Conto Catalano


Luciano gostava de mulheres mais velhas. E de Balzac. Há pouco mais de um ano cursava letras no campus de sua pequena cidade predominantemente rural do interior goiano. O curso e a consequente descoberta do célebre autor francês só aumentaram a atração que há algum tempo começara a sentir por senhoras acima dos 35.

Teve essa sensação pela primeira vez no colégio, com uma de suas professoras. D. Paula ensinava química com os cabelos soltos, ao contrário das outras, que os prendiam em coques segundo a orientação da diretora que não abandonava antigos costumes. Quando se virava pra escrever no quadro, a mulher de 37 anos passava os dedos nos cachos que tampavam a orelha esquerda, de forma à ajeitá-los atrás dela. O vislumbre do movimento causou um arrepio na primeira vez que Luciano o viu. Odiava química, mas sentou-se na primeira cadeira à esquerda da sala por todo o primeiro ano do ensino médio. A orelha de D. Paula, o arco que seus dedos faziam enquanto executava o gesto e a maneira como às vezes o prolongava, mantendo o indicador a segurar os fios sempre que escrevia fórmulas, era, pra Luciano, mais interessante que quaisquer bundas da sua turma.

- Carai, fi, cê viu o bundão que a Jéssica tá? — Um colega dizia, na hora do intervalo, aos outros.
- Cê besta véi, tá demais. Ela postô uma foto esses dia de biquíni fi. — respondia um segundo.
- Nó, foi mês, eu vi. Tá gostosa passado. — confirmava o terceiro.

Luciano não falava nada. É claro que a bunda da Jéssica era realmente uma coisa fenomenal para as meninas do primeiro ano, mas ele não sentiu nada como um arrepio quando a viu e por isso pensava que opinar daquele jeito exagerado seria um pouco errado.

No começo, perguntava-se o porquê de não ser como os amigos. “Deve ser porque a orelha eu vejo pelada, e a bunda não”, concluiu no alto de seus 15 anos. Agora, com 19, não pensava mais assim. Estava convicto que curtia mesmo mulheres mais velhas, independente das partes nuas à mostra. Isso não o impedia de ficar com meninas da sua idade, vez ou outra. Na faculdade, conhecera várias garotas interessantes, assim como livros.

Descobrira Balzac por acaso quando foi à biblioteca. Não havia ninguém na área de literatura, como sempre. Passou os olhos em alguns volumes antigos e achou o nome do francês engraçado. Levou pra casa. Era o primeiro a ter pego o exemplar emprestado em mais de 20 anos. As mulheres mais velhas retratadas nas obras do escritor fizeram Luciano entender melhor o que sentia. Ao fim de A Mulher de Trinta Anos, tinha certeza que sua atração era mais que justificada. As mulheres mais experientes tinham seu charme descrito com estilo desde o século XIX.

A primeira vez que Luciano viu Vanessa foi na festa de quinze anos de Carlinha. Não teria ido ao aniversário se a família não tivesse lhe importunado por vários dias. A prima rica alugara um salão enorme e faria a celebração com todas aquelas cerimônias pé-no-saco clássicas, como a valsa e a apresentação de slides com fotos desde a infância. Era incrível como as pessoas se emocionavam com coisas tão clichês e mal-feitas, pensava Luciano. Quando tia Rose, mãe de Carlinha, pegou o microfone para ler um texto que havia feito para a filha, o garoto sentiu enjoo.

“(…) Você é minha princesinha linda, Carlinha. Você é muito especial para mim e para o seu pai. Enquanto você crescia, eu e ele estávamos dando muito amor pra você. A gente ama muito você (…)”

A repetição de “vocês” e a forma como ouvia tia Rose dizer “estávamos” ao invés de “tava” (no singular errado mesmo), como a maioria das pessoas ali falavam, o deixou mais incomodado do que se sentia até então com as fotos e os cumprimentos calorosos de parentes desconhecidos. Ok, a emoção da tia enquanto lia era legítima (até chorou), mas Luciano pouco se fodia para aquela alegria “pequeno-burguesa” — palavra que aprendera na faculdade com uma galera de movimento estudantil que via de vez em quando colando cartazes. Não aguentou a leitura até o fim e se levantou pra pegar mais uma batida de maracujá com vodca, a quarta desde que chegara.

No caminho até o bar, olhou pra algumas meninas de vinte e poucos em vestidinhos curtíssimos, todas com corpos e cabelos impecáveis. Vez ou outra mostravam a calcinha quando trocavam a perna cruzada, ao lado de seus namorados gordos e herdeiros de grandes fazendas. Aquela festa adolescente obviamente não era o tipo de diversão preferida dessas moças, mas como representava uma oportunidade de se enfeitarem completamente e bombar no instagram, estavam mais que satisfeitas. Luciano se interessava, mas quando via o feed dos iphones refletido nas pupilas entediadas, desistia de ir falar com alguma que estivesse sozinha.

Chegou no bar, deu um gole na batida (doce demais) e olhou pro salão. Como as bebidas ficavam ao lado do palco, viu todos os convidados de frente, alguns também emocionados com a leitura do texto. Vanessa, uma mulher alta, branca, de cabelos louros oxigenados e peles do pescoço um pouco moles estava ao lado do marido, Claudiney. Usava um vestido longo que fez Luciano pensar em uma cortina, e joias que compravam duas casas do rapaz. Tinha os olhos caídos nos cantos, o que dava ao rosto todo um jeito triste. Não havia nada que o garoto achasse mais interessante que um rosto triste. Lembrou de Balzac.

Vanessa não falava com ninguém, apesar da mesa cheia de amigas e seus maridos. Os homens conversavam entre si e ignoravam as mulheres. Já vermelhos de cerveja, riam fino. A mulher de 48 anos estava chateada. Há duas semanas, pegara o marido comendo uma puta na cama de casal que os dois compartilhavam havia quase vinte anos.

A traição não a assustava — já surpreendera o Claudiney outras duas vezes com garotas de programa em casa e estava acostumada com a ideia. Nas outras situações, porém, a moça gemia apoiada no sofá da sala. Essa era a primeira vez que a coisa acontecia na cama em que dormiam, e isso deixava Vanessa com nojo de deitar lá outra vez, mesmo mandando a empregada jogar fora os lençóis “usados”. Devia se acostumar logo, pensava. Luciano foi para a área externa olhar a piscina.

Quando voltou, Vanessa não estava mais na mesa. Só os homens continuavam lá, rindo fino. Atravessou o salão e viu que ela acompanhava as amigas na fila do jantar. Como não estava com fome, a mulher esperava ao lado, sozinha, olhando o jardim além da marquise. Luciano se aproximou.

- Onde cê tava?
- Oi? — A mulher se assustou. Cheirava bem.
- Quando fez 16.

A mulher piscou como quem ainda não tinha entendido e não disse nada. Três segundos de silêncio.

- Onde cê tava quando fez 16 anos.
- Ah, tá. É que cê falou rápido e eu num tinha escutado direito. Uai, eu num tive festa grande assim não. Na minha época num tinha muito essas coisa assim não — disse virando o rosto pro jardim.
- E onde cê tava?
- Uai, eu tava em casa, aqui mesmo. Teve só um bolin mês, bem simples. — Vanessa não nascera pobre, mas também não fora rica.
- E as meninas já postavam no instagram?
- Oi? Ah, hahaha. — mostrou os dentes e as rugas que as plásticas não tinham conseguido segurar — Num tinha isso não. Quem é você mesmo?
- Luciano, primo da Carlinha. Você?
- Ah, você é sobrinho da Rose? A gente é muito amiga. Chamo Vanessa, mulher do Claudi — interrompeu-se antes de terminar a frase. Estava acostumada a se apresentar como “Vanessa, mulher do Claudiney da Grãos Fértil” há muitos anos, mas dessa vez não teve vontade de fazer isso.
- Mulher do?
- Só Vanessa. Seu nome é Luciano igual do Zezé di Camargo e Luciano então?
- Eu gosto de pensar que é Luciano igual de Ilusões Perdidas. Mas é igual do Zezé di Camargo mesmo — o Sertanejo não era o estilo de música preferido do rapaz, mas já tinha passado a fase adolescente de odiá-lo.
- Quê isso, novela?
- Livro.
- Hmm — a mulher normalmente não se interessaria pelo assunto, mas como não tinha nada mais a fazer além de esperar, resolveu prolongar a conversa — Livro de quê?
- Romance
- Uai, então é história de amor, igual novela, deu no mês, haha — Ria automaticamente, sem sentir vontade.
- Romance é qualquer livro de história grande, num é que precisa ter amor não.
- Hm, uai então que graça que tem se num tem romance?
- Tem morte.
- Credo, rapaz — a mulher começava a achar a conversa estranha. A última vez que tinha falado em livros foi quando sua filha de 14 anos a pediu pra comprar Jardim Secreto, há quatro meses — E é de quê esse livro?
- Uai, é sobre um rapaz inocente de cidade pequena na França que vai pra Paris atrás de uma mulher e pra tentar a sorte como escritor. Chega lá e conhece um tanto de coisa ruim.
- Ah tá — totalmente desinteressada, não sabia o que acrescentar. Os dois ficaram em silêncio por um tempo.
- Cê quer emprestado?
- Hã? — Vanessa achava que ler era chato. O último romance que tinha tentado terminar foi ainda no ensino médio. No ano passado, não quisera nem saber de 50 Tons de Cinza — uai, pode ser — disse sem saber o motivo.
As amigas tinham saído da fila e olharam com curiosidade pros dois.
- Elas tão me chamando ali. Tudi bão pra você viu, Luciano? — Despediu-se como se despedia de todo mundo que encontrava na rua, por acaso — Depois cê passa lá em casa pra me emprestar — falou apenas pra terminar o assunto, sem querer dizer aquilo, realmente.
- Até mais.

Os dois beijaram-se no rosto. Vanessa tinha esquecido de dar o endereço, mas isso era fácil de encontrar.

Na faculdade, Luciano perguntou a um amigo.

- Ou, cê sabe onde mora o povo da Grãos Fértil?
- Uai, fi, cê num sabe não? É ali naquela rua ali seguindo o posto São João, onde só tem mansão. Uma casa que tem uns vidro chique no muro inteiro.

Passada uma semana da festa de Carlinha, Luciano foi até a casa de Vanessa em uma tarde de terça-feira. Sabia que a mulher estaria sozinha, porque na cidade todo mundo se conhecia, ele sabia quem eram as filhas de 14 e 18 e que ficavam fora todas as tardes de semana, fazendo curso de inglês, academia e tênis. Tinha elas no facebook, até.

Vanessa estranhou quando ouviu o que o rapaz disse no interfone (a empregada não ia nas terças e quintas). Tinha esquecido quem era. Pediu pra esperar e instantes depois abriu o portão. “Pode entrar pela porta de vidro grande e me esperar na sala”, disse ao interfone com um pouco de vergonha. Luciano entrou.

Ao lado do sofá, uma foto de book da família. O fundo branco era estupidamente comum. Na pose, as duas meninas ao centro, Vanessa de um lado e Claudiney do outro, todos sorrindo.

O marido, tal qual Vanessa, não tinha nascido rico. Apostara em um pequeno negócio de agrotóxicos que começou com uns amigos no fim da década de 80. A coisa foi pra frente com o aumento do cultivo de soja na região, Claudiney comprou terras e agora fazia mais dinheiro com os grãos do que com os agrotóxicos. A primeira coisa que tinha feito quando teve algum dinheiro foi comprar uma caminhonete. Atualmente, andava em uma Toyota Hilux 4x4, que trocava todo ano no modelo mais recente. Quando os dois velhinhos sentados na praça o viam passar no caminho para casa, um deles dizia: “Alá. Esse daí venceu, ó.”

Suas visitas ao Prima’s, um dos puteiros da cidade, eram constantes. Há três meses, em um sábado, encontrara lá o namorado da filha mais velha agarrado com uma morena. O rapaz de 20 anos e botina escamada arregalou os olhos, sem reação.

- Uai, fi, cê aqui? Haha — Disse Claudiney

O menino tremeu.

- Fica tranquilo, uai, hahaha. Se nóis gosta duma farra é purquê nóis é home, uai!

Pagou putas pro genro e pros amigos dele. Os rapazes foderam até o dia amanhecer.

Normalmente, Claudiney levava as garotas de programa pro motel. Algumas vezes, quando não tinha ninguém em casa, não se importava de ir com elas até lá. A esposa tinha flagrado o marido algumas vezes, mas ele pouco se fodia. “Com puta num é traição, uai”, pensava, apesar de já ter tido casos mais sérios com outras mulheres.

Luciano olhava o rosto de Claudiney no retrato e imaginava uma história parecida com essa, mais que comum na cidade. Vanessa chegou.

- Tava pelejando pra lembrar do cê. Luciano né?
- É.
- Tudo bem?
- Tudo. Eu trouxe o livro.
- Livro? Ah tá, aquele lá. Brigada. — Completamente desinteressada no exemplar. — Você quer um café?
- Quero.
Vanessa trouxe xícaras e os serviu. Silêncio.
- Você não vai ler, vai?
- Uai, como assim?
- Acho que você não vai ler. Não parecia interessada na primeira vez que eu falei do livro e com certeza não esperava que eu viesse aqui.
- …
- Eu sabia.
A mulher estava assustada. — A-Achei um pouco inesperado mês, ehe — o risinho foi pra quebrar o clima tenso.
- É a sua cara triste.
- Hã? — Vanessa ajeitou os cabelos longos e chapinhados. Sua orelha apareceu.
- Eu vim por causa da sua cara triste.
Ela piscou confusa.
- Ô menino, desculpa, mas eu tô achando cê muito estranho. Vem aqui do nada e fala umas coisa estranha. Tá certo que você é sobrinho da Rose, mas mesmo ass-
- Você tem a cara mais triste que eu já vi. — Falou com uma certeza que não sabia que tinha. Como a mulher ficou sem reação, deu um gole no café sem tirar os olhos dela. Pôs a xícara de volta no pires — E num tem coisa mais bunita que a tristeza.

Vanessa sentiu um estalo. Luciano derrubou o café na mesa de centro. Subiram.

O corpo de 48 anos estava conservadíssimo. O rapaz sentia uma mulher por inteiro pela primeira vez e quando acabaram, deitados na mesma cama de casal dos donos da casa (com lençóis novos), Luciano, olhando pro teto dourado pelo fim de tarde, disse

- Vanessa, cê é igualzinha uma balzaquiana.

A mulher não sabia o que “balzaquiana” queria dizer, mas também não sentiu vontade de perguntar. Apenas imaginou que fosse uma coisa bonita.

O que aconteceu a seguir foi rápido. Dois dias depois, quando Luciano voltava pra casa de noite, em um bairro mais afastado do centro da cidade, viu luzes fortes se aproximando do fim da rua. A Hilux vinha rápida e freou de repente quando chegou perto do rapaz. Claudiney apontou a 9mm e apertou o gatilho cinco vezes. Um dos tiros acertou o olho esquerdo do rapaz. Pequenos restos de córnea espalharam-se pelo asfalto. A caminhonete rugiu. O marido corno não estava apreensivo. Sabia que nada lhe aconteceria e que ajustes de contas desse tipo eram mais que comuns na cidade. Não esquecera da mulher. Seu rosto demorou dois meses e uma cirurgia plástica para voltar ao normal. Obviamente, os dois não se separaram.

Na volta pra casa, depois do assassinato, passou pela mesma pracinha que costumava cruzar sempre. Os dois velhinhos terminavam uma cerveja. Um deles olhou com preguiça: “Alá. Esse daí venceu, ó.”