Matrix

Quando era mais jovem fui apresentado aos jogos de interpretação de personagens (RPG), cujo encanto vem sempre se mantendo presente. No entanto, por mais interessante que fossem, estes jogos reclamavam de nós uma grande preparação. Esta consistia em uma série de escolhas (aleatórias ou não) para a montagem de personagens, cenários e narrativas. Em suma, na construção de um mundo e de uma história.

O maior ou menor gosto que tínhamos por esta composição realizada na preparação era, na minha opinião, o que mais caracterizava o tipo de jogadora ou jogador que a gente era. Alguns sistemas de RPG eram mais simples e práticos enquanto outros eram mais elaborados e “realistas”, o mesmo se pode dizer sobre a competência dos narradores em desenvolver uma boa história neste contexto. O fato é que o jogo sempre envolvia a escolha de determinações que controlariam tudo o que se seguiria.

Em verdade, um jogo é justamente isto: controle. Controle sobre as regras, as peças e os usos de que se servem para alcançar os objetivos propostos, mas o que de fato não é isto? Viver, ou estabelecer toda sorte de relações interpessoais não se trata justamente de controle? Não é esta a microfísica do poder?

Matrix é controle, esta é a definição da temática de um dos filmes mais marcantes das últimas décadas. Marcante em virtude do uso de novos efeitos e técnicas cinematográficas, mas também, em virtude de explorar o velho dilema metafísico do controle versus liberdade, dilema este que está presentes em todo o legado cultural humano.

Mas não Matrix não é só controle. Matrix é a realidade daquelas personagens (ou uma das realidades delas), a realidade que foi construída da mesma forma que nós construíamos realidades para jogar RPG, com a diferença significativa de que nos jogos éramos quem construíamos, por meio dos preparativos, e concordávamos que fosse daquele jeito, este não é o caso na Matrix do filme.

Ou seja, por um lado Matrix é um controle que se impôs às personagens, por outro, Matrix é a própria realidade posta à percepção e imaginário das personagens. Ou talvez, de forma invertida,

a realidade é o controle sobre as personagens,

principalmente uma realidade que não tenha sido construída por elas. Dito isto, começo então a reflexão que desejo neste texto, trata-se da identidade entre realidade e controle, que me leva à identidade entre teoria e práxis. Estes são dois aspectos que são considerados distintos por uma tradição que remonta a Aristóteles, e que é rompida por Karl Marx no famoso Manifesto do Partido Comunista.

A investigação da realidade por parte daqueles que a ela se dedicaram sempre revelou o quanto a realidade é controle, mesmo que este não tenha sido o foco. Neste sentido o exemplo mais radical está com os filósofos condenados em suas cidades por denunciar controles artificiais como Sócrates, Hume ou Espinosa.

Como disse acima, podemos admitir que existem controles que escolhemos e outros que não escolhemos, o olhar atento destes entre outros filósofos denunciaram que

certos controles como as regras do estado, ou da religião, ou mesmos certos vícios de raciocínio são arbitrários e portanto são escolhidos por nós.

Não necessariamente uma escolha voluntária, por mais absurdo que isto possa parecer. Isto por que tais filósofos tendem a demonstrar que tais controles artificiais satisfazem aos interesses privados de grupos humanos que se esforçam em mantê-los, inclusive às custas da perseguição de qualquer um que tentar denunciar tal artificialidade, o que aconteceu de fato com os três filósofos citados acima.

Por esta razão, é certo que por mais inútil que possa parecer o exercício filosófico, este jamais é executado sem alterar totalmente a realidade onde se dá ou a quem toma parte do mesmo. Este olhar filosófico vai para além da própria realidade ao se direcionar a como a construímos por meio de nossas teoria do conhecimento, da ciência, da lógica e da linguagem, pelo menos.

Trata-se propriamente do tanto de liberdade que temos assim como do tanto de liberdade que tiramos ao fazer uma tal construção.

Vale lembrar que é justamente quando entendemos estas possibilidades que podemos propor o novo e foi justamente assim que a física contemporânea surgiu como uma nova possibilidade quando a física moderna não se fez capaz. Uma possibilidade que até então, mais do que ignorada, era tida como absurda. Algo que tem sido muito comum na história humana, e na da filosofia em particular. Muitos problemas fundamentais da filosofia ou ciência contemporânea não seriam nem questões no período clássico.

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