Uma colheita por manhã, eis o que vos peço

Nada cura a alma melhor que os sentidos, como nada seria melhor que a alma para sanear os sentidos.
- Oscar Wilde

Poucas coisas são tão prazerosas quanto sentir a brisa tirando as preocupações do corpo. Preocupações que surgem a todo instante, brotando e borbulhando em nossas complexas almas e só podem ser colhidas com simplicidade. Dias de angústia só podem desaparecer pelo escapismo. E, sem dúvidas, o mais barato e menos doloroso é atrever-se a sentir os pequeninos prazeres que rodeiam nossa vida.

Há dias que minha cabeça pesa com tantos frutos, muitos nada produtivos. Tomei por obrigação, na manhã desse feriado municipal, portanto, curar-me. Excitado pela minha própria expiração, me fiz de pé e caminhei para o quintal. Apesar de todos os pesares, viver em uma casa relativamente grande é uma benção, sim. Os pequenos prazeres estão ali, nos fundos, escondidos mas facilmente acessíveis. Caminhei até a beirada da piscina e já começo a sentir o meu corpo e o ambiente conversarem. Pareciam negociar. Assim se mantiveram por alguns minutos, trazendo-me impaciência e levando-me a questionar: por que eu estava desperdiçando tal tempo?

Mas não tardou e os dois gênios chegaram às vias de fato. Minha carcaça expunha os produtos de minha alma e importava inspiração. Já sentado, sinto os primeiros resultados. O puro frescor que inundava meu corpo já valia a pena. Ei-los os tais prazeres. Mas durou pouco. Em minutos o ambiente já saciava-se de, sozinho, acolher a tantas preocupações.

É quando meus pés começam a tocar a água. Imediatamente, o escambo volve. Posso sentir então o simples prazer de tirar vidas pela manhã. Dias de angústia que fluem por minhas feridas e diluem-se na água gelada que acorda aos poucos com o novo dia. Mas como todo bom mercador, empeço a fazer investimentos. Sem perceber, afundo minhas pernas contra a vontade da piscina que, já alertada dos perigos que caminham por aquele estranho e egoísta andarilho, tentava devolver o cliente à superfície. Mas já era tarde. Uma vez que conheci aquele nicho, já não aceitaria largá-lo.

Quando meu joelho toca a água, encontro-me mentalmente estabilizado, apesar da recompensatória troca de calor continuar a plenos pulmões. A medida que o frio vai tomando meu corpo começo a reparar no mundo a minha volta. Parece belo, sem dúvidas. Os pássaros daquela região, tão perdidos quanto os habitantes, aparentemente são também pouco estudados. Voando desordenados e sem formação, não condizem com a seriedade e a ordem das regiões mais centrais. No entanto, são mais afetivos, menos tensos e travados, voam com mais vigor, esses sim entendem o que é viver. São adultos brincalhões que atravessam o plano da copa das árvores, gritando e cantando. Ouvem-se, ao redor, outras espécies, em outras pobrezas, mas que, por tortuosos caminhos diferentes, cantam com a mesma desordem. Estes já não podem ser vistos, e a prazerosa simplicidade de sua alegria só pode ser escutada.

Enquanto os pássaros curtem seu ocioso feriado, os indivíduos, que habitam a região e tiveram sua humanidade a mão armada tomada, vão trabalhar. É o que anuncia o tilintar do carro velho, que interrompeu a sinfonia dos vizinhos de cima, ao descer correndo a rua. É quando percebo que enquanto minha confiante genialidade se banha na água clorada, existia outro canto, de outra espécie que lutava dia e noite para comer. A buzina, a algumas ruas de distância, berrava anunciando que o vendedor de pamonha passava. Para completar a nova orquestra que se formava, os martelos, com certeza inanimados, que socavam em alguma obra, a outras ruas de distância, pregavam sonhos e apresentavam o dia de trabalho que há pouco se iniciara. É esse o agradável som da periferia.

Passei os minutos seguintes observando a copa da árvore que servia de praça para as aves. Parecia um recorte que fora colado sobre meu muro para adoçar minha visão. Mas era real. A árvore que nasceu com as raízes abraçando os mortos estava lá, imponente, sendo atribuída extrema beleza e significado. Fui então chamado pelo cheiro do bolo de laranja que saía das janelas da casa e ia até meu espaço de meditação. Escuto os estalos do portão ao lado, que parecia espreguiçar ao ser acariciado pelos primeiros raios de sol. Era hora de voltar para minha humanidade. Uma vez saneada pelos sentidos, minha alma encontrava-se faminta.

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