INEXTINGUÍVEL REGRESSO


As coisas desditas marcaram largamente

Langorosas, vívidas, cíclicas.

Abraço-me no frio para enganar o que já sei

O calor se agarra, chora copiosamente

Não quer largar estes braços,

Pendura-se e balança ao sabor da ventania

Nesta curva abençoada que chamamos de desconhecido.

Pena que os buracos desta estrada são o tempo;

Indiferente e baço

Ao mesmo tempo cruel e agudo.

De repente

O vento para…


A brisa recupera um entoar de presságios magníficos.

Obrigado,

Tempo?

Ambivalência bendita!

Estrutura estes braços,

Aumenta os passos,

Diminui perante esta pequena grandeza!

E aí te desafio!

Sopra!


A curva se precipitou para fora

Perdemos o prumo

O vento ganhara.

Era tarde demais

“como imaginava…”

No chão se estatela um vaso ornado de…

Tempo…

E rosas e plumas e abelhas e chuva…

E por que não lágrima e consolo?

Ou lágrima e ardor?

Ou só lágrima…


O vaso cai desafiando o chão

“VENHA!”, crocita o lacunoso destino.

As roses se abrem num último suspiro

Espinhos e vermelho vicejam melancolicamente

Ao redor de plumas.

O tempo paira indolente,

Parece respeitar o vaso

Ou temer a queda.

Abelhas surgem e sugam o néctar metafísico,

Algumas ficam lindas e outras murcham totalmente.

Insetos históricos

Embebedados de tempo e lágrima,

Resquícios do jardim que me habita.

Chuva e lágrimas se misturam

Escoam ferozmente ao redor do jarro.

O ornamento e a matéria são água

Debatendo-se com volúpia fatalista.

O jarro se esgota e cai…


(Cerro os olhos

Agônicos e doloridos

E não ouso olhar

Relego as sensações ao medo)


O estrondo é ensurdecedor

Preenche o núcleo do mundo

Instaurando maremotos infinitos e periódicos

Dominando o que fora planície e planalto.

Vales e picos são enxurrados intermitentemente por décadas

Sem se perceber do tempo.


Estrelas passaram e não vi;

O vaso ainda jazia nos meus pés

Eu sentia!


Uma culpa onírica se apossou de mim por eras

Mas a covardia falou mais alto sempre!

Um dia senti sede e tive que andar,

Mas “como!?”,

Já que não vejo.

Atentei que não sabia mais abrir os olhos,

Músculos e nervos haviam se acostumado.

Lutei contra os desígnios próprios

Criei nova autonomia

Até que os arregalei.

Adaptei-me à luz

Trôpego e sôfrego,

Dardejando o que chamam de visão.

E vi

Estirado sob meus pés

Areia…


Lamentações invadiram-me como tufões

Talvez fosse o tempo

Ou talvez fosse o impacto

Profuso e arrebatador

Tivesse sido tamanho que tornara tudo areia em segundos.

Mas a verdade,

Se é que existe,

É que nunca saberei por não abrir os olhos.

Deparei-me novamente com o tempo

Dessa vez, nostálgico

Um afago gigante

Que se estende incólume pelo mundo.


O vento volta a soprar

E traz consigo sussurros quentes

De memórias ardentes

De choros decadentes

De porvires e desencanto.

Sopra gentil as rugas de meu rosto,

Calejado pelo esforço da cegueira,

E me limpa e me lambe e me renova

A todo instante.


Como o tempo

É diferente no…

Tempo?

Como é que esse impreciso gigante

Multifacetado perfurante

Essa tortura progenitora

Esta nomeação primeira

Lambe, chora, suja, clama, geme e machuca?

E pula…

E…

Passa…


Agora tudo parece tão distante

Braço, calor e abraço

Terror, vazio e cansaço.

Hoje é tudo novo e imediato

Outro futuro.


Ondas retornam ás vezes para me banhar

De tempo.

Porém, agora fizemos as pazes.


Pelo menos lembro das abelhas e das lágrimas de chuva,

Comparsas necessárias,

Amantes até o fim.

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