
A multinacional e o cluster
O impacto da entrada da IKEA num cluster de móveis em Portugal
A IKEA, empresa de origem sueca líder mundial na distribuição retalhista de móveis, é uma empresa que suscita admiração e merece estudo. Desde que foi fundada em meados do século XX, não tem deixado de crescer e de inovar num negócio relativamente tradicional.
Tratando-se duma empresa para a qual existe abundância de dados, desde 2010 ela é objeto de pesquisa num vasto projeto prático que coordeno na disciplina de Gestão Estratégica da Licenciatura em Gestão da Universidade do Minho. Com este projeto consigo que os estudantes apliquem de forma prática os conteúdos de grande parte do programa, permitindo-lhes visualizar determinados conceitos e enquadramentos. Ou seja, conseguem aplicar o conhecimento de forma concreta a uma grande empresa e ao seu contexto global, nacional, regional e sectorial. Não é, aliás, por acaso que intitulo o projeto de “IKEA: Arrumar não custa”, onde, por um lado, recorro a um mote da empresa — arrumar não custa — e, por outro lado, sinalizo que não custa arrumar de forma prática as ideias, conceitos e enquadramentos aprendidos na disciplina da mesma forma que também a IKEA disponibiliza imensas soluções de arrumo.

Uma das partes mais desafiantes do projeto obriga os estudantes a analisar o setor de mobiliário em Paços de Ferreira e Paredes, em Portugal. Desta forma, o projeto IKEA ultrapassa largamente o âmbito da empresa e envereda por análises ambientais, sempre necessárias em estratégia.
Efetuada a análise setorial, é pedido aos estudantes que discutam os impactos da entrada da Ikea em Portugal, tanto na distribuição retalhista (normalmente a parte mais visível e popular da empresa) como na produção de móveis no cluster de Paços de Ferreira e Paredes. Apesar do manifesto interesse de algumas das reflexões produzidas, o certo é que esta análise não é fácil, sendo normalmente efectuada de forma mais especulativa do que baseada em dados robustos e métodos de análise rigorosos.
Em 2013, no âmbito de um projeto sobre dinâmica industrial, escrevi em conjunto com Joana Barbosa um pequeno artigo sobre o assunto. Com o título “Multinacionais e clusters”, o artigo foi publicado em O Economista — Anuário da Economia Portuguesa 2013.

Nesse artigo era efetuada uma síntese de alguns contributos conceptuais sobre o impacto da entrada duma multinacional num cluster. Mais especificamente, o artigo constatava que existe uma interdependência entre as empresas multinacionais e os clusters em que elas se instalam, sendo possível detetar três tipos de impactos decorrentes da entrada da multinacional num cluster: o impacto sobre o cluster como um todo; o impacto sobre as empresas individuais do cluster; e o impacto sobre a própria multinacional.
Estes três impactos continuam a ser relevantes e a merecer a nossa atenção, mas é precisamente o segundo impacto mencionado — o da entrada da multinacional sobre o comportamento das empresas instaladas no cluster — que, na qualidade de professor e investigador de temas de estratégia empresarial, mais me interessou desenvolver. Trata-se de estudo que estava por realizar e para o qual é possível adoptar múltiplas abordagens metodológicas e dados para analisar empiricamente o tema.
Em 2014 surgiu a oportunidade de dar mais um passo nesta agenda de investigação, agora no âmbito de um mestrado. Foi assim que Diana Teixeira Carvalho aproveitou a sugestão que lhe lancei e, com gosto, empenho e inteligência, realizou no âmbito do Mestrado em Economia Industrial e da Empresa da Universidade do Minho, a sua dissertação com o título Entrada de Multinacionais num Cluster e Efeitos na Estratégia das Empresas Instaladas, dissertação que concluiu em 2016.

Foi uma pesquisa não isenta de dificuldades mas que permitiu recolher dados originais e compreender um fenómeno curioso e relevante: Qual o impacto da entrada da IKEA no cluster de mobiliário de Paços de Ferreira e Paredes sobre a estratégia das empresas de mobiliário instaladas nesse cluster?
Como todas as pesquisas realizadas, também esta dá algumas respostas e coloca dúvidas. Uma da constatações mais interessantes mostra que mais de metade da nossa amostra considera não ter havido impacto com a entrada da multinacional, o que só por si justifica tentar compreender os motivos desta percepção. Quanto às empresas que reconhecem ter havido elevado impacto, elas consideram que o mesmo foi negativo.
Outro resultado interessante mostra que os factores de competitividade que melhoraram de forma mais significativa após a entrada da IKEA foram o desenvolvimento de novos produtos e as estratégias de exportação, indicando alterações no comportamento das empresas instaladas.
As principais respostas destas empresas à entrada da multinacional foram a internacionalização do negócio e o desenvolvimento de estratégias genéricas de diferenciação e focalização baseada na diferenciação. Ou seja, duma forma geral, as empresas procuram áreas de diferenciação, tanto em termos de produtos e serviços como em termos de mercados, que não as coloquem em confronto directo com a IKEA, tabuleiro onde sabem que ficariam a perder.
Os detalhes como algumas empresas têm feito este percurso e os resultados que ele está a gerar ou gerará no futuro é matéria que merece continuar a ser acompanhada. Não só neste cluster mas noutros em que tenha havido a entrada de multinacionais.