Retrospectiva Literária 2015

O ano de 2015 foi o melhor da minha vida em termos de leituras. Não falo apenas de quantidade (apesar de ter alcançado 100 livros lidos pela primeira vez, como podem ver no meu skoob), mas também de qualidade, de livros que deixaram marcas importantes em mim. Esta breve retrospectiva pode não sintetizar perfeitamente como foi o meu ano em livros, mas é provável que chegue bem perto disso!

#LeiaMulheres

Como muita gente por aí, também assumi o compromisso de ler mais livros escritos por mulheres (e foram mais de 70 livros entre os 100). Mas só isso não era suficiente. Eu também queria ler mais livros focados em mulheres interessantes e fora dos clichês. Em outras palavras, despertei uma sede por personagens femininas bem construídas e essa sede não tem fim! Se você também anda sentindo a mesma sede, recomendo os livros da Alice Munro. Em 2015 li Fugitiva e Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, dois livros de contos que apresentam mulheres das mais diversas lidando com amor, família, passado, mudanças e perguntas como “para onde e como vou agora?”. Em sua maioria, as personagens femininas de Alice Munro parecem sempre prontas a arriscar. E isso me inspira demais!

Em 2014 li Virginia Woolf pela primeira vez e não fiquei muito animada (talvez não tenha sido uma boa começar por Mrs. Dalloway). Em 2015 resolvi ler Um Teto Todo Seu e Orlando e agora posso dizer que Virginia Woolf me conquistou pra sempre com sua escrita que desestabiliza o leitor. Um Teto Todo Seu é um ensaio sobre mulher e escrita, sobre o espaço da mulher no mundo da literatura. Orlando, por sua vez, narra 300 anos na vida de uma pessoa que nasceu homem e um dia se viu mulher e seguiu como mulher. Como uma obra escrita nos anos 20 pode ser tão atual é uma coisa que nunca vai deixar de impressionar.

Empolgada com os livros da Chimamanda Ngozi Adichie, este foi o ano em que me interessei mais por personagens negras. Uma das leituras mais surpreendentes foi As lendas de Dandara, de Jarid Arraes. Ao que tudo indica, Dandara foi uma importante liderança de Palmares e também companheira de Zumbi. Mas a historiografia não tem muitas certezas sobre ela. Jarid Arraes decidiu então explorar esta figura feminina lendária em dez contos sobre coragem e luta. O que mais gostei nesse livro foi a determinação de Dandara ao assumir a missão de combater a escravidão. Sem dúvida, foi uma das melhores personagens femininas que encontrei em 2015.

Outro livro que merece ser destacado é A vida secreta das abelhas, um livro sobre uma adolescente branca acolhida por incríveis mulheres negras que quase ofuscam a protagonista. Ah, o quase! É por isso que insisto em procurar protagonistas negras. Ainda assim, devo à autora do livro, Sue Monk Kidd, a minha citação preferida do ano:

As histórias devem ser contadas, senão morrem; e, quando morrem, não nos lembramos quem somos nem por que estamos aqui.

É preciso contar as histórias das mulheres negras! E não só das negras! Posso citar dois young adults lidos em 2015 dignos de aplausos em matéria de representatividade: Yaqui Delgado Quer Quebrar a Sua Cara (da Meg Medina), com uma protagonista de família cubana, e Para Todos os Garotos que Já Amei (da Jenny Han), com uma protagonista de família coreana.

Livros nacionais

Em 2015 também resolvi ler mais livros nacionais. O meu preferido foi O Irmão Alemão, do Chico Buarque. Essa jornada para desvendar um mistério familiar é realmente empolgante. Talvez eu tenha me interessado por esse livro para me distrair dos segredos escondidos por minha própria família… Alguns eu mesma ajudei a esconder e só me resta torcer para que nenhum parente se descubra escritor!!

Ainda sobre nacionais, decidir ler livros clássicos, como A Escrava Isaura (do Bernardo Guimarães), Triste Fim de Policarpo Quaresma (do Lima Barreto) e A moreninha (do Joaquim Manuel de Macedo). Preciso compartilhar: tentaram me desanimar, tentaram me envenenar com a conversa do “ai, isso é tão chato!!”. Mas entrava por um ouvido e saía pelo outro, pois adoro os desafios que os clássicos nacionais nos impõem: a linguagem, os temas, os cenários, o contexto histórico. Também li clássicos menos difíceis em termos de linguagem, mas definitivamente muito intensos em termos emocionais, como Antes do Baile Verde (da Lygia Fagundes Telles), Tenda dos Milagres (do Jorge Amado) e A hora da estrela (da Clarice Lispector). Achei que estaria pagando alguma dívida selecionando essas leituras. Que nada, descobri que só lucrei.

Livros impactantes

Alguns livros surgem no nosso caminho para impactar mesmo. Proteja seu estômago! O meu não estava preparado para a leitura de Quarto, da Emma Donoghue. Não pretendo mais ler livros sobre pessoas em cativeiro, mas ainda não consigo parar de falar sobre Quarto, especialmente agora que virou filme. Também não consigo superar o livro que me fez ter pesadelos por um tempinho: O Nevoeiro, conto do Stephen King.

Entre os livros que mais me emocionaram estão Paula (da Isabel Allende), um relato de uma mãe que está perdendo sua filha aos poucos; Meio Sol Amarelo (da Chimamanda Ngozi Adichie) e a explosão da brutalidade da guerra civil na Nigéria; e A Tenda Vermelha (da Anita Diamant), o primeiro livro a me fazer chorar em público. Minha relação com esse livro é complexa porque ele é baseado no texto bíblico. E eu não só não tenho religião como não acredito em nada. Nadinha. Mas o que encontrei em A Tenda Vermelha não foi fé e sim um belo livro sobre mulheres e maternidade numa sociedade patriarcal. Por fim, impossível não mencionar A Redoma de Vidro (da Sylvia Plath). É o livro para o qual você deve se sentir bem preparada para ler (e isso significa estar bem preparada para descobrir que não estava pronta para tudo o que ele é). Eu estava numa boa e ainda assim ele me derrubou!

Top 5: livros que eu gostaria de desler.

Juro, desler.

5- Vá, Coloque Um Vigia (Harper Lee). Ou: como desconstruir nossos heróis e tirar o chão de leitores ingênuos. Por que Harper Lee foi mexer com Atticus Finch??? Para ser justa, vale acrescentar que a Scout adulta é ainda mais sensacional e admirável.

4-Orgulho e Preconceito e Zumbis (Seth Grahame-Smith). Ou: ou não né? Não sei se a intenção é assustar ou só ser nojento, mas só consegue ser ridículo mesmo.

3-Morte em Pemberley (P. D. James). Ou: Jane Austen já fez tudo certinho em Orgulho e Preconceito e qualquer tentativa de continuação já começa com um grande risco de tropeço.

2-Peter Pan (James Matthew Barrie). Ou: como clássicos infantis podem ser machistas, não é mesmo? Horrorizada com a associação entre Wendy e a maternidade (precoce) idealizada.

1-Nada (Janne Teller). Ou: como reunir o maior número de crianças terríveis num livro terrível. Imagine uma aula ruim de filosofia com membros decepados, estupro, passeio ao cemitério e fogo. O livro é mais ou menos isso aí.

Top 5: melhores leituras do ano

Ah, agora sim.

Sei que parece muito estranho escolher as 5 melhores leituras de um ano com 100 livros, mas isso só mostra o quanto os livros abaixo são especiais!

5-A Saga dos Corvos (Maggie Stiefvater)

O quinto lugar é uma série de livros. Em 2015 li os três livros já lançados da Saga dos Corvos: Os Garotos Corvos, Ladrões de Sonhos e Lírio Azul, Azul Lírio. Mentira, eu não li. Eu mergulhei. De cabeça. Sem medo. Querendo mais. Stiefvater criou um universo incrível de espíritos, sonhos e magia, um mundo sombrio de perguntas e segredos. Ainda assim, é o nosso mundo, com personagens que quero abraçar, sacudir ou simplesmente enterrar numa floresta bem escura.

4-A Invenção das Asas (Sue Monk Kidd)

Sue Monk Kidd realmente gosta de colocar mulheres brancas e negras lado a lado. Neste livro a escritora transforma em romance as trajetórias das abolicionistas americanas Sarah e Angelina Grimké. As duas irmãs não apenas combateram a escravidão, como também incluíram na sua luta reivindicações femininas, para incômodo geral. A Angelina real teria dito uma vez: “Nós, mulheres da abolição, estamos virando o mundo de ponta-cabeça”. Uma frase impressionante para o século XIX e, de alguma maneira, também atual: precisamos continuar virando o mundo de ponta-cabeça. Sarah e Angelina eram mulheres brancas. Diante disso, Sue Monk Kidd sentiu a necessidade de incluir uma grande personagem negra no livro, a escrava Encrenca, que divide a narração com a personagem Sarah. Encrenca é uma costureira talentosa. Ainda na infância, aprende a ler com Sarah. Corajosa, se envolve num projeto de rebelião de escravos. Não é uma Dandara, uma heroína perfeita, mas não abandona a luta para alcançar a liberdade.

3-A amiga genial (Elena Ferrante)

Esse é o primeiro livro da Série Napolitana, uma quadrilogia sobre as vidas de duas amigas, Elena e Lila. O cenário é a Itália dos anos 1950. Elena e Lila se tornam amigas ainda na infância. Enquanto crescem, se adoram, se odeiam, competem. Esse era o livro que eu esperava sobre a complexidade das amizades femininas! E é evidente que também tem espaço para as tradicionais brigas de família e os conflitos entre os vizinhos, quase todos movidos por uma dose amarga de pobreza e outra dose amarga de ambição. O que era preciso para sobreviver ou crescer no pós-guerra?

2-O sol é para todos (Harper Lee)

Fiquei revoltada e encantada. Revoltada com o pano de fundo: a segregação, o dedo constantemente apontado para a população negra. Encantada com Atticus Finch, tão justo e correto, herói sem capa. E ainda mais encantada com a representação da aventura da infância, aquela que só se vive uma vez.

1-Hibisco Roxo (Chimamanda Ngozi Adichie)

Esse é um livro cruel. Talvez injusto também. Violência doméstica, tensões religiosas, golpe militar na Nigéria. Chimamanda não vai te poupar de nada. Queria evitar essa revolta que sinto ao acompanhar a dor de personagens maravilhosos como a adolescente Kambili. Na realidade, esse é um livro com ótimas e contrastantes personagens femininas e só por isso já merecia estar no topo da minha lista! A tímida Kambili é o oposto de sua prima Amaka, uma menina mais expansiva. Do mesmo modo, Beatrice, mãe de Kambili, é uma esposa submissa, enquanto Ifeoma, mãe de Amaka, é uma viúva independente. Kambili começa o livro tão retraída, tão sem voz! Assim como cada hibisco tem seu tempo para florescer, a voz da menina tem seu próprio tempo para aparecer. Mas aí não aparece só sua voz. Não, aparece a Kambili inteira, personagem inesquecível.

Que 2016 nos renda boas leituras!