Viva para você e por você

Em meados de 2016, aceitei algo que mudou minha vida: sou extremamente ansioso. Descobri isso da pior forma possível: acordei no meio da madrugada com metade do meu corpo dormente. Fui correndo para o hospital entender o que estava acontecendo e o médico, intrigado por não haver nenhum sinal de mal funcionamento cardíaco ou neurológico, começou a fazer diversas perguntas.

- "Você está estressado? Você está dormindo bem? Você tem algum problema no relacionamento? Como estão as coisas no trabalho? Você pratica exercícios físicos? Você passou por algum trauma recente? Você está nervoso com alguma coisa?"

O médico de plantão era neurologista, mas de tanto que eu desabafei, o neurologista virou psicólogo por 30 minutos. Foi uma pessoa que pude conversar e me abrir, sem pressão , sem medo de ser julgado. O alívio do desespero foi instantâneo e o que ele me falou depois, me fez começar a mudar minha vida:

- "você tem um quadro clinico normal, sua situação é que você tem ansiedade crônica e você experimentou um ataque de pânico."

A partir de então, comecei a pensar o que me fez chegar onde eu cheguei — em um consultório médico, às 2h da manhã, com metade do corpo dormente. Percebi que eu não gostava muito de quem eu era e me privava constantemente das coisas que eu gostava de fazer para ficar bem na fita com outras pessoas, pois eu tinha um medo enorme de ser julgado. Queria ser o cara mais legal, o mais conversador, o mais de boa. O namorado exemplar. O amigo mais dedicado. O genro mais divertido. O filho exemplo.

Mas sabe de uma coisa? E se eu não quiser, de verdade, ser nada disso? E se minha vida girasse em torno da minha vontade de ser o melhor para mim mesmo e não para os outros? Comecei a entender um pouco mais sobre mim e fazer as coisas que me faziam feliz. E daí se eu quiser tomar uma cerveja sozinho em casa depois de um dia estressante? E daí se eu quiser sair do trabalho e ir para um bar sozinho? E daí se eu quiser visitar minhas amigas, ou amigos, sem me preocupar com o que fulano(a), sicrano(a) vai pensar? E daí se eu não quiser a companhia de ninguém e só ficar sozinho, na companhia do meu violão e de um cigarro? E daí se eu quiser fazer, enfim, o que eu quiser?

Aos poucos o medo de ser julgado foi indo embora. Aos poucos eu comecei a aceitar quem eu sou , o que eu gosto e quero fazer, e também o que eu não quero e não suporto fazer. Aprendi a dizer não. Talvez. Hoje não posso. Não to afim. Aprendi a filtrar as críticas e trazer comigo realmente o que importa. Aprendi a errar e aprender com meus erros. Aprendi que não preciso ser perfeito pra ninguém. Aprendi a me despedir de pessoas que já foram importantes, mas que para esse novo momento da minha vida, não se encaixavam mais. Aprendi que precisamos, antes de tudo, viver para nós mesmos e não para outras pessoas. Aprendi que, tudo isso que vivi ano passado, foi o que fez de 2016 o meu melhor ano e me trouxe uma das maiores descobertas pessoais: se eu viver pra mim e me apaixonar por quem eu sou todos os dias, todo o resto vira consequência.

Descobri que sou assim: divertido, espontâneo, livre, propício a erros, imperfeito. Nada e ninguém teria graça se o mundo fosse assim, prefeitinho, alinhadinho, com o cabelo cortado e penteado pra trás. Vamos ser imperfeitos, aprender a viver para nós mesmos ao invés de viver para agradar os outros.