Quando a “consciência de classe” não é a sua consciência (e você pode ficar de boa)

A criação de laços sociais é um dos princípios fundamentais da vida. Fazer parte de algo, defender algo, lutar por algo são coisas fundamentais dentro de uma noção maior da existência humana. Isto é óbvio quando tratamos das ligações mais próximas e cotidianas, dos nossos familiares e amigos, mas ganha uma complexidade maior quando se refere a ligações mais distantes e a um grupo maior de pessoas. Um dos exemplos mais paradigmáticos é quando analisamos os conceitos de “classe social” e de “consciência de classe”.

“Sol Justitiae” (Albrecht Dürer, 1499)

Um dos fundamentos básicos do Marxismo, na realidade o próprio “coração” da teoria, é o conceito de “classes sociais” a partir da perspectiva econômica, que estabelece a clássica divisão da sociedade em “burguesia” e “proletariado” e tenta imprimir um senso de injustiça/justiça, manutenção/transformação, presente/futuro que permeia todo um conjunto de ideais e de possíveis ações visando, justamente eliminar estas “classes sociais”. Ou seja, parte do reconhecimento de uma diferença fundamental existente entre dois grupos da sociedade, a “propriedade privada dos meios de produção” ou da “força de trabalho”, e da necessidade de eliminar à força esta diferença (o conceito de “revolução”) para solucionar os problemas que afligem a humanidade desde os seus primórdios.

Num primeiro momento, você pode justificar que o grande problema que o Marxismo busca atacar seja a desigualdade econômica (a situação de poucos com muitos e muitos com pouco), porém esta noção cai por terra quando entramos num ponto que foi mencionado no primeiro parágrafo e que é tão importante quanto o conceito de “classe” e, com certeza muito mais problemático: o conceito de “consciência de classe”. “Consciência de classe” é a noção de que como “trabalhadores reais” temos que pensar como “trabalhadores ideais”, ou seja, devemos ter uma série de pensamentos, opiniões e atitudes semelhantes a outras pessoas de nossa mesma condição econômica. O chamado para a “revolução” presente no “Manifesto Comunista”, trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, é o exemplo clássico do conceito. O que existe aqui é uma concepção de que, simplesmente, todas as diferenças históricas, culturais e, principalmente, individuais, seriam anuladas visando a construção de um mundo melhor. A anulação do indivíduo, neste caso, pode se dar pelo bem ( caso você seja um indivíduo iluminado, altruísta e resignado pela causa do futuro da humanidade) ou pelo mal (a “ditadura do proletariado” aparece aqui justamente para lhe dar aquela forcinha, à fórceps, para se encaixar neste projeto maior), é o ponto fundamental. Consequentemente, o desligamento automático de nossos laços sociais mais próximos por algo infinitamente maior. Em resumo, a utilização da “consciência de classe” para eliminar a existência das “classes”.

“A Feiticeira” (Albrecht Dürer, 1502)

O que está em jogo é até que ponto abriremos mão de nossa vontade individual em prol de uma causa maior. Não somos estúpidos ao ponto de imaginarmos que podemos fazer o que quisermos vivendo em sociedade. Historicamente as sociedades, utilizando-se na maioria das vezes do bom senso, estabeleceram o que é proibido/permitido, obviamente tendo diferenças de uma para outra que são estabelecidas pela cultura específica. O grande problema é que o Marxismo entende, dentro de uma certa hierarquia, as nossas ligações pessoais, íntimas e afetivas num patamar inferior, eliminando a possibilidade e o direito de não pensar dentro de sua “classe”. Ou seja, para funcionar, ele depende de uma situação mental e social do indivíduo que praticamente nunca deu certo na história (e olha que os defensores desta ideia mencionam que um dos “grandes méritos” do pensamento marxista está justamente na análise do passado).

“Melancolia I” (Albrecht Dürer, 1514)

Você pode estar fazendo a seguinte indagação: “Ok… entendo que minhas relações mais próximas têm grande valor para mim, mas também estou ligado a causas maiores como a empresa na qual trabalho, a igreja na qual congrego, ao partido no qual milito, ao país em que vivo… ou seja, de alguma forma ou outra abro mão de minhas vontades em prol de coisas que muitas vezes não concordo. Então porque não posso lutar por uma causa maior que promete eliminar toda a pobreza e a miséria da humanidade? Quer causa melhor?

Perfeitamente! Em tese, quando se pensa no objetivo final de causa, não há como discordar de seu argumento. O problema é que você está se esquecendo dos meios para atingir este fim, de que história da civilização ocidental (este troço gigantesco do qual você faz parte) conseguiu estabelecer uma série de valores que se baseiam no princípio da escolha e da liberdade. E por mais nobre que seja a sua causa, ela não dará certo a partir de imposições absolutas. Vamos aos exemplos (dos mais prosaicos aos mais amplos): ao trabalhar em uma empresa, por maior que seja a sua necessidade, você sabe que existem limites, seu e dela, do que pode ou não exigir de você. As leis trabalhistas, em geral, vêm justamente delimitar as ações de ambas as partes (principalmente as das empresas) tentando eliminar determinados aspectos que fira a dignidade do indivíduo. Quando pensamos nos partidos políticos, e não “no” partido político, por mais impositivos que pareçam em seus programas, o fato de existirem em suas mais variadas configurações é a demonstração das diferentes causas pelas quais você pode lutar e daquelas que pode escolher (ou criar, caso queira ser o líder de um). No caso de sua fé religiosa, podemos dar o exemplo da Igreja Católica que em sua história teve momentos de extremismo, em que buscou imprimir aos fiéis uma entrega absoluta à causa e a própria eliminação dos discordantes, mas que, por conta dos sérios revezes que sofreu, teve que partir para uma concepção mais aberta, compreensiva e ecumênica para seguir em sua missão. E assim podemos dar inúmeros exemplos deste tipo de conflito entre os indivíduos e as instituições em que se busca encontrar um equilíbrio na relações, por mais desproporcionais que sejam em termos de poder.

Dá para perceber que, em todos os campos da vida humana, há uma tensão latente entre a “vontade individual” e a “vontade geral”. E, ironicamente, a “vontade geral” surge da mente de poucos, preste bem atenção, de poucos que se se consideram numa jornada messiânica visando salvar a humanidade. Se a vontade de poucos pode prevalecer sobre as de muitos, por que a sua não pode prevalecer também? Especialmente se for para resistir contra esta vontade que elimina aspectos de sua individualidade que não ferem a individualidade e a dignidade dos outros ao seu redor. Isto é uma questão fundamental. Acreditar que toda a humanidade pode pensar e obedecer a princípios semelhantes, especialmente políticos e econômicos como é o caso do Marxismo, é de um absurdo descomunal. Um fato: isso só foi tentado dentro dos “estados totalitários” e sabemos que estas experiências podem ser consideradas como as mais cruéis e brutais contra a humanidade. E, para piorar, sabemos que não deram certo. As próprias sociedades que viveram sob estes regimes, em algum momento, buscaram corrigir radicalmente os caminhos que estavam trilhando e buscaram estabelecer bases menos rígidas e impositivas. Ainda que, volta e meia, surjam indivíduos e partidos que oferecem soluções autoritárias e ditatoriais para os conflitos sociais (tanto de esquerda como de direita), temos que entender que são aspectos de crises especificas e, principalmente, que são soluções temporárias, e não eternas, que podem ser colocadas ou não em prática.

“O homem desesperado” (Albrecht Dürer, 1517)

De fato, ainda que a solidariedade entre os indivíduos seja uma marca constante nas relações humanas, acreditar que ela ultrapasse muito além dos limites de nossa consciência e de nossa vontade é, ao mesmo tempo, simplista e ilusória demais. O “homem comum”, e não o “homem de classe”, por mais paradoxal que seja, é muito mais complexo, inteligente e interessante. É o que cria, é o que copia, o que aceita, o que transforma, o que deseja mais, o que deseja o menos, o que se rebela, o que se conforma. E por mais tentadora que seja a ideia de todos concordarem com um pensamento único (especialmente quando ele é o seu ou naquele que você acredita piamente), sabemos que isto não passa de uma falsa concepção do que é possível e real.