pendências pois, sob a terra, meio é fim. Se viver é uma obrigação, fardo dos mais pesados, a morte é uma renúncia. Mas não se engane, não a quero. Só não a temo. Bem, desculpe-me por largar-lhe nos ares, respirando essas palavras tão sujas. Sei que ardem mas já não as quero dentro de mim. Como já estou indo a solo, algo tem que ficar nos céus no meu lugar. Resta saber se vou à certeza ou à falta dela.