Isso não é sobre Deus

O gracioso verde da copa das árvores; o macio azul do céu; o sincronizado canto das aves, abafado pelo latido de um cachorro: são os personagens de nossa estória. Eis a trupe ao redor da qual gira o nosso sistema, a única constante de nosso causo. São esses os personagens que estarão interagindo por todos os cenários, em todas as cenas.
Dividindo o roteiro com as mais lineares criações de deus, estão os coadjuvantes, que, egoístas, por muitas vezes se tomam por estruturais numa realidade que só lhes tange por acidente; que insatisfeitos e envergonhados, correm e de pronto se afastam da banalidade asquerosa e assustadora, e, dentro de pouco, a entendem como bela e divina.
São, no entanto, a mais bela de todas as conjunturas, de fato, pois são Eles os verdadeiros criadores da beleza. E é neles, e unicamente neles, que esta pode fazer abrigo, porquanto são os únicos conhecedores da feiura. Talvez, sejam a própria feiura.
Este texto é feito e apreciado (ou desdenhado) pela raça que cria e delega, para, a posteriori, questionar e desconstruir. É, logo, como seu pai, filho e irmão, enovelado, confuso, nada linear, pouco (ou muito) instintivo e surpreendente; é efêmero, descabido, não possuidor de pés e tampouco de cabeça, apesar de seguir caminhando e sempre pensando; é frágil, adaptável, sensível, preguiçoso, desconfortável, espaçoso, folgado, e tem uma capacidade única de se reinventar depois de concluir que já havia descoberto tudo; estas palavras são as criadoras e as imitadoras do deus que se inventou, e cético, passou a duvidar de sua própria existência, que transformou o começo em fim, se esquecendo do meio, modificando toda sua trajetória sem entender o porquê. E não quer entender.
Vocês acreditam mesmo em tudo isso?

    Victor Dourado Alves Reis

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    Whatever happened just had to happen